Motivação e Participação

Motivação é essencial

Pesquisa mostra que o incentivo é uma das formas mais eficazes de estimular os estudantes e obter bons resultados no ensino

Natália Moraes - Especial para o Correio

O incentivo pode ser determinante para que um aluno tenha sucesso em qualquer disciplina, independentemente de idade ou de classe social. É isso o que evidenciam dados do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa, na sigla em inglês), analisados em estudo elaborado pela consultoria McKinsey. O levantamento mostrou os fatores que têm alto impacto no desempenho escolar dos alunos, entre eles a motivação pessoal, a combinação adequada de orientação do professor e investigação própria e a jornada escolar.

Segundo a pesquisa, essas constatações oferecem elementos para o aprofundamento da discussão sobre políticas que possibilitem a melhoria da aprendizagem e a busca de inovações no campo educacional. "A pesquisa reforça nosso entendimento de que, para haver avanço na qualidade da educação, é preciso um conjunto de intervenções diferentes. De qualquer modo, a importância da mentalidade do aluno, que é o conjunto de atitudes e crenças desses estudantes, chamou a atenção", explica a líder da prática de Política Pública e Social da McKinsey no Brasil e porta-voz do estudo, Patricia Ellen da Silva.

No Brasil, a pontuação dos alunos foi influenciada, sobretudo, por fatores ligados à motivação (29%) - à frente de características da escola (28%), contexto socioeconômico (14%), características do professor (14%) e outros fatores (15%). Ainda segundo Patrícia, a pesquisa é uma oportunidade para testar e trabalhar formas de motivação do estudante. "Vimos também que um aluno com uma boa calibragem de incentivo, mesmo que sua renda seja inferior, tem um desempenho escolar tão bom ou até melhor do que um aluno que tem renda superior e baixa calibragem. Calibragem é entender o que é, acreditar que a motivação ajuda o desempenho", detalha.

A especialista avalia que o ideal seria garantir que todos os alunos tivessem a mesma base de conhecimentos e aprendizagens desde o início da vida. "Para os alunos que não tiveram isso, temos a chance de ajudá-los a partir da motivação", observa. "O professor tem o papel fundamental. O bom educador é o maior fator que determina o desempenho escolar do aluno. O segundo ponto é a importância de trabalhar no aluno essa mentalidade de que ele pode ir além", acrescenta.


Transformação
Reconhecer as habilidades e respeitar a individualidade dos alunos é a estratégia usada pelo colégio Sërios para motivá-los. "Não se trata apenas de foco na psicologia positiva, mas de investimento na formação em sua integralidade, objetivando fortalecer os nossos estudantes", destaca a diretora pedagógica da educação infantil e fundamental, Vanessa Araújo.

A escola oferece aulas de design, circo, marcenaria, gastronomia, artes, música, educação tecnológica, entre outras, todas inseridas na grade curricular. Para Vanessa, essa é uma forma diferente de ensinar. "São recursos preciosos para o saber ser e saber fazer, espaços onde os alunos têm liberdade para exercitarem dons e talentos", relata. "A geração atual necessita do novo. A mesmice desmotiva um público que tem fácil acesso a tantas informações. São seres pensantes, capazes de transformar a realidade social, e têm energia suficiente para fazer várias coisas ao mesmo tempo, sem perder o foco. As aulas precisam ser atrativas, envolventes e surpreendentes. A sala de aula não pode estar limitada a paredes", finaliza.

E o que motiva?

O professor Rogério Fadul usa a linguagem de games para incentivar o aprendizado do aluno | Arthur Menescal/Esp.CB/D.A. Press.
O professor Rogério Fadul usa a linguagem de games para incentivar o aprendizado do aluno | Arthur Menescal/Esp.CB/D.A. Press.

Como em todas as estratégias na educação, o incentivo a que cada aluno vai responder é diferente e, por isso, exige capacidade de adaptação da instituição de ensino, que deve estar pronta para reconhecer as individualidades e, ao mesmo tempo, trabalhá-las em harmonia com todo o grupo em sala de aula ou em atividades extracurriculares. Dessa forma, a escola poderá garantir o engajamento e a motivação do aluno no aprendizado.

A psicóloga Camila Gerais, mestre em psicologia pela Universidade de Brasília (UnB), concorda que a motivação é o que impulsiona o aprendizado."Um aluno motivado tende a demonstrar melhores resultados. E a análise desses resultados reflete sobre as práticas pedagógicas da escola e aprimora o ensino e a aprendizagem", afirma. Segundo ela, que atua no atendimento clínico de crianças e adolescentes e em orientação a pais e a escolas, as atividades e fatores que motivam cada aluno são diferentes, por isso a importância de respeitar as individualidades.

A sugestão é usar metodologias que envolvam o estudante no processo, tornando-o participante, pois não há educação se o aluno permanece apenas como observador. "Toda pessoa dispõe de certos recursos pessoais que poderão ser investidos numa certa atividade. A forma como vão utilizar esses recursos vai ser diferente de uma pessoa para outra. Cabe ao professor estabelecer maneiras de ativá-los em seus alunos e motivá-los a participar e estar atentos às aulas", completa.

Na avaliação da especialista, o professor que conhece a importância da motivação no aprendizado saberá que é preciso criar interesse pelo que está ensinando. "Assim, o aprendizado se tornará muito mais efetivo e prazeroso. É importante que o professor entenda que ele não é apenas aquele que ensina, mas sim aquele que proporciona ao seu aluno condições de adquirir conhecimentos."

Diferentes motivos
Os benefícios da motivação podem ser diversos, conforme aponta o diretor-geral do Centro de Ensino Candanguinho (Cecan), Júlio Egreja. A aprovação, o prazer de satisfazer àqueles que depositam expectativas em você e a certificação são alguns deles. Em oposição a isso, os estudantes também podem se motivar para o estudo para fugir de consequências ruins, como a reprovação, a decepção causada nas pessoas de referência e a nota baixa no boletim ou no histórico escolar.

Há também aqueles motivos de ordem interna, quando a aprendizagem em si é geradora de satisfação. Neste caso, o aluno pode passar horas se dedicando àquela atividade sem demonstrar sinais de cansaço ou fome, por exemplo. "O sentimento de autoeficácia, a crença na própria capacidade de realização, vai alimentando a busca por novas aprendizagens. Esse sentimento é dependente dos retornos dos adultos. Não basta que o aluno tenha bom desempenho, ele precisa ter ciência disso", afirma Egreja.

O papel dos professores é fundamental nesse processo. "Conheci vários alunos que amavam o professor, mas detestavam a disciplina. Nesse sentido, o professor deve atuar como um mediador afetivo entre o estudante e os saberes. Deve aproximar os dois, despertando no aluno o desejo de aprender. Ferramentas educacionais e estratégias podem favorecer muito essa aproximação", afirma.

O coordenador de Eventos e Inovações do Cecan, Rogério Fadul, conhece bem essa necessidade e usa a tecnologia para aproximar os alunos do conteúdo formal. Por meio de jogos que se assemelham a games de computador ou aos disponíveis em consoles, ele dá um caminho divertido e interativo para o aprendizado nas aulas de biologia (leia Para saber mais). "Os alunos se interessam mais quando há o aplicativo. Alguns pais relatam que, quando chegam em casa, os estudantes já pedem o tablet para fazer o login e passar nas missões", relata.

Dar voz aos alunos também é necessário. Rafael Costa, 13 anos, estudante do 7º ano do ensino fundamental, conta que alguns dos amigos dele acham que deve ser chato estudar em uma escola em tempo integral, mas ele discorda. "Nós temos aula de gastronomia, de moda, de circo. Isso nos motiva muito. Já tivemos aula de inglês em um piquenique e, na aula de marcenaria, fazemos produtos para doar para pessoas carentes", conta. Felipe Grisi, também do 7º ano, diz que o que mais o motiva é ter professores em quem pode confiar. "Fica até mais fácil aprender e se interessar pelo conteúdo", afirma.

