O grito do cerrado

Considerado a savana mais rica em biodiversidade do mundo, o bioma sofre o desmatamento mais acelerado do país; ONGs correm contra o tempo para reverter a situação


por Luiza Machado

Pequi, mangaba, buriti, cagaita, lobeira, guaçatonga, araticum. Essas plantas típicas são apenas algumas das mais de 11 mil espécies que temos no Cerrado, considerado a savana mais rica em biodiversidade do mundo (5% da biodiversidade de todo o planeta estão aqui). Mas, apesar da riqueza da fauna e da flora, um alerta está ligado: o desmatamento do bioma acontece em ritmo mais acelerado do que na Amazônia, de acordo com dados divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisa Espacial (Inpe).

"As pessoas tendem a querer proteger apenas as florestas. A maioria entende bem a importância da preservação de áreas fechadas, como a Amazônia. Com o Cerrado, a sensibilização não é tão óbvia, pois as savanas não estão no imaginário das pessoas quando o assunto é preservação. Essas vegetações abertas e mais secas acabam ficando renegadas a segundo plano", afirma Alexandre Sampaio, analista ambiental do Instituto Chico Mendes da Biodiversidade (ICMBio), ligado ao Ministério do Meio Ambiente (MMA). Só para se ter uma ideia, enquanto as áreas protegidas do Cerrado equivalem a 8,21% do bioma, o índice na Amazônia chega a 45%.

Alexandre Sampaio: "É preciso achar uma equação sustentável entre agricultura e meio ambiente"

De acordo com o ICMBio, 44% do Cerrado brasileiro foram desmatados. A principal causa da devastação, segundo Sampaio, é a enorme quantidade de monoculturas de grãos, como soja, principalmente na região Centro-Oeste. "Nosso Cerrado é um celeiro de commodities. Existe uma demanda mundial para que o Brasil produza grãos. O impacto no meio ambiente é gigantesco, mas poderia ser reduzido com uma produção mais sustentável, menos agressiva. Se o segmento da agricultura seguisse minimamente o que diz a lei, seja na preservação, seja na diminuição do uso de agrotóxicos, a situação já seria bem melhor", diz.

Além dessa forma de prevenção, feita a partir do investimento em técnicas de agricultura mais modernas e sustentáveis, uma solução é remediar o estrago já feito, restaurando áreas desmatadas e valorizando a agricultura familiar. Essa é a ideia de diversas ONGs de proteção ao Cerrado. Apenas filiadas à Rede Cerrado, são mais de 200 associações atuando na área. Uma delas é o Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN), que financia projetos sustentáveis sem verba do governo, contando com apoio de fundos internacionais de preservação ao meio ambiente e do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).

Caliandra: uma das 11.627 espécies vegetais do Cerrado

Nos últimos três anos, os ativistas do ISPN financiaram a restauração de 500 hectares de Cerrado no país. A restauração de áreas desmatadas pode ser feita de diversas maneiras. A técnica mais barata e eficaz, portanto a mais utilizada atualmente, é a plantação de sementes nativas. De acordo com Isabel Figueiredo, do ISPN, antes de começar o processo de restauração, é preciso fechar a área desmatada e evitar que gado entre no local. "Depende do contexto, mas, de maneira geral, é melhor evitar o gado, que come vegetação recém-plantada e tem uma pisada muito impactante para o solo, podendo até mesmo secar nascentes", relata. Depois, as sementes nativas são jogadas na terra de forma desorganizada, "dando mais cara de Cerrado". Em média, leva-se dois anos para a vegetação se estabelecer e a área ganhar status de restaurada. Em 21 anos de existência, o instituto já financiou cerca de 350 projetos sustentáveis, um montante de US$ 14 milhões.

Isabel Figueiredo, do ISPN: financiamentos da ONG restauraram mais 500 hectares de Cerrado nos últimos três anos

Além disso, o ISPN trabalha com cerca de 200 comunidades em todo o país, assegurando 60 mil hectares de Cerrado sob manejo sustentável, com o extrativismo consciente dos frutos de árvores típicas e a implantação da agroecologia, que por definição não permite o uso de agrotóxicos.

"É preciso parar para pensar que a questão econômica está completamente ligada ao meio ambiente. Não adianta abastecermos o mundo com nossas monoculturas de soja se nossa natureza está sendo destruída. Essa conta vai chegar".
Isabel Figueiredo

Igualmente engajada na preservação do Cerrado, a ONG Pequi também mantém diversos projetos de restauração do meio ambiente. Um deles acontece em parceria com o ICMBio: a recuperação de áreas na Chapada dos Veadeiros (GO), a 230 quilômetros de Brasília. Entre 2012 e 2015, foram restaurados 41 hectares de Cerrado na região. Ao longo deste ano, serão mais 64 hectares restaurados. Esse processo conta com a ajuda das diversas comunidades que vivem em meio a nossas árvores tipicamente tortuosas

Os locais colhem e vendem as sementes nativas que serão utilizadas para a restauração das áreas desmatadas. "Acontece muito do pequeno agricultor familiar acabar vendendo as terras para grandes produtores, mudando-se para cidades para viver em uma condição de vida ruim. É isso que queremos evitar. O projeto é bacana porque ensinamos técnicas de colheita de semente. Eles vendem esse material para restaurarmos as áreas, o que gera renda para essas populações e movimenta a economia. Além disso, o contato com a natureza traz uma conscientização maior e uma valorização do nosso Cerrado", conta Sampaio.

