MERCADO DE TRABALHO

Novas exigências

As áreas de atuação que se destacam no mercado exigem flexibilidade dos profissionais e a capacidade de se trabalhar em rede para vencer desafios corporativos

Muitas das áreas que estão em alta no mercado ainda nem entraram no currículo das instituições de ensino. Os profissionais precisam, portanto, se preparar para uma multidisciplinaridade intensa, ou seja, aproveitar conhecimentos de diversos setores com o objetivo de atender às exigências das empresas. Além disso, precisarão estar prontos para enfrentar desafios no ambiente corporativo, adaptando-se a qualquer função ou serviço com agilidade.

Na avaliação da psicóloga e coach de carreira Elziane Campos, fundadora da plataforma de desenvolvimento de carreiras You Up, a formação necessária para atuar nas áreas em que a demanda é maior vai demorar a entrar no currículo das instituições de ensino. Por isso, esses profissionais precisarão adaptar o aprendizado no sentido de efetivamente criar uma área de atuação. "As novas profissões e atuações valorizam a integração entre conhecimentos diversos e isso força um movimento mais intenso pela multidisciplinaridade", avalia.

É o caso de um agrônomo urbano, que precisará entender de agronomia tradicional, mas também muito sobre sobre estruturas da construção civil e design, exemplifica a especialista. Ela lembra ainda que o mundo hiperconectado influencia as novas profissões e é uma tendência latente que os trabalhadores atuem muito mais numa perspectiva de rede, como autônomos em parceria com suas conexões e por meio de projetos.

André Violatti/Esp. CB/D.A. Press

É um espaço despojado, onde as pessoas mais novas acabam vendo uma possibilidade de continuar a vida. É convidativo"
Mateus Braga, diretor executivo de criação

A empresa de recrutamento e seleção Robert Half elaborou um guia com as áreas de atuação que estarão em alta neste ano e no próximo. Entre elas, está a do diretor executivo de criação Mateus Braga, 42 anos. Ele atua na área de marketing desde os 15 anos de idade e, hoje, trabalha em uma das maiores agências digitais do país. Nesses 27 anos de carreira, ele acredita que a profissão se mantém devido ao público jovem que sempre se interessa pelo trabalho. "Eu acredito que aqui eu sou o mais velho. É um espaço despojado, onde as pessoas mais novas acabam vendo uma possibilidade de continuar a vida. É convidativo", constata.

Mateus indica que, para ser um bom profissional de marketing, a continuação dos estudos acadêmicos é fundamental e saber lidar com as pessoas, indispensável. "Nós precisamos conhecer nossos clientes e entender os estímulos que os movem para fazer um trabalho de qualidade. Por isso, dou a dica de se interessar principalmente por psicologia para quem quer se especializar no ramo. Sem falar nas referências, que são cruciais. É preciso estar atento ao que ocorre no dia a dia, se possível, viajar, ter várias experiências e estudar sempre", relata.

Leandro Petter, 30 anos, faz parte de outra carreira que tem se destacado no mercado, a de Tecnologia da Informação. Ele é sócio de uma empresa que desenvolve portais corporativos e presta serviços digitais. Para se preparar, ele fez uma especialização em governança em tecnologia da informação e atualmente cursa um MBA em gestão estratégica e econômica de empresas. "Melhorar o conhecimento é sempre interessante, porque as demandas vão mudando e você precisa estar preparado, além de aumentar o nível de competitividade, é claro. A profissão está em alta porque sempre tem algo novo. Os empresários querem eficiência, que traga retorno operacional, mas também buscam corte de custo, e isso vem por meio da tecnologia", aponta.

O economista Ricardo Haag, diretor do site de recrutamento Page-Personnel, afirma que esta área possui muitas vagas disponíveis e pouca gente capacitada. "É um cargo valorizado, porque existe uma carência de profissionais qualificados. Quando são encontrados, dizemos que são artigos de luxo para o mercado", afirma. O especialista destaca que é preciso ficar alerta para as exigências do mercado. Além de um profissional capacitado e com o foco nos estudos, as empresas querem o diferencial. "O funcionário que sabe lidar, principalmente, com as adversidades no local de trabalho, sai na frente. Se for aquele que faz tudo para se ambientar em qualquer função ou serviço, com certeza vai ser olhado de modo diferente", observa Haag.