Para saber mais

Tecnologia como incentivo
O Grupo SEB, ao qual o Cecan pertence, investe no desenvolvimento de aplicativos e de projetos que sirvam como motores para a aprendizagem. O EducaCross, por exemplo, é uma plataforma digital em que os alunos do primeiro ciclo do ensino fundamental aprendem matemática jogando, em uma linguagem similar a de games, com fases, vidas, pontos e avatar. A instituição também trabalha com o Camaleon, plataforma utilizada pelos alunos do ensino médio que oferece exercícios de todas as disciplinas, devidamente calibrados. Caso ele vá acertando, outros mais complexos são introduzidos. Se o aluno não conseguir avançar, a plataforma o remete a conteúdos e novos desafios dentro daquele contexto ainda não transposto. Tudo isso de forma gamificada, ou seja, os alunos acumulam pontos ao longo do percurso, acompanhando o progresso de cada um

Estudantes e protagonistas

Como colocar em prática ações para que o aluno esteja no centro do processo de ensino e, assim, tenha acesso a uma educação cidadã?

Natália Moraes - Especial para o Correio

Deixar o aluno no centro do processo educativo, permitir que ele seja o protagonista da própria história e fazer com que ele participe de um mundo mais cidadão são alguns dos desafios da educação. Promover um espaço interativo, com troca de conhecimentos, é essencial para alcançar esse objetivo.

Diogo Mendes, coordenador dos ensinos fundamental e médio do Alub, na 706 Norte, diz que as instituições precisam entender que nenhum aluno chega à escola sem conhecimento prévio. Para ele, é importante conhecer a história de vida do jovem e educar a partir desse princípio. "Temos que compreender que o estudante não é uma tábula rasa. Precisamos trazê-lo para o centro do processo educativo, sim, não só como um indivíduo passivo", afirma. Entender e conhecer a demanda e a realidade de vida de cada um enriquece o processo. "Eles sempre têm algo a contribuir. E a grande importância da escola, hoje, é dar voz para esses indivíduos, pois, muitas vezes, eles são sufocados pela família, pela sociedade e até mesmo por educadores", afirma o coordenador.

Colocando o aluno na posição de transformador ou agente da própria história, ele acaba entendendo como o processo educativo funciona. "Trabalhamos com a cidadania ética, em que os meninos enxergam seus direitos em aulas de Constituição Federal, Estatuto da Criança e do Adolescente, direitos do idoso, entre outros temas. O aluno passa a entender o seu lugar na sociedade", resume Diogo.

Vocação
A gerente educacional do Alub e especialista em reestruturação pedagógica Learice Alencar observa que os professores precisam ser vocacionados. "Hoje, não há espaço entre os alunos para os saberes prontos. O professor precisa mediar a construção do conhecimento do aluno. Além disso, é preciso ter laços, vínculos, para que o processo de aprendizagem ocorra em interação e de forma diferenciada, em que o aprendiz é o centro do processo de ensino e aprendizagem", diz.

A especialista afirma que um dos grandes desafios do processo educativo é vencer o medo de perder o controle da escola e de que dar a voz aos alunos os coloque em situações constrangedoras diante da voz coletiva. "Para nós que vivemos em Brasília, o conteudismo fala muito alto com vistas às aprovações em exames, pois é possível que os pais pensem que as atividades que levam à participação e à formação cidadã exigem muitos projetos transversais e paralelos, o que pode levar à interpretação de que as aulas não estão sendo dadas", destaca. "Tem crescido, no entanto, o número de pais que buscam esse modelo de escola e de formação."

E os alunos têm muito a contribuir, segundo Learice, pois fazem parte de uma geração criativa e ágil. "Os projetos sociais inseridos no contexto da escola dão aos alunos a possibilidade de trabalhar para a sociedade. Temos um projeto de empreendedorismo social em que os alunos avaliam a comunidade em que moram, verificam em que poderiam contribuir de forma a melhorar algo por lá, elaboram um projeto, se mobilizam e agem. Os resultados são diversos: praça reformada, perucas para associação de câncer, feira de doação de animais, festa junina organizada para escola carente, entre outras. Isso sem falar nos debates riquíssimos que trazem contribuições bem fundamentadas", finaliza.

36% querem realizar atividades práticas ou resolução de problemas
27% desejam usar tecnologia
25% querem ter algumas disciplinas obrigatórias e escolher outras
18% preferem ter disciplinas obrigatórias no horário da aula e escolher as do contraturno

Fonte: Pesquisa Nossa Escola em (Re)Construção, realizada em 2016 com 132 mil adolescentes e jovens brasileiros - realização da agência Porvir e do Instituto Inspirare.

Esforço coletivo

Olavo Nogueira Filho, diretor de Políticas Educacionais do movimento independente Todos Pela Educação, explica que é necessária a implementação de políticas educacionais para que mudanças tenham impacto nos resultados acadêmicos dos estudantes. "Se não reconhecermos o desafio da educação, a chave para implementação de boas políticas, não conseguiremos melhorar os resultados. O aluno precisa ser protagonista e, no fim do dia, ele precisa estar envolvido de uma maneira satisfatória", comenta.

A opinião dos alunos corrobora a visão da coordenação e de especialistas. Gustavo Fe Luz, estudante do 2º ano do ensino médio do Alub, acredita que a escola não pode passar a sensação de ser um lugar chato. "O aluno não pode ter medo de voltar para a escola. Alguns temem, por causa da pressão do professor. Isso não pode existir, afirma.

InteraçãoJá Alexandre Marques, também estudante do 2º ano do ensino médio, relata que o que mais incentiva são os projetos, em razão da interatividade que proporcionam. "São coisas que vamos levar para a vida. Este ano, nós fomos para a creche e foi muito interessante. As crianças não têm a mesma condição financeira que a nossa, e isso abriu nossos olhos."

Aluno do 2º ano, Gustavo Fe Luz acredita que a escola precisa se esforçar para criar um espaço atrativo | Luís Nova/Esp.CB/D.A Press
Aluno do 2º ano, Gustavo Fe Luz acredita que a escola precisa se esforçar para criar um espaço atrativo | Luís Nova/Esp.CB/D.A Press

Alexandre Marques, estudante do ensino médio: trabalho social leva a abrir os olhos para outras realidades | Luís Nova/Esp.CB/D.A Press
Alexandre Marques, estudante do ensino médio: trabalho social leva a abrir os olhos para outras realidades | Luís Nova/Esp.CB/D.A Press

  • addConhecer

    Educadores precisam saber quem são seus alunos para entender melhor o seu perfil e as condições que favorecem ou dificultam a sua aprendizagem.Torna-se difícil oferecer uma educação que faça sentido quando não sabemos a quem estamos servindo. É preciso identificar onde esses estudantes vivem, sua realidade familiar e situação socioeconômica, sua trajetória escolar e dificuldades de aprendizagem, questões de saúde física e psicológica, interesses e expectativas, inclusive em relação à escola. O desafio, nesse caso, consiste em não rotular ou estigmatizar o estudante, mas utilizar essas informações a favor da sua aprendizagem.

    Como colocar em prática

    O trabalho de coleta e análise de informações sobre cada aluno torna-se mais viável quando compartilhado por gestores e equipe docente.

    Exemplos:
    • Questionários preenchidos no momento da matrícula ou no início das aulas para levantamento de informações relevantes sobre cada aluno;
    • Conversas individuais com as famílias, realizadas de maneira franca, estruturada e sem julgamento;
    • Atividades de integração na primeira semana de aula para que os alunos possam refletir e expressar ideias e sentimentos sobre si, sua realidade presente e suas expectativas em relação à escola, o ano letivo e o futuro;
    • Diagnóstico e análise de dados disponíveis sobre o desempenho de cada estudante e da escola como um todo.
  • addRelacionar

    Educadores precisam construir relações de confiança com seus alunos.Estudantes conectam-se mais fortemente a professores que lhes inspiram admiração, afeto e segurança, especialmente aqueles que são firmes, mas acolhedores e demonstram genuíno compromisso com sua aprendizagem. Por outro lado, ressentem-se quando os docentes não sabem nem os seus nomes, não os cumprimentam e subestimam a sua capacidade. Quanto mais profunda a relação com o educador, mais ele consegue estimular seus alunos a superar seus limites e seguir adiante.

