Pós-graduação

Certificado de competência

Além de contribuir para desenvolver habilidades técnicas mais específicas na área de atuação, a pós-graduação pode aumentar mais de cinco vezes o salário

A escolha do curso de pós-graduação adequado pode contribuir decisivamente para uma colocação no mercado e com remuneração mais atrativa. O nível de empregabilidade, principalmente entre mestres e doutores, é maior do que o observado entre a população que não possui titulações. O ganho salarial mensal médio pode ser mais de cinco vezes maior para quem cursa doutorado e quase quatro vezes para os mestres.

Jorge Guimarães, diretor-presidente da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii), explica que o objetivo de uma pós-graduação é aprofundar o conhecimento num tema bastante específico, e não de forma mais genérica, como ocorre na graduação. "Temas de áreas mais estratégicas, avançadas e conhecimentos novos não dá para cobrir na graduação", analisa. Há ainda a possibilidade de escolher uma pós para mudar os rumos da carreira. "Há pessoas que fazem a graduação em uma área, e a pós-graduação em outra", observa.

Pesquisa feita pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE) mostra que a remuneração média de um mestre chega a ser mais de 390% maior que a de um trabalhador sem essa qualificação. Já os doutores ganham 566% a mais. "Isso dá uma garantia de que é uma qualificação importante, independentemente da área", afirma Jorge Guimarães. O presidente da Embrapii cita ainda as opções de mestrado profissional, modalidade criada no Brasil em 1999. O foco dessas formações é na qualificação profissional de alto nível.

Ele destaca que os profissionais que procuram esse tipo de formação geralmente já têm emprego e buscam reforçar conhecimentos nas áreas em que atuam, normalmente com uma perspectiva de ganho financeiro também. A remuneração mensal média de profissionais com essa qualificação é maior tanto em empresas privadas quanto em estatais, quando comparado aos mestres acadêmicos. O setor privado paga cerca de R$ 13 mil aos mestres profissionais e R$ 8,5 mil aos acadêmicos.

André Violatti/Esp. CB/D.A. Press

Na graduação, está todo mundo buscando seu lugar ao sol. No mestrado, todos já exercem a profissão, no Ministério da Saúde, em hospitais. A diversidade é grande e a troca de experiências extremamente rica"
Lorenza Gallo, doutoranda na área de nutrição humana

O número de doutores no país ainda está longe da média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). A professora de gastronomia Lorenza Gallo, 26 anos, estuda para melhorar esse dado. Ela é mestre em nutrição humana e cursa o doutorado na mesma área. Foi durante a especialização e os dois anos de mestrado que percebeu a vocação para a área acadêmica e decidiu investir nessa carreira. "Na graduação, está todo mundo buscando seu lugar ao sol. No mestrado, todos já exercem a profissão, no Ministério da Saúde, em hospitais. A diversidade é grande e a troca de experiências extremamente rica", resume a doutoranda.

Na pesquisa que desenvolve, Lorenza estuda as possibilidades de introdução do sorgo - um dos cereais mais produzidos do mundo - na alimentação humana, o que pode contribuir para o controle da glicemia e do colesterol, por exemplo.

De olho no mercado

Especializações lato sensu contribuem para desenvolver as habilidades necessárias para atuar em organizações. Entenda como funcionam esses cursos e quando eles são a melhor opção para a carreira

O leque de formações disponíveis para profissionais que pretendem se qualificar é grande. Além de cursos de curta duração, são diversas as modalidades de pós-graduações. Aquelas denominadas lato sensu normalmente têm foco nas habilidades mais imediatas que o profissional precisa desenvolver para atender de maneira mais adequada as exigências do mercado. No caso do Master of Business Administration (MBA), os conhecimentos centrais são da área de administração.

O advogado Felipe Salomon, 27 anos, cursou um MBA em direito empresarial, com duração de dois anos. "Tem a ver com o que eu faço hoje. Trabalho com direito tributário e sentia a necessidade de aprofundar os conhecimentos", descreve. "A pós é bem isso, dá uma visão geral do assunto e eu consigo trazer o aprendizado para o escritório." No momento de escolher o curso, ele conta que selecionou as instituições mais renomadas que ofertam vagas na cidade, separou duas especializações que atenderiam ao objetivo profissional traçado e optou pela que abrangia uma quantidade maior de conteúdos.

Mesmo com planejamento e aulas presenciais apenas três vezes por semana, ele destaca que é preciso se esforçar para completar esse percurso de qualificação. "Não tem jeito, você vai ter que abrir mão de algumas coisas para fazer isso", relata. Agora, Felipe já está avaliando a melhor área para cursar outra pós-graduação.