O funcionário que sabe lidar, principalmente, com as adversidades no local de trabalho, sai na frente. Se for aquele que faz tudo para se ambientar em qualquer função ou serviço, com certeza vai ser olhado de modo diferente"
Ricardo Haag, economista


Possível melhora
Mesmo com uma perspectiva negativa com relação à taxa de desemprego (leia mais na página 14), a agência de emprego ManpowerGroup fez um levantamento que mostra uma melhora na expectativa de contração para o próximo trimestre. Após cinco anos de queda, houve um aumento de 5 pontos percentuais no terceiro trimestre deste ano quando comparado ao mesmo período de 2015. Apesar de continuar num patamar negativo, o índice subiu de -12% para -7%. "Áreas que podem apontar progresso são as de administração pública e educação, por exemplo. Os profissionais têm investido mais em qualificações", afirma CEO da ManpowerGroup no Brasil, Nilson Pereira.

Preparação para todos os momentos

Diante do cenário pouco favorável para o mercado de trabalho nos próximos meses é importante se qualificar para consolidar a posição no mercado ou até garantir uma colocação. Confira dicas de especialistas para enfrentar a crise

A crise econômica pela qual o país passa tem como reflexo o aumento da taxa de desemprego, o que coloca em alerta os profissionais que estão no mercado de trabalho e desanima aqueles que buscam uma colocação. Especialistas destacam, no entanto, que essas são importantes oportunidades para repensar a carreira e aprimorar as habilidades. É nesses períodos que o profissional deve aproveitar para sair da zona de conforto e se preparar para garantir uma vantagem competitiva no mercado quando a situação melhorar.

O cenário para os próximos meses não é favorável. Clemente Ganz Lúcio, diretor técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), afirma que a tendência natural é de que o aumento do desemprego observado no primeiro semestre de 2016 não se repita neste semestre. No entanto, isso não ocorre por conta de uma retomada da atividade econômica, salienta o especialista, mas, sim, em razão da alta estimulada por contratações temporárias que sempre ocorrem no fim do ano.

"Não é normal o aumento do desemprego nesse período, mas isso não está descartado, porque os indicadores mostram que o nível de atividade econômica não tem sido retomado. Há sinais disso, mas eles ainda são muito frágeis", acrescenta o especialista. A taxa de desemprego calculada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) é de 11,3%. Só no DF, são 297 mil desempregados, de acordo com o último boletim divulgado pelo Dieese, o que corresponde a 18,9% da população economicamente ativa.

"A expectativa é de que tenhamos uma tendência de estabilidade no desemprego, com possibilidade de um leve crescimento ou de uma leve queda. Não será nada muito abrupto, até porque a taxa já é muito elevada. O mesmo deve ocorrer com relação à renda do trabalho", avalia. É possível ainda que haja surpresas, pois os trabalhadores assalariados podem preferir reduzir os gastos para não aumentar o nível de endividamento. Ganz Lúcio comenta que a taxa de desemprego deve voltar a subir no primeiro semestre de 2017, quando acabar o período de contratações temporárias, que devem ser mais significativas no comércio e no setor de serviços.