    Como colocar em prática

    Os educadores que têm relações atentas e construtivas com seus estudantes não são necessariamente os mais bonzinhos ou divertidos. Professores que se preocupam verdadeiramente costumam estabelecer dinâmicas próprias de relacionamento com seus alunos, de forma a perceber o que é singular em cada indivíduo, exigir o máximo que cada um pode dar e reconhecer o valor de cada conquista. É preciso ainda ter cuidado para que preferências não interfiram na forma como os estudantes são tratados, a fim de que todos tenham sua parcela de respeito e atenção.

    Exemplos:
    • Criação de combinados da turma e da escola para uma convivência positiva;
    • Observação permanente do comportamento de cada aluno, com identificação de possíveis problemas e intervenção assim que necessário;
    • Conversas de encorajamento com os estudantes sobre dificuldades e avanços;
    • Realização de atividades extraclasse para convivência mais próxima em ambientes mais lúdicos.
  • addPlanejar

    Educadores precisam planejar suas práticas pedagógicas em função do perfil e das necessidades de seus alunos.Gestores e professor devem considerar todas as informações de que dispõem sobre seus estudantes antes de tomar decisões importantes. Alunos que aprendem com mais dificuldade ou em ritmo mais lento, bem como aqueles mais rápidos ou desmotivados devem ser permanentemente considerados, para que não acabem deixados para trás. Programas pré-formatados e sequências didáticas estruturadas funcionam bem como referências quando podem ser readaptados em função da realidade de cada rede, escola ou turma.

    Como colocar em prática

    Os educadores têm sido convidados a atuar como designers da aprendizagem. O designer é aquele profissional que entende a necessidade das pessoas e desenha as melhores soluções para atendê-las. Assim também, gestores e professores precisam entender as especificidades de seus estudantes e planejar suas atividades de forma a contemplá-las, para que cada um garanta o seu direito de aprender e se desenvolver.

    Exemplos:
    • Planejamento de práticas pedagógicas diversificadas, que contemplem diferentes perfis de alunos;
    • Escuta dos estudantes para mapear percepções sobre a dinâmica da escola e das aulas e identificar o que está funcionando e o que pode melhorar;
    • Divisão do tempo de aula em diferentes momentos e atividades para permitir que todos acompanhem;
    • Divisão da turma em subgrupos para realização de atividades diferenciadas, que atendam a necessidades específicas.
  • addEngajar

    Educadores precisam engajar seus alunos para que se sintam comprometidos com o seu processo de aprendizagem e encorajados a continuar se desenvolvendo.O desinteresse dos estudantes é um dos principais motivadores de infrequência, indisciplina, baixo aprendizado, abandono e evasão escolar. Quanto mais envolvidos e atuantes no cotidiano das suas escolas, maior a chance de aprenderem e menor a probabilidade de decidirem parar de estudar. Engajamento significa promover a efetiva participação dos estudantes nas atividades pedagógicas e de gestão, na tomada de decisões, na elaboração de projetos, entre muitas outras possibilidades.

    Como colocar em prática

    A participação pode acontecer de forma superficial, decorativa ou manipulada, com estudantes apenas executando tarefas prescritas por seus educadores. Mas o engajamento acontece de fato quando gestores e professores se dispõem a abrir mão das suas certezas e do seu poder, para compartilhar dúvidas e tomar decisões junto com seus alunos.

    Exemplos:
    • Escuta sistemática dos estudantes, especialmente antes da tomada de decisões que afetam a sua vida escolar;
    • Flexibilização para que alunos possam fazer escolhas em relação ao ambiente da escola, à dinâmica das aulas (como aprender) e a aprendizagens do seu interesse (o que aprender);
    • Abertura de oportunidades para que estudantes sejam coautores de práticas pedagógicas, projetos, eventos, produtos, entre outras criações relacionadas à sua aprendizagem;
    • Abertura de oportunidades para que alunos se corresponsabilizem por decisões e pela busca de soluções para os problemas da sua escola, sempre em colaboração com gestores e professores.
  • addAcompanhar e Avaliar

    Educadores precisam acompanhar e avaliar o desenvolvimento dos seus alunos de forma a assegurar que todos aprendam.Nenhum estudante pode ser deixado de lado, por isso gestores e professores devem estar atentos a como cada estudante evolui ao longo do seu processo educativo. Acompanhar significa estar ao lado para apoiá-los quando as coisas não estiverem caminhando bem, rever estratégias pedagógicas que se mostrarem ineficazes e estimulá-los a dar o melhor de si. Já a avaliação não pode ser vista como instrumento de punição, mas como termômetro que indica se os objetivos estão sendo alcançados e se os direitos de cada um à educação estão sendo garantidos.

    Como colocar em prática

    Grande parte das vezes, as avaliações escolares respondem mais a demandas dos sistemas de ensino do que dos estudantes. Muitas não são capazes de ajudá-los a superar suas dificuldades. Acompanhamento e avaliação centrados nos alunos têm a preocupação de entender como aprender, o que já aprenderam e o que ainda precisam aprender, oferecendo-lhes às condições necessárias para superar adversidades e seguir se desenvolvendo. Por isso, precisam envolvê-los em todo o processo.

    Exemplos:
    • Observação atenta do comportamento e da participação de cada aluno e devolutiva clara e propositiva para que eles próprios possam se corresponsabilizar por seus avanços;
    • Mentoria para apoiar os estudantes a estabelecer objetivos, organizar seus estudos e superar suas dificuldades;
    • Utilização de plataformas tecnológicas ou recursos similares para realizar avaliações em tempo real, a fim de detectar rapidamente as lacunas de aprendizagem e oferecer outras estratégias pedagógicas para aqueles que não conseguem avançar;
    • Utilização de práticas de avaliação diversificadas, que atendam a diferentes perfis e possam verificar o desenvolvimento intelectual, físico, social, emocional e cultural dos estudantes.
Fonte: Porvir, com adaptações

A escola que a gente faz

Representações estudantis propiciam o desenvolvimento político e ajudam o aluno a entender que é possível a realidade, mas participar exige responsabilidade

Álef Calado - Especial para o Correio

Vivian Carvalho, Ana Beatriz e Nícolas Plattner integram o Grêmio do Centro de Ensino Médio Setor OEste | Alef Calado/Esp.CB/Esp.CB/D.A. Press
Vivian Carvalho, Ana Beatriz e Nícolas Plattner integram o Grêmio do Centro de Ensino Médio Setor OEste | Alef Calado/Esp.CB/Esp.CB/D.A. Press

Você sabe o que é gestão democrática? É um modelo administrativo que visa promover a participação de personalidades diretamente ligadas à comunidade escolar, como pais, professores e os próprios alunos, no dia a dia da instituição. Determinado pelo artigo 206 da Constituição Federal e regulamentado pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) e pelo Plano Nacional da Educação (PNE), o sistema possibilita maior atuação dos estudantes e traz uma série de benefícios para o desenvolvimento acadêmico e pessoal deles.

A ideia é que a comunidade escolar abra as portas para a sociedade, a fim de que seus integrantes possam sugerir formas diferentes de atuação, estabelecer projetos, solicitar mudanças e o que mais couber às competências da instituição. As aulas tradicionais não são afetadas, mas o modelo traz uma série de possibilidades, desperta o interesse dos discentes e os insere na realidade do colégio.

O Centro Médio Setor Oeste (Cemso), na Asa Sul, é um exemplo de escola onde o aluno pode contribuir para a construção do ambiente educacional. Além da comissão de formatura e dos representantes de turma, eles podem participar do grêmio. "São atividades que ajudam no desenvolvimento de senso crítico, envolvem debates e demandam certa responsabilidade", explica a diretora, Ana Maria Gusmão.