A pós é bem isso, dá uma visão geral do assunto e eu consigo trazer o aprendizado para o escritório"
Felipe Salomon, advogado, cursou MBA em direito empresarial

Os MBAs, assim como as demais pós-graduações lato sensu, não são avaliados pelo Ministério da Educação. Quem busca esse tipo de qualificação e quer se certificar sobre a qualidade do curso pode entrar em contato com a Associação Nacional de MBA (Anamba), que acredita a qualidade dos programas a partir de critérios como qualificação e publicações do corpo docente. O MBA é um modelo americano de pós-graduação que foi importado para o Brasil na década de 1990, conforme explica a diretora de Comunicação, Eventos e Pesquisa da Anamba, Alessandra Costenaro Maciel, que é coordenadora da Pós-Graduação Lato Sensu da Business School da Imed.

"As principais diferenças entre o modelo de MBA no Brasil e no exterior referem-se ao formato de aula. No modelo americano e europeu, por exemplo, as aulas são ministradas, geralmente, em turno integral, o que no Brasil precisou ser adaptado para aulas somente no turno noturno", detalha a especialista. O objetivo, segundo ela, é atender às necessidades dos executivos brasileiros que trabalham durante o dia. Algumas instituições oferecem ainda cursos em período integral ou meio período, que são os MBAs internacionais.

As principais diferenças entre o modelo de MBA no Brasil e no exterior referem-se ao formato de aula. No modelo americano e europeu, por exemplo, as aulas são ministradas, geralmente, em turno integral, o que no Brasil precisou ser adaptado para aulas somente no turno noturno"
Alessandra Costenaro Maciel, diretora de Comunicação, Eventos e Pesquisa da Anamba

De acordo com Alessandra, o MBA é uma boa opção para alunos com experiência profissional em nível de gerência que queiram desenvolver ou aprimorar as competências gerenciais de tomada de decisão e as habilidades de liderança. "O MBA é destinado para desenvolver e aprimorar a prática profissional, ou seja, para atuar em empresas", destaca.

Dedicação exclusiva

As pós-graduações stricto sensu normalmente exigem que o estudante se dedique em tempo integral. Veja quais são os requisitos mais comuns dos programas brasileiros

A professora Maria Dolores Montoya Diaz, presidente da Comissão de Pós-Graduação da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA/USP), explica que os processos seletivos para os cursos da faculdade, a exemplo do que ocorre com frequência em outras instituições federais de ensino superior, são bastante concorridos. Por isso, é importante que o candidato analise todos os requisitos definidos no edital, além das características da seleção, como o peso das provas. Em caso de dúvida, a indicação é entrar em contato com a secretaria de pós-graduação do curso.

Nessas instituições, o estudante encontrará as opções de graduação stricto sensu - o doutorado e mestrado acadêmico e o mestrado profissional. "Todos têm foco em pesquisa, ou seja, o conhecimento do programa é voltado para dar condições aos alunos de ter competência de solução de problemas", destaca. "Não necessariamente o estudante precisa se tornar um docente. Pode vir a ser mais um conjunto de habilidades que ele desenvolve e adquire ao longo do processo e que o torna apto a ocupar posições que são de muito mais reconhecidas, inclusive financeiramente", afirma.

O foco desse tipo de programa é diferente dos de especialização ou MBA, reforça a professora. "A ideia da especialização ou do MBA é mais uma atualização de curto prazo", afirma Maria Dolores. Cabe ao profissional decidir qual o objetivo de qualificação para escolher a melhor opção de pós-graduação. Para alguns, pode ser que a especialização já seja suficiente.

Quem opta pelo mestrado ou pelo doutorado precisa ter em mente que essas titulações normalmente são incompatíveis com uma ocupação simultânea. É preciso, portanto, ponderar se será possível se dedicar exclusivamente por, no mínimo, dois anos. "Nos cursos mais bem avaliados, é impossível compatibilizar os estudos com uma atividade de trabalho remunerada", destaca. "Alguns têm bolsas. O interessado precisa verificar se é possível esse afastamento para ter a dedicação necessária e se a bolsa de estudos seria suficiente para esse período."

O conhecimento do programa (de mestrado ou doutorado) é voltado para dar condições aos alunos de ter competência desolução de problemas"
Maria Dolores Montoya Diaz, presidente da Comissão de Pós-Graduação da FEA/USP

No Distrito Federal, praticamente todos os programas de pós-graduação stricto sensu são da Universidade de Brasília (UnB), 95 no total. O decano de Pesquisa e Pós-graduação da instituição, Jaime Martins de Santana, explica que as seleções feitas pelos respectivos programas podem ocorrer duas vezes por ano. "Para começar em março, os editais são aprovados a partir de novembro e a seleção pode ocorrer em dezembro, janeiro ou fevereiro", explica. Já para começar em agosto, os editais saem em maio ou junho, e, em julho e agosto, é feita a seleção. Todos os processos ficam reunidos na página do Decanato, no site www.unb.br.

Dois dos programas da UnB têm inclusive a nota máxima da avaliação da Capes: 7 pontos. Outros, como geologia, sociologia, serviço social e geotecnia são nota 6. "A credibilidade (da universidade) se dá pela qualidade do ensino de graduação e de pós e da extensão universitária", reforça Santana.