A expectativa é de que tenhamos uma tendência de estabilidade no desemprego, com possibilidade de um leve crescimento ou de uma leve queda. Não será nada muito abrupto, até porque a taxa já é muito elevada. O mesmo deve ocorrer com relação à renda do trabalho"
Clemente Ganz Lúcio, diretor técnico do Dieese
André Violatti/Esp. CB/D.A. Press
Diogo D'Angelo ponderou o momento atual da economia e decidiu manter os planos de cursar a pós-graduação

A psicóloga e coach de carreira Elziane Campos lembra que existe um fator que pode fazer a diferença nessa situação e que costuma ser subvalorizado no Brasil: a rede de contatos, ou o networking, em inglês. "É importante valorizar a rede de contatos. Quando analisamos as oportunidades a que temos acesso, a maioria é porque alguém indicou ou nos informou", observa. A coach lembra o ditado: "se quiser ir rápido, vá sozinho; se quiser ir longe, vá junto". Essa conexão com profissionais e até amigos que possam auxiliar na busca por um emprego é essencial, e não dá para ter vergonha de pedir. "É importante abrir mão do orgulho para criar oportunidades."

A especialista destaca ainda que é preciso estar disposto e preparado para retribuir o favor quando for a hora. "Não existe relação humana sem reciprocidade", avalia. Ou seja, mesmo quem está numa posição confortável no mercado deve estar atento às necessidades e demandas dos colegas. Outro ponto importante é evitar conflitos no ambiente de trabalho e na vida pessoal. "O mundo está hiperconectado. Uma pessoa que você menosprezar, como um colega de faculdade, amanhã pode se tornar seu chefe", alerta. Quem conseguir trocar de emprego, por exemplo, não deve sair em conflito com a empresa. "A cultura da boa praça é muito importante, quanto menos inimigos melhor. É preciso justificar a saída com muita honestidade e não fechar portas."

No momento de aceitar uma proposta de emprego, Elziane ressalta que é preciso avaliar a situação de cada profissional. O mais lógico é que, diante do momento atual de insegurança e incertezas, o profissional que está desempregado aceite qualquer oportunidade, mesmo aquelas que não considera as ideais. No entanto, quem tem uma margem para investir em qualificação ou em mais tempo para a busca, pode abrir mão de algumas ofertas, lembrando apenas que períodos que ultrapassam um ano fora do mercado começam a ser preocupantes, porque o profissional perde o ritmo do mercado de trabalho, salienta a especialista.

É importante valorizar a rede de contatos. Quando analisamos as oportunidades a que temos acesso, a maioria é porque alguém nos indicou ou nos informou"
Elziane Campos, psicóloga e coach de carreira

Saia da zona de conforto e identifique objetivos

Para Débora Barem, professora do Departamento de Administração da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de Brasília (Face/UnB), essa pode ser uma oportunidade de sair da zona de conforto. Ela destaca que a primeira iniciativa a ser tomada quando o profissional identifica um momento de crise é parar para refletir sobre a carreira e definir quais são os objetivos profissionais; que benefícios o trabalho traz; e quais lacunas na formação profissional precisam ser preenchidas.

"Quando está tudo bem, as pessoas entram na zona de conforto e deixam a qualificação ou a reciclagem para trás e se esquecem que são coisas que elas poderiam estar fazendo não só pelo trabalho, mas por elas mesmas", ressalta. A dica da especialista é não deixar o desespero tomar conta, mesmo para quem perdeu o emprego. Segundo Débora, é importante avaliar que competências podem ser desenvolvidas nesse período.

O momento é de ver o que falta para você se fortalecer e ter o que entregar na hora que a crise passar"
Débora Barem, professora da Face/UnB

Vale também aceitar atividades sem remuneração, principalmente trabalhos voluntários, que contam pontos no currículo depois. O importante é não ficar parado. "Às vezes, não vai ser possível receber um salário. Então você deve tentar interagir com áreas que te interessem. A partir daí, alguém pode chamar você para algum trabalho. A rede de contatos aumenta", reforça Débora. Outro exemplo de como se qualificar é buscar informações que muitas vezes estão disponíveis na internet. Na área de serviços e comércio, por exemplo, em que as contratações prometem ser maiores, é importante ter consciência do comportamento adequado. "As empresas buscam pessoas mais proativas, com condição de entender o que é qualidade para o cliente."