Ana Beatriz Pastor, 16 anos, Nícolas Plattner, 15, e Vivian Carvalho, 16, fazem parte do Inove, grêmio que representa os estudantes do Cemso. "Sempre tentamos colocar uma pessoa de cada ano, para que haja uma maior representatividade", explica Ana Beatriz Pastor, estudante do 2º ano. Os integrantes podem ser escolhidos por voto popular ou por indicação de terceiros. "Sempre tem um número equilibrado de participantes, tanto por série quanto por turno. Todos eles passam por entrevistas e, após análise e votação, ocupam ou não um cargo no grêmio", completa.

Entre os projetos sociais de responsabilidade do Inove estão o Por Você, que atende crianças de creches carentes; o InClub, que promove debates sobre assuntos pertinentes a economia e a política; e a Semana de Educação para a Vida, onde os alunos discutem temas que fogem do currículo escolar.

Com relação às mudanças estruturais, o grupo conseguiu mobilizar a direção para a instalação de tendas na área verde e de cestos de coleta seletiva. A próxima missão é cobrir a quadra poliesportiva. "Eu vim de uma escola que não tinha nenhum atividade do tipo e era bem complicado para os alunos se expressarem, faltava representatividade. É um trabalho muito gratificante, porque estou melhorando a minha escola e contribuindo para uma mudança necessária no meio social", relata Nícolas, aluno do 1º ano.

Além de ajudar os colegas, os estudantes acreditam que a participação no projeto traz uma bagagem curricular interessante, que certamente será válida na escolha da profissão. "A maioria das pessoas que faz parte do Inove tem grandes expectativas para o futuro e vemos alguns ex-integrantes que seguiram caminhos interessantes e assumiram bons cargos. Às vezes é difícil, cansativo, mas sempre tentamos dar o nosso melhor, e acho que isso é o que conta no final", comenta Vivian.

Autonomia
Para os alunos, autonomia é uma das palavras-chave. "Costumamos fazer algumas melhorias no ambiente escolar. Quando uma mesa ou um ventilador quebram, o grêmio fala com a direção para ver o que pode ser feito", explica Nícolas. "Um dos nossos lemas é que precisamos ser proativos. Isso não vale só para o presidente ou vice-presidente do grêmio, mas também para os próprios alunos", detalha Vivian.

A diretora Ana Maria confirma que a escola dá certa autonomia para os representantes, mas explica que todos os projetos propostos devem ser submetidos à direção. "Eles nos ajudam nas demandas mais imediatas da escola e trazem algumas reclamações dos alunos. Mas deixamos claro que tudo o que eles quiserem fazer tem que ter acompanhamento ou da direção ou do conselho escolar. Mesmo o grêmio tem que se submeter a uma instância, até para ter a orientação adequada."

A voz da turma

Apesar de o grêmio ser o órgão de representação máxima dos estudantes, existem outras formas de participação que aproximam os alunos da gestão e ajudam a desenvolver habilidades de liderança e a noção de responsabilidade. Por meio desse engajamento, eles conseguem se integrar melhor e percebem e aprendem a respeitar as necessidades e opiniões dos colegas.

No Sigma, além do grêmio estudantil, os alunos do segundo ciclo do ensino fundamental até 3º ano do ensino médio contam com a voz dos representantes de turma. "Eles são eleitos por votação e atuam de maneira muito ativa em relação às demandas da turma. O aluno escolhido fica com a missão de passar para a coordenação, os apontamentos da classe e vice-versa. Assim, recebemos todas as considerações e não precisamos interromper a aula para conversar com a classe. Fica tudo mais rápido e fluido", explica Gláucia Brito, coordenadora de ensino médio da unidade da 912 Sul.

"Nós, basicamente, somos o elo entre o grêmio e a sala, a sala e o pessoal da orientação e a orientação e os alunos", esclarece Lucas de Matos, 17 anos, representante do 3º ano D. "Quando a turma tem alguma reclamação, ficamos responsáveis por conversar com a direção e fazer o possível para esclarecer a situação", completa Gabriel Sales, 17, representante do 3º ano A.

Para nenhum aluno ficar sobrecarregado, a escola trabalha com representações específicas para determinadas demandas. "Um estudante das turmas de 9º ano do fundamental e 3º do médio fica responsável só pela comissão de formatura. Na Semana Cultural, isso também ocorre, e cada um fica com um tema. Independentemente da função, os eleitos, em geral, são muito atuantes e fazem o difícil papel de dividir com o resto da turma tudo que foi acordado durante as reuniões", comenta a coordenadora.

E não precisa ser o aluno com as melhores notas. Para representar a turma, basta ter perfil de liderança e horário na agenda. "A escola não se intromete nas eleições, justamente porque aquele estudante foi eleito pelo grupo dele para atuar para o grupo dele. A única recomendação que eu dou é que eles se lembrem que o representante tem atribuições e deve encaixar essas atividades na sua realidade, seja ela escolar ou pessoal", observa Gláucia.

As reuniões são comuns e é preciso ter responsabilidade. Os representes das turmas explicam que todos se reúnem com o grêmio, pelo menos uma vez por mês, para encaminhar demandas e reclamações. Precisam também preparar o Recreio Cultural, um intervalo um pouco maior, onde todas os terceiros anos se reúnem para discutir temas de interesse conjunto.

Benefícios fora da escola

Os projetos relacionados à representação estudantil trazem ganhos diferentes daqueles observados nas salas de aula, relacionados ao conteúdo formal. Para a psicopedagoga Amanda Rangel, a participação é fundamental no desenvolvimento do aluno. "Tanto as representações de turma quanto os grêmios estudantis estimulam um senso de equipe e oferecem empoderamento aos estudantes. Atuando em trabalhos como esses, eles aprimoram os conceitos de responsabilidade e de coletividade e aprendem a se virar para achar soluções para os próprios problemas."

A professora Natália Carvalho, 32 anos, mãe de Vivian, notou uma diferença no comportamento da filha depois que ela entrou para o grêmio. "Eu era um pouco contra, por achar que acabaria atrapalhando os estudos, mas, depois, percebi que esse tipo de projeto ajuda a construir um espírito de liderança tanto nela quanto nos colegas que estão convivendo com ela. De lá para cá, ela está mostrando uma responsabilidade que antes não tinha em casa e certamente desenvolveu porque, no grêmio, tem que respeitar uma série de normas e de prazos", conta.

Para Sabine Plattner, 53, também professora e mãe de Nicolas, a participação no projeto ajuda o filho a se conhecer melhor e a aprender a lidar com o sentimento de perda. "Pensar um pouco no próximo e nas consequências das suas ações com os outros são alguns dos benefícios. É um grande aprendizado social. Ele já teve que lidar com momentos em que não foi possível sair vitorioso e, mesmo assim, não desistiu. Continuou se empenhando, se encaixando, assumindo responsabilidades."

Já a auditora fiscal Rosemary Sales, 46, mãe de Gabriel, ficou receosa de que a atividade atrapalhasse a rotina de estudos. "Como ele é do 3º ano, fiquei preocupada, mas, já que era do interesse dele e ele se comprometeu a conciliar, deixei", diz. Para ela, os benefícios também são variados. "Além da proatividade, do interesse em se envolver, eles trabalham a liderança, aprendem a respeitar opiniões diversas e se comprometem a dar o seu melhor. Ele sempre foi bem responsável, mas, este ano, eu vejo que ele está mais empenhado em atingir os próprios objetivos."

Opções de participação
Veja quais as formas de atuação dos estudantes na gestão a escola pode oferecer

Grêmio estudantil
Órgão máximo de representação dos alunos, pode elaborar propostas, sugerir atividades, participar da organização do calendário letivo e solicitar alterações na estrutura física da escola. As eleições são feitas por meio de voto popular, e a chapa vencedora trabalha diretamente com a direção e a coordenação. O número de membros e os cargos variam de escola para escola e o colégio deve disponibilizar uma sala para ser a sede ou um local para reuniões.