Servidores qualificados

Na administração pública, também é importante investir em pós-graduação. Em alguns casos, é possível progredir na carreira ou ocupar cargos mais altos em razão do incremento no currículo

A busca por qualificação também deve ser uma meta para os servidores públicos. A legislação garante inclusive licenças remuneradas para quem se dispõe a fazer cursos de especialização e mestrado ou doutorado e, em alguns casos, é possível progredir na carreira ou ocupar cargos mais altos dentro do órgão em que atua. Mesmo quando não há previsão formal de progressão, especialistas destacam que o conhecimento adquirido é importante para aprimorar as habilidades no trabalho.

"É sempre importante (se qualificar). Quanto mais arsenal cognitivo a pessoa tiver, mais pode ser útil à organização e produzir com qualidade", salienta o professor Jorge Fernando Valente de Pinho, do Departamento de Administração da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de Brasília (Face/UnB). Dessa forma, o profissional fica mais realizado e conquista a admiração dos demais.

Michelle de Sá e Silva, coordenadora-geral de Projetos Especiais da Diretoria de Formação Profissional da Escola Nacional de Administração Pública (Enap), explica que o impacto da pós-graduação para um servidor público depende de diversas variáveis. Entre elas, a área de atuação e a carreira em que está inserido. De maneira geral, ela descreve que o que se espera desse tipo de qualificação é que contribua para ampliar as habilidades e competências profissionais, assim como a capacidade de reflexão e de análise. "Os servidores têm buscado a pós-graduação não apenas para fins de progressão profissional, mas principalmente com vistas a novos aprendizados que dialoguem com sua atuação no serviço público", observa.

A própria Enap oferece opções de pós-graduação nas modalidades lato sensu e stricto sensu. Todas são gratuitas e direcionadas a servidores federais. A escola submeteu, este ano, proposta à Capes para dar início também ao mestrado profissional em governança e desenvolvimento, com previsão para início já em 2017.

A progressão funcional do servidor que completa esse tipo de formação varia de uma carreira para outra, conforme explica Michelle. Na de especialista em políticas públicas e gestão, por exemplo, novas titulações não garantem esse avanço. As normas para que isso ocorra estão dispostas no Decreto nº 5.176, de 2004. "A pós-graduação é requisito para acesso a níveis mais elevados em algumas carreiras. Mas é importante lembrar que ela é um quesito importante em concursos públicos para cargos de nível superior, que são atrativos financeiramente", destaca a coordenadora.

Pedro Henrique Soares Santos, 24 anos, entrou para o mestrado logo após terminar a graduação em história. Na sequência, foi convocado também para o cargo de professor da rede pública de ensino. "Para nós, professores, além do aumento salarial, que não é muito alto, a pós-graduação conta pontos na hora do remanejamento entre escolas e turmas", detalha. O objetivo é continuar a carreira acadêmica com o doutorado.

André Violatti/Esp. CB/D.A. Press
O professor Pedro Henrique fez mestrado com o objetivo de concorrer a vagas em instituições federais de ensino superior

A pós-graduação contribui também para exercer melhor as atividades na secretaria. "Quando eu entro na minha área, de História do Brasil Império, consigo falar com muito mais propriedade e trazer visões diferentes para os alunos", afirma. Hoje, Pedro ocupa um cargo administrativo na Regional de Ensino do Recanto das Emas e também percebe benefícios de ter se qualificado mais. "A experiência que tive, de escrever projeto para o mestrado e escrever artigo científico, me deu uma aptidão maior para desenvolver e escrever projetos de uma maneira mais elaborada."


O que diz a lei
A Lei 8.112 define que o servidor pode, a cada cinco anos, solicitar licença remunerada por até três meses para participar de curso de capacitação profissional. Há ainda a possibilidade de pedir afastamento para cursar uma pós-graduação stricto sensu, de duração maior, desde que a participação não possa ocorrer simultaneamente com o exercício do cargo ou mediante compensação de horário. Entre os pré-requisitos para licenças com o objetivo de cursar mestrado ou doutorado está o de ser servidor titular de cargo efetivo no respectivo órgão ou entidade há pelo menos três anos para mestrado e quatro para doutorado.

Confira a lista de cursos oferecidos pela Enap

Pós-graduação stricto sensu
» Mestrado profissional em políticas públicas e desenvolvimento, oferecido em parceria com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea)

Pós-graduações lato sensu
» Especialização em gestão pública (EGP)
» Especialização em planejamento e estratégias de desenvolvimento (Eped), em parceria com o Centro de Altos Estudos Brasil Século XXI.

» As inscrições para a Eped estão abertas e terminam em 3 outubro. Os interessados devem acessar o site www.enap.gov.br. As aulas começam em fevereiro de 2017.

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