Já para quem está empregado, a especialista acredita que não é o momento para grandes mudanças, como pedir ou aumento ou se desligar da empresa na esperança de encontrar uma colocação melhor. "Uma coisa é o sindicato estar lá lutando pelo aumento. Outra coisa é pedir individualmente. É como se você gastasse um cartucho", alerta Débora. "O momento é de ver o que falta para você se fortalecer e ter o que entregar na hora que a crise passar."

Como garantir a vaga

Quem está à procura de um emprego precisa colocar informações completas no currículo e estar preparado para falar sobre todas as experiências na entrevista. Autoconhecimento e sinceridade são pontos essenciais no processo seletivo

O currículo profissional é a porta de entrada para o mercado de trabalho. É a partir dele que gestores analisam o candidato para a vaga a ser preenchida. Por isso, é preciso ter todo o cuidado para a montagem do documento, pois alguns erros podem fechar as portas para uma boa oportunidade de trabalho. Após essa etapa, chega a hora da entrevista, outro momento crucial para garantir o cargo. Especialistas destacam a necessidade de autoconhecimento e de sinceridade durante o processo.

Antes de montar o currículo, é importante colocar no papel todas as experiências profissionais e acadêmicas, conforme destaca a especialista em mercado de trabalho Débora Barem, professora da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de Brasília (Face/UnB). "Não é bom confiar na memória. Tudo que pensar que você fez e te ajudou deve ser colocado. Às vezes, as pessoas pensam que é necessário o certificado, mas ele é cobrado para formações de relevância, como a graduação. Se foi feito um curso e você tem convicção do conhecimento adquirido, isso importa mais. O que não vale é mentir", explica.

A especialista em recursos humanos Viviane Cândido, do Vagas.com, garante que um dos erros mais comuns no preenchimento do currículo é o item de objetivo profissional. No espaço, a informação a ser colocada deve ser a função que está interessado. Nunca se deve descrever metas de vida, isso pode diminuir as chances de contratação. O pior deslize, no entanto, que desclassifica em uma primeira seleção, são os erros de português. "O recrutador não vai saber se foi um descuido de digitação ou não. Isso mostra que o candidato não teve o cuidado de revisar. A impressão que passa é de que se não teve atenção especial na porta de entrada, que é o currículo, possivelmente não terá com as funções", alerta.

O conteúdo não pode ter mais do que duas páginas. Por isso, ser sucinto é fundamental. E um ponto indispensável: nunca mentir. "A pessoas têm o terrível erro de querer rechear o currículo. Às vezes pode até ter visto um projeto se desenvolver, mas não ter participado e, com isso, não ter tido nenhuma experiência relevante. No currículo é muito atrativo e vai chamar a atenção com certeza. Agora, na hora da entrevista, não passa. É nítido e constrangedor", orienta.

A pessoas têm o terrível erro de querer rechear o currículo. Às vezes pode até ter visto um projeto se desenvolver, mas não ter participado e, com isso, não ter tido nenhuma experiência relevante. No currículo é muito atrativo e vai chamar a atenção com certeza. Agora, na hora da entrevista, não passa. É nítido e constrangedor"
Viviane Cândido, especialista em recursos humanos

Já na fase de entrevista, o que ajuda é o autoconhecimento. De acordo com Débora Barem, não saber falar sobre si é um problema no encontro com o gestor. "É importante saber quais são as suas principais características, os pontos fortes, o que está melhorando com o passar do tempo e o que precisa ser melhorado", frisa.

Viviane Cândido, diz que ir preparado é uma forma de chamar a atenção de quem vai mediar a conversa. "Porém não é ir com coisas decoradas e frases prontas, isso faz diminuírem suas chances. É ler o currículo antes de ir, relembrar as experiências e a ordem delas, projetos que tiveram impacto na formação com os pontos positivos e negativos. Isso ajuda a não ficar tão nervoso na hora, porque se você tem convicção das habilidades tudo sairá da melhor maneira", garante. Chegar no horário é imprescindível, pois o gestor não analisará o motivo. "Chegue antes, com tranquilidade e esteja inteiro para a oportunidade", complementa.

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