Representantes de turma
Um ou dois alunos - um representante e um vice-representante - são escolhidos, por meio de votação com a sala, para defender as vontades da turma. O estudante eleito fica responsável apenas pela classe onde está matriculado. Pode existir ainda o Conselho de Representantes de Turma (CRT), grupo que trabalha diretamente com o grêmio para ponderar sobre assuntos do interesse do corpo discente.

Comissão de formatura
Grupo que fica responsável por resolver todos os trâmites envolvendo a formatura da turma. Conversa com a classe para escolher oradores e juramentistas e indicar paraninfo e professores homenageados.

Conselhos de classe
A cada bimestre, representantes das salas são chamados para participar de uma reunião para tratar sobre assuntos pertinentes ao relacionamento entre discentes e docentes.

Coletivos
Rodas de conversa sobre assuntos relativos à realidade do brasileiro. É uma chance de dar voz às minorias e conscientizar os estudantes sobre a importância de falar sobre temas nem sempre abordados no currículo escolar.

Formação integral

Projetos desenvolvidos em escolas de Brasília transpõem os limites da sala de aula e incentivam práticas sustentáveis e solidárias

Álef Calado, Jéssica Luz e Natália Moraes - Especiais para o Correio

Inovar no modo de se transmitir conhecimento não é mais algo opcional. É necessário apresentar alternativas para que os estudantes se sintam parte de um ambiente que valoriza o que são além da sala de aula. Aprender sobre natureza, robótica, empreendedorismo, atividades socioeconômicas, entre outros temas, tornou-se essencial.

A psicopedagoga do Colégio Projeção de Sobradinho, Evely Godoy, explica que essas atividades trazem motivação, autoconhecimento e melhoram a autoestima dos estudantes. "A partir delas, eles conseguem se conhecer melhor. Elas favorecem a capacidade de desenvolver situações, melhoram o raciocínio lógico e aprimoram o pensamento crítico, habilidades que a grade curricular, por ser muito engessada, não consegue trabalhar", avalia.

Outro ponto importante destacado por especialistas é que os pais também devem apoiar os projetos propostos e ajudar os filhos a desenvolvê-los em casa, quando for o caso. A tarefa dos responsáveis não acaba por aí. O contato com questões políticas e sociais vai além do ambiente escolar e precisa ser estimulado pelo núcleo familiar.

Confira alguns dos projetos desenvolvidos por escolas no Distrito Federal e como eles contribuem para a formação dos alunos.

Dando voz aos pequenos

Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
Marcelo Ferreira/CB/D.A Press

Talvez você se identifique com a seguinte situação: seu filho tem apenas 5 ou 6 anos, mas, se colocarem um celular em suas pequenas mãos, ele provavelmente saberá manusear o aparelho com a destreza de quem tem o dobro dessa idade. Mas será que se você colocasse as mesmas pequeninas mãos na terra elas saberiam o que fazer?

O projeto voltado para o cultivo de uma horta no Colégio Dom Bosco, com alunos do 1º ano do ensino fundamental, mostra resultados positivos tanto para a escola quanto para os estudantes - dentro e fora de sala de aula. O objetivo é fazer com que os alunos, além de vivenciarem a prática do plantio, aprendam como devem ser os cuidados e a colheita. Os que concluem todas as etapas ganham receitas, para que sejam feitas em casa, com os pais.

Sarah Velasco, 6 anos, Letícia Capistrano, 6, João de Abreu, 6, Davi Oliveira, 6, e João Matheus Matos, 7, fazem parte do projeto da horta, além de participarem de outras atividades propostas fora do ambiente de sala de aula. Para as crianças, apesar de ser um momento de aprendizagem, a diversão sempre está presente. Mesmo muito pequenos, eles compreendem que, além de legais, determinadas atividades trazem ensinamentos. A aplicação do que aprendem se reflete no que fazem em casa.

"Para que os alunos tenham uma vivência significativa e uma aprendizagem que faça a diferença, é importante sair um pouco do padrão. Aqui na escola, o material da nossa editora já propõe e se adequa às nossas ideias. Ou seja, o material e a escola são essenciais, mas nossos professores também precisam estar dispostos para receber o novo e abraçar esse método. Caso contrário, não é possível trabalhar com essa dinâmica", ressalta Ana Cláudia Goldner, coordenadora pedagógica da escola.


O que pensam os pais
Para Patrícia Capistrano, 37, mãe da Letícia, é importante envolver o lado social e cidadão das crianças. "Eu acho que esse tipo de trabalho foi feito não só para formar um bom profissional no futuro, mas também um ser humano mais completo. Essas saídas acabam ajudando a desenvolver a cognição dos alunos. A Letícia está passando por essa fase de amadurecimento e acho que a escola também tem um papel fundamental em tudo que está acontecendo na vida da minha filha no momento", pontua.

Já Daniela Viana, 35, além de mãe da Sarah, é professora no Dom Bosco. "Ela é filha única, então é bem importante que ela tenha essa prática fora de sala de aula com outros colegas, porque terá uma referência que vai além da mãe e do pai. Isso proporciona um amadurecimento grande na vida dela", observa. "Além disso, eu vejo que ela se empolga bastante com os projetos e isso traz um crescimento que talvez ela não teria caso ficasse apenas dentro de sala de aula ou com a gente em casa", relata.

A escola tem o papel de completar a formação de João Matheus, na avaliação da mãe dele, Ellen Teles, 35. Ela acredita que as atividades reforçam o que é ensinado dentro de casa pelos pais. "Na escola, além da horta, existe o projeto de aprender a reciclar. São coisas simples e que fogem do convencional, mas eu posso ver que isso traz para casa uma aplicação maior dele, porque a escola reforça o que a gente busca ensiná-lo. É como se a escola selasse determinadas atividades socioeducativas como verdade e, por isso, ele se engaja mais nas questões", finaliza.


Projetos fixos da escola

Moeda
Os alunos aprendem, na prática, sobre a história, importância e modos de utilizar o dinheiro.

Semear
Alunos entram em contato com a natureza e, além de plantar, cuidar e colher, levam seus cultivos para casa e desenvolvem receitas sugeridas pelas professoras.

Brincadeiras infantis
É o resgate da história e da forma de brincar de antigamente. Leva o aluno a valorizar atividades em grupo.

Reciclagem
Com a ajuda dos pais, as crianças levam para a escola materiais recicláveis que foram descartados em casa e produzem brinquedos.

Conexão com a política

David Bair (E), diretor do Upper School, Roberto Miyamoto (D), coordenador ambiental com os alunos João Bosco e Amanda da Escola Americana | Luis Nova /CB/D.A Press
David Bair (E), diretor do Upper School, Roberto Miyamoto (D), coordenador ambiental com os alunos João Bosco e Amanda da Escola Americana | Luis Nova /CB/D.A Press

A Escola Americana de Brasília desenvolve o projeto Brasília Model United Nations (BSNMUN), em que os alunos levam escolas do Entorno do DF e até de outras unidades da Federação para participar de um evento em que os alunos simulam a atuação na Organização das Nações Unidas (ONU). O aluno do 12º ano, equivalente ao 3º ano do ensino médio, João Bosco Lucena, conta que os estudantes participam representando diplomatas em comitês. "O evento é organizado por estudantes, com assistência dos professores. Nós decidimos tudo sozinhos, desde a moderação dos comitês até o gasto com as comidas e patrocínios", afirma. Esse projeto, assim como outros, foi idealizado pelos próprios alunos da instituição.

A líder de um outra iniciativa da escola Amanda Coelho, também do 12º ano, conta do TEDx Youth, que é uma ramificação baseada no programa TED, evento mundial com palestras sobre vários assuntos. Esse é uma versão do ensino médio. "O programa original ocorre com adultos e profissionais, o nosso TEDx é organizado e apresentado por alunos da escola. Os oradores escolhem um tema de seu interesse, desde que seja uma ideia original. Já tivemos palestras sobre ansiedade, adoção e propostas incomuns, por exemplo. E teve um pai que veio palestrar também e contou como sobreviveu a um tsunami na Ásia. É bem diversificado", relata. O evento foi realizado pela primeira vez em fevereiro deste ano e, até hoje, as lembranças são boas entre os adolescentes.

O diretor do Upper School - equivalente ao ensino médio brasileiro - , David Bair, acredita que os alunos têm poder para fazer coisas maravilhosas dentro e fora da escola. "Aqui eles têm vez. Qualquer ideia pode ser discutida e, se possível, executada. Muitas vezes, eles fazem sozinhos e nós apenas damos a assistência necessária", afirma. David conta que alguns alunos participaram da confecção do código de honra da escola e até da última mudança do uniforme.

Outro exemplo do engajamento dos estudantes é dado pelo coordenador ambiental, Roberto Miyamoto. Ele conta que o cargo que ocupa foi criado por uma demanda dos próprios alunos. Além de comandar vários projetos ecológicos, Miyamoto é supervisor do projeto EAB Goes Green, em que os estudantes montaram, praticamente sozinhos, uma estação solar que carrega baterias de celular. "Eles que queriam fazer esse painel e chegaram com essa ideia. Então nós fomos atrás de alguma loja que vendesse o material e eu os coloquei em contato com um projeto social sobre isso e com alguns engenheiros da UnB (Universidade de Brasília). Em conjunto, eles fizeram uma estação que é uma cadeira de bambu e pallets viraram uma placa solar. Eu só supervisionei."

O que pensam os pais
Para Liam Torres, pai de Ana Beatriz, ex-aluna da Escola Americana de Brasília, hoje com 19 anos, os projetos voltados para os jovens, nos quais eles têm voz na instituição e aprendem de uma maneira diferente, são extremamente necessários. "Minha filha aprendeu e ser mais cidadã, a se interessar por temas diversos, e passou a ser mais independente. Acho que uma grande parte disso veio dos projetos da EAB. Ela chegou a participar da simulação das Nações Unidas e aprendeu muito com isso. Hoje, ela é uma jovem proativa com interesse na política", relata.


Projetos fixos da escola

Brasília Model United Nations (BSNMUN)
Evento em que os alunos da EAB organizam e convidam alunos de outras instituições para simulação do encontro das Nações Unidas

TED X Youth
Baseado no programa TED, organização mundial com palestras sobre vários assuntos. A ramificação jovem da EAB para o projeto internacional ocorre anualmente e os próprios alunos dão palestras sobre temas de seu interesse .

EAB Goes Green
Projeto em que os estudantes aprendem, na prática, ações ecológicas para um mundo melhor. Além das construções de pontos de energia solar, os estudantes têm a oportunidade de aprender mais sobre coleta seletiva de lixo, plantações conscientes, entre outras coisas

Habilidades valorizadas

Daniel Rodrigues, diretor do SEB Dinatos, explica que a instituição investe em uma formação variada para os estudantes. "O aluno pode participar das clássicas escolinhas de esportes, aulas de dança, circo, projetos sociais, feiras do conhecimento e das saídas de campo. Claro que as exigências acadêmicas são importantes, mas ele também precisa estar preparado social e emocionalmente."

"É no pós-aula que temos a oportunidade de descobrir um monte de talentos. Os projetos estimulam criatividade, liderança, espírito de equipe e melhoram o desempenho escolar. Na maioria das vezes, os alunos que participam de atividades extracurriculares são os que tiram as maiores notas", garante.

Daniel ressalta a importância de formar profissionais cada vez mais humanos. "Investimos em vários projetos sociais. Para o mês de outubro, estamos arrecadando brinquedos para doar a crianças de uma creche carente. Também é comum que os alunos visitem asilos e ajudem a realizar o sonho dos idosos", afirma.

A estudante Mel Colonna, 14, do 9º ano, não perde a chance de se envolver nos programas ofertados pela escola. Além do projeto Anjos, uma espécie de monitoria solidária em que os alunos ajudam uns aos outros, ela joga handebol e participa das visitas sociais. "As ações são extremamente importantes, porque nos ajudam a conhecer outras realidades e me incentivaram a criar o Fábrica da Alegria, um projeto independente em que a gente leva um pouco de felicidade para hospitais infantis", conta.

O que pensam os pais
A proposta de ensino que agrega conhecimentos de sala de aula com uma série de projetos extracurriculares agrada a enfermeira Íris Colonna, 47, mãe de Mel. "O aluno tem oportunidade de colocar em prática habilidades que ele nem sabe que tem. Matemática, biologia e português são fundamentais para o conhecimento, para a base da formação da criança."

Projetos fixos da escola

Olimpíadas
Prepara os estudantes para as Olímpiadas do Conhecimento.

Anjo
Os alunos prestam monitoria sobre assuntos que dominam.

Projetos sociais
Arrecadação de brinquedos, casacos e alimentos para serem doados a instituições carentes. Os alunos também visitam asilos e realizam sonhos de idosos

ONU SEB
Os alunos representam o delegado de algum país em uma conferência da ONU. Durante o evento, todos os procedimentos são conduzidos de acordo com o protocolo oficial da organização.

Outra forma de aprender

O Colégio Santo Antônio investe em uma dinâmica diferenciada de ensino. Para as turmas de educação infantil e séries iniciais - até o 4º ano - , a escola trabalha com um sistema chamado Metodologia de Projetos, que tira o professor do papel de detentor de todo o conhecimento e coloca o profissional como um mediador dos saberes do aluno. "Nós estabelecemos projetos que unem todas as disciplinas em volta de um único tema. No momento, as professoras do 1º ano, por exemplo, trabalham com a temática de Espaço Sideral para ensinar aos alunos conceitos gramaticais, teorias geográficas e fórmulas matemáticas", explica a assessora pedagógica da educação infantil, Fabiana Tollendal.

"Dentro da metodologia de projetos, essa aprendizagem passa a ter mais significado, pois o conhecimento que a criança já carrega também é valorizado", continua Fabiana. Todos os assuntos são trabalhados de forma coletiva, a fim de incentivar a participação da criança. A professora Daniela Almeida conta que os temas são estabelecidos a partir da empolgação dos alunos. "Com o assunto em mãos, iniciamos a correlacionar as disciplinas. Faço uma pesquisa prévia para entender o que eles sabem e começamos a aprender juntos."

Depois de ficar sabendo do tema, a pequena Giulia Mendonça, 6, teve a ideia de ir para a escola com a sua própria nave. "A tia Dani pediu um projeto e eu quis fazer um foguete. Minha mãe pensou em um de papelão, mas eu disse que podia fazer usando um bambolê. No outro dia, a gente levou para a escola e todo mundo gostou muito", conta, animada. Entre os conhecimentos adquiridos com o projeto estão os nomes dos planetas do Sistema Solar e a descoberta de uma estrela 102 vezes maior que o Sol. "É a Gigante Vermelha, o Sol é bem pequeno perto dela", explica a pequena.

Segundo Fabiana, além de despertar a curiosidade, o método é uma maneira divertida de ensinar. "A criança precisa desenvolver a arte, brincar, precisa aprender de uma forma lúdica para sentir prazer e para que esse conhecimento realmente tenha significado, porque aí sim ela vai estar aprendendo de uma forma ampla", conclui.

Lúcio Rômulo e Vanessa Bittencourt, pais de Giulia: felicidade e dedicação aos projetos até em casa | Arthur Menescal/Esp/CB/D.A Press
Lúcio Rômulo e Vanessa Bittencourt, pais de Giulia: felicidade e dedicação aos projetos até em casa | Arthur Menescal/Esp/CB/D.A Press

O que pensam os pais
Para a mãe de Giulia, a servidora pública Vanessa Bittencourt, 35 anos, a dinâmica funciona bem. "Em todos os projetos, ela chega em casa muito feliz, extremamente empolgada. Antes deste, eles estavam falando sobre animais e ela ficou fascinada com os bichinhos. Toda vez que a gente passa em frente ao zoológico, ela pede para visitar os bichos que estudou na escola", conta. "O do foguete foi muito legal, porque a família inteira participou. Envolveu vó, mãe, pai, irmão, todo mundo. Minha mãe lembrou da infância, de como ela aprendeu a decorar o sistema solar."

"A gente nota que, em vez de ser uma coisa maçante, os projetos envolvem as crianças, que ficam extremamente empolgadas e absorvem o conhecimento de uma maneira mais eficaz. A Giulia nos surpreendeu muito, porque, depois do primeiro projeto, que falou sobre Portugal, ela passou a reconhecer aspectos do país. Inclusive, não para de pedir para a gente ir lá conhecer", completa o empresário Lúcio Rômulo, 43, pai da menina.

Projetos fixos da escola

Virtudes e atitudes
Voltado para a formação humana. Por meio desse projeto, as professoras trabalham internamente nas salas de aula questões comportamentais e as principais virtudes do aluno.

Pequeno e bom leitor
As crianças leem um livro com as famílias e têm que recontar a história para os colegas de turma da forma que achar melhor. Vale usar fantasia, fantoche de meia e fazer teatro.

Caixa mágica
Direcionado a crianças de 4 anos que estão começando a trabalhar com as letras do alfabeto. A criança leva uma caixa com uma letra para casa e tem que trazer, no outro dia, objetos que iniciam com aquela letra para apresentar aos colegas. Isso ajuda na aprendizagem de novas palavras e no enriquecimento do vocabulário.

Diversidade de opções

O colégio internacional Everest, além do ensino do inglês, oferece 22 atividades extracurriculares. "De manhã, os alunos assistem a aulas em português e, de tarde, vão para outra sala, onde os professores ensinam outras matérias em inglês", explica Walkenia Freitas, coordenadora do extracurricular da escola, no Lago Sul.

Fã de cantores como Michael Jackson e Fred Mercury, Heitor Farias Chaves, 6 anos, aluno do 1º ano do ensino fundamental, faz aulas de robótica, violão, judô, street dance, teatro e participa do coral. "Sempre que tem alguma coisa legal, eu conto para os meus pais. Uma vez, montei um radar de K'nex (peças plásticas maleáveis para montar estruturas). É tudo muito legal", enfatiza, entusiasmado.

Cada atividade leva em consideração habilidades prévias que o estudante pode desenvolver. "Os professores são capacitados para identificar os dons da criança. É uma boa oportunidade de verificar o que pode ser usado dentro da sala de aula", completa a coordenadora Walkenia.

O que pensam os pais
A servidora pública Izabeth Farias, 42, e o administrador Sávio Chaves, 44, pais de Heitor, aprovam as possibilidades oferecidas pela escola. "O Heitor, desde sempre, tem bastante atividades. A gente foi colocando de acordo com o interesse dele, mas o coral fui eu quem sugeri. Acredito que o canto ajuda a equilibrar as emoções, trabalha a respiração e diminui a ansiedade. Ele mescla, todos os dias, uma atividade física, como o judô, com uma sentimental, como o teatro. Acho importante equilibrar isso", afirma Izabeth.

Sávio observa uma evolução no desenvolvimento do filho. "O principal é que esse conjunto visa extrair todo o potencial dele", conta.

Projetos fixos da escola

Academias de idiomas
Durante as férias de julho, crianças de 8 a 15 anos podem viajar, com a escola, para conhecer a cultura e o idioma de outro país.

Informática e robótica
Com metodologia diferenciada para cada série, o aluno pode exercitar criatividade e inovação e desenvolver habilidades inerentes ao século 21.

Proatividade estimulada desde cedo

Aulas de teatro e de circo são algumas das opções de atividades | Luis Nova/Esp./CB/D.A Press
Aulas de teatro e de circo são algumas das opções de atividades | Luis Nova/Esp./CB/D.A Press

O colégio Sërios oferece aulas de arte, cultura, tecnologia com foco na robótica, gastronomia, marcenaria, circo e design, todos na grade curricular. Na escola, os alunos têm a oportunidade de aprender a fazer produtos na marcenaria, como porta-retratos, porta-revistas, molduras, entre outros; aprendem os princípios básicos da cozinha e também a costurar. A diretora pedagógica da educação infantil e do ensino fundamental, Vanessa Araújo, conta que, às vezes, quando o uniforme de algum aluno rasga, ele tem a liberdade de entrar na sala de design e usar a máquina de costura.

O que pensam os pais

Denise Facundo, mãe de Isabela, 11, estudante do 7º ano, conta que as aulas envolveram a filha. "Ela se interessa pelo conteúdo mesmo estando fora da sala de aula. Esses dias, ela fez um brigadeiro para uns amigos dela e disse, toda orgulhosa, que aprendeu na escola", relata. Os projetos extracurriculares foram um dos fatores que a fez escolher a escola.

Projetos fixos da escola

Aulas de circo
Alunos aprendem a andar na perna de pau, brincar e dançar com tecidos e malabares.

Gastronomia
Quando pequenos, os estudantes aprendem o nome dos produtos de lavar louça e fazem massinha de modelar com ingredientes da massa de pizza. Quando adolescentes, aprendem a cozinhar coisas básicas e a porcionar cada alimento.

Marcenaria
Aprendem a manusear peças de madeira para produzir objetos de uso pessoal ou presentes.

Sempre atualizados

Professores explicam como trabalham para envolver o aluno no processo de aprendizagem e alcançar bons resultados mesmo diante das mudanças trazidas pela tecnologia

Jéssica Luz - Especial para o Correio

Zaldo Borges, professor de cinema e de matemática do CEF 1 do Cruzeiro | Bárbara Cabral/Esp/CB/D.A PRess
Zaldo Borges, professor de cinema e de matemática do CEF 1 do Cruzeiro | Bárbara Cabral/Esp/CB/D.A PRess

Uma das principais exigências do século 21 é que o professor ultrapasse o conhecimento teórico sobre o que está ensinando aos alunos e esteja também por dentro do que eles vivenciam no dia a dia. Entre eles, prevalece a visão de que precisam, cada vez mais, se tornar mediadores entre o conhecimento que o aluno traz e o que ele ainda precisa adquirir.

Para o professor Zaldo Borges, que dá aulas de cinema aos 7º, 8º e 9º anos e de matemática ao 6º ano do Centro de Ensino Fundamental 1 do Cruzeiro, é importante que o aluno esteja sempre em conexão com o docente. A cobrança deve partir de ambos os lados para que a experiência do aprendizado seja mais completa. "O aluno deve buscar em seu professor que este apresente formatos que sejam valorosos para ele", detalha. "Um dos maiores questionamentos da educação é voltado para o motivo de estarmos ensinando. Então, se não desenvolvermos algo que seja significativo para o aluno, ele não vai ter interesse em estar naquele ambiente. O grande desafio do professor é pegar um conteúdo estabelecido e aprimorá-lo para uma linguagem mais atual e atrativa", observa.

Nesse sentido, a tecnologia se mostra como uma aliada, mas também como um grande desafio em sala de aula. A relevância que ganhou no meio educacional é algo que os professores buscam entender para que as aulas se tornem mais interessantes. Usar o que está ao alcance dos alunos durante as aulas é um obstáculo que deve ser vencido a cada encontro. De modo geral, os docentes concordam que existe uma necessidade de trazer para o estudante a rapidez e a dinâmica que fazem parte do cotidiano dele para os conteúdos que são aplicados nas disciplinas.

Menos ansiedade
Apesar de concordar que o uso da tecnologia em sala de aula é necessário, a professora Ana Carolina Conceição acredita que é preciso haver outras preocupações aliadas a essas. "Mais importante do que o uso da tecnologia é fazer com que o aluno seja menos ansioso dentro de sala", avalia. Ela dá o exemplo de um trabalho de produção de pinhole - máquina fotográfica sem lente que pode ser feita de materiais recicláveis, como caixas. Além do processo de montagem do equipamento, a revelação da foto é demorada. "Eles ficam ansiosos e não produzem muito bem, justamente porque a máquina digital é mais rápida e prática."

Encontrar o equilíbrio é um desafio constante e passa por investir em atividades mais lúdicas, que envolvam pintura, teatro e esculturas. "Precisamos nos conectar também, senão ficamos passos atrás."

Como fazer a diferença

Eduardo Coelho, professor de geografia do 9º ano e do ensino médio do Centro Educacional Maria Auxiliadora (Cema), leva a tecnologia muito a sério durante as aulas. Para ele, o docente deve buscar fugir do usual, pois o estudante que entra em uma sala de aula, muitas vezes, tem acesso a diversas informações a respeito do conteúdo que será tratado em sala. A partir disso, é necessário ter uma abordagem que mostre ao aluno que deter informação é diferente de ter conhecimento.

"Dentro de sala de aula, atualmente, o professor é um mediador do conhecimento. Na minha época de estudante, os alunos não questionavam, pois a figura do professor era vista como soberana dentro de sala de aula. Hoje em dia, não temos mais isso. Muitas vezes, o aluno sabe mais sobre um assunto do que nós mesmos. Por isso a importância de buscarmos nos manter sempre atualizados em relação ao que está acontecendo no mundo como um todo", ressalta.

A atualização também é importante para que surjam ideias de como usar ferramentas diferentes na construção da aprendizagem do aluno. "O ponto-chave na educação é trabalhar com mídias sociais e aplicativos. Temos que trabalhar com a internet, com a informática", avalia Eduardo. "Estamos lidando com uma geração antenada, eles querem deixar o livro de papel para trás, querem as novidades. No meu caso, que ensino geografia, eu preciso adaptar a disciplina às tendências tecnológicas e atrelar essas duas coisas para que a aula seja interessante", finaliza.

Também professora do Cema, Tatiane Homem de Melo, que dá aulas de história para o segundo ciclo do ensino fundamental, vê a necessidade de o professor entender a linguagem que está sendo falada pelos alunos. Manter uma comunicação de igual para igual é um dos pontos principais para entender mais sobre a real necessidade do estudante. "Temos diferentes universos em cada turma. Por isso, o que eu percebo é que existe uma necessidade de fazer uma sondagem com os alunos para tentar descobrir o que eles gostam, o que eles conversam e dialogam, porque, a partir do que captamos de informações, conseguimos adaptar o nosso conteúdo. Estamos em constante mudança. Assim como os alunos, durante o ano, nós nos adaptamos a eles e mudamos o planejamento diversas vezes", conta.

Adepta das mídias digitais, Tatiane vê que a aplicação de novos métodos é de extrema importância para a aprendizagem. "As mudanças ocorrem de uma maneira que ou nós nos adaptamos ao aluno ou ficamos para trás. E podemos observar essas mudanças desde as mídias digitais que a própria escola oferece até o nosso vocabulário, que vai se adequando ao amadurecimento da turma."

Experiência e inovação
O professor Euclides Chacon leciona química no Galois e, para ele, que está no mercado de trabalho há 33 anos, a tecnologia deve ser vista tanto como uma aliada do ensino quanto como um auxílio no desenvolvimento pessoal e profissional do docente. "É importante que o professor esteja sempre estudando para oxigenar essa atuação dele dentro de sala de aula. O aluno exige isso, demanda que as explicações e metodologias sejam diferentes a cada dia que passa", ressalta.

O educador também destaca as mudanças que ocorreram durante os anos como professor. Segundo ele, a relação entre aluno e docente foi se transformando e isso foi benéfico, pois os tempos também mudaram. Chacon relata ainda que a posição de autoridade que o professor tinha com o aluno décadas atrás mudou. "Há 20, 30 anos, você tinha um patamar distinto de autoridade entre professor e aluno. Hoje, com a forma como as relações interpessoais se desenvolvem, todo mundo está basicamente no mesmo nível. O professor está ali apenas como mediador de um conhecimento do qual o aluno vai se apropriar. Essa foi uma grande mudança."

CINCO PERGUNTAS PARA | Otília Dantas

Minervino Junior/CB/D.A Press
Minervino Junior/CB/D.A Press

Por quais mudanças a educação brasileira tem passado ultimamente?
A contemporaneidade tem nos mostrado ou oferecido uma tecnologia que não é mais algo específico de uma realidade, mas é uma realidade de todos. Todo mundo têm acesso ao celular, ao computador. Essa tecnologia é democrática e a escola ainda está se adaptando a essa realidade. O que eu quero dizer é que esse mundo atual em que vivemos é complexo e extremamente problemático, onde os sujeitos não se compreendem. Essas escolas, tanto privadas quanto públicas, precisam compreender o sujeito e formá-lo, para que o aprendiz consiga entender a contemporaneidade. Nesse processo o professor é um sujeito extremamente importante, porque é ele que vai fazer a mediação entre o conhecimento e o saber do aluno.

Como deve ser essa preparação?
Considerando que o ser humano precisa ser um ser integral, de direitos e de deveres. A escola, seja ela qual for, precisa preparar esse sujeito para a vida. Infelizmente, a escola tem enxergado esse sujeito como alguém que vai ser. Quando você pergunta ao professor o que ele pensa do aluno ele diz: "É um sujeito que eu estou preparando para a vida". Ora, a vida não é agora? Eu preciso preparar esse sujeito para a realidade atual, porque, com o futuro, ele vai saber lidar. O que eu preciso formar nesse sujeito então? Autonomia, criticidade, saber se relacionar, compreender o mundo, ser mais humano. Para isso, o professor não precisa de tanta tecnologia. E, geralmente, a tecnologia não se limita só às tecnologias da informação e comunicação. A caneta, o lápis, o caderno, a tesoura, são tecnologias que você usa na sala de aula. É claro que a tecnologia da informação e comunicação é muito bem-vinda, porque ela acelera o processo de aprendizagem.

O que seria, na sua avaliação, uma escola democrática?
Precisamos entender que essa democracia não é só política, é também do saber. Os pais também devem conhecer a escola antes de colocar o seu filho lá, porque a escola é o retrato da sua realidade. Às vezes, aquela que tem um universo tecnológico de ponta pode não ser exatamente a melhor escola para o meu filho, pois pode não representar o que eu acredito como ser social, como a família que tem uma formação. Afinal, a primeira escola da criança é a família.

Tem se falado muito que o professor precisa assumir, cada vez mais, o papel de mediador dos saberes dos alunos. Como as universidades têm formado esse profissional?
Esse professor a gente já forma (na UnB). Pedagogos e licenciados precisam saber muito dos seus conteúdos, da formação e do que eles vão ensinar, mas precisam ter um conhecimento pedagógico muito grande, porque não é exatamente o assunto que ele vai ensinar, ele vai mediar esse saber. Se fosse apenas a transmissão do conhecimento, um livro poderia fazer esse papel, a internet faz. Isso não basta, ele tem que ter um conhecimento didático-pedagógico significativo e entender a realidade em que vive para poder fazer esse processo mediativo.

Quais são, em resumo, as características desse professor?
Precisam dominar o conhecimento da sua área, conhecimentos pedagógicos e didáticos; conhecer a ciência da educação; ter experiência vivenciada nos estágios; dominar as tecnologias, desde o computador até o equipamento mais performático que ele conseguir encontrar na escola. Também precisa saber usar tecnologia de origem - caneta, papel, tesoura, caderno. Deve ter bom relacionamento interpessoal com seus alunos, com a família dos alunos, com os próprios colegas, e ser interessado na coordenação da escola. Tem de ser um pesquisador, ter zelo pela sua formação continuada - a escola tem que oferecer, mas o professor também deve ter interesse em aprimorar a carreira. Além disso, é importante ter uma visão crítica da realidade.

Otília Dantas é professora da Faculdade de Educação da UnB