A vegetação típica do Cerrado pede socorro: apenas 8,21% dos campos estão protegidos

Isabel vai além e relaciona a questão cultural com o meio ambiente: "Falta apego da população brasileira pela nossa cultura, pela nossa origem. Se perguntar quantas línguas falamos no Brasil, a maioria vai responder: 'Uma, o português'. E nós temos mais de 170 idiomas. E isso é falar de meio-ambiente porque esses povos brasileiros que vivem nas florestas e nos campos têm uma relação muito respeitosa com a natureza. Temos que aprender a valorizar nossa cultura para valorizar o meio ambiente".

Ela ressalta ainda que todos os biomas têm igual importância: "Já ouvi gente falando: 'Ah, é só Cerrado, pode desmatar. As pessoas não pensam no ecossistema como um todo. Se águas saem da Amazônia em direção a São Paulo, por exemplo, elas passam pelo Cerrado. Se o Cerrado estiver desmatado, a água não vai passar. É um ciclo", finaliza Isabel.

Números do descaso

De acordo com o Ministério do Meio Ambiente (MMA), o Cerrado é o segundo maior bioma da América do Sul e, no Brasil, ocupa 2.036.448 quilômetros quadrados, 22% de todo o território nacional. Entre as vegetações tipicamente tortuosas, que se espalham por 11 estados brasileiros e pelo Distrito Federal, há nascentes das três maiores bacias hidrográficas da porção sul do continente americano (bacias Amazônica/Tocantins, de São Francisco e do Prata).

Beija-flor repousa nos troncos tipicamente tortuosos das árvores nativas do Cerrado

No Brasil, depois da Mata Atlântica, o Cerrado é o bioma que mais sofreu alterações com a ocupação humana. Ainda segundo o MMA, apenas 8,21% de sua área estão legalmente protegidos em forma de unidades de conservação. Esse dado, obviamente, gera consequências: de um total de 11.627 plantas nativas catalogadas (entre elas, 200 de uso medicinal), cerca de 20% já não são mais encontradas em áreas protegidas. O bioma, que abriga mais de 2 mil animais e é refúgio de 13% das borboletas do mundo, já tem pelo menos 137 bichos na triste lista de risco de extinção.

Segundo Alexandre Sampaio, faltou planejamento durante décadas. "Claro que precisamos produzir grãos, é essencial para a nossa economia. Mas precisamos orientar esse desmatamento, pensar estrategicamente e fazer uma gestão eficiente das terras, encontrando uma equação sustentável entre agricultura e sustentabilidade. Se precisar desmatar mais 5% do Cerrado, ok. Mas onde vamos desmatar? Quais as áreas mais sensíveis? É nisso que devemos pensar. A chave é planejar sem desconsiderar o meio ambiente - e seguir o planejamento", destaca.

Reduto brasiliense

Com 42 mil hectares, localizado no meio da capital federal, o Parque Nacional de Brasília é a principal área protegida do Distrito Federal e representa um suspiro para o Cerrado. O espaço ostenta o título de detentor da melhor água do mundo, segundo Juliana Alves, chefe do parque. "Pouca gente sabe, mas temos a água de melhor qualidade do planeta, pois todas as nascentes estão em áreas protegidas" conta, orgulhosa. As piscinas dividem espaço com as árvores tortuosas preservadas, além de nascentes e trilhas. "Não divulgamos o número de espécies porque estima-se que o último balanço feito subestimou a fauna e a flora que temos aqui. Um novo estudo será feito em breve", promete Juliana.

Popularmente conhecido como Água Mineral, o parque é reduto de diversas gerações de brasilienses e atrai cerca de 300 mil pessoas por ano, chegando a picos de 3 mil visitantes em dias quentes. Segundo Juliana, o contato das pessoas com o parque gera uma maior conscientização sobre a preservação do meio ambiente como um todo. "À medida em que as pessoas frequentam o parque, elas se apegam. Isso faz com que elas cuidem da nossa área. Tem ciclistas que às vezes nos ligam para falar que viram pessoas suspeitas entrando no parque. Então esse contato traz uma consciência ambiental, um respeito pela natureza", diz.

No Distrito Federal, temos 74 áreas protegidas, sob os cuidados do Instituto Brasília Ambiental (Ibram), entre Reservas Legais, Áreas de Proteção Ambiental, Parques de Uso Múltiplo e Unidades de Conservação. "Brasília é o lugar onde ficam os tomadores de decisão, o governo. E ter essas áreas aqui é de extrema importância. Os próprios políticos desfrutam desse espaço, então os parques servem para trazer a atenção da nossa política para o meio ambiente. É daqui que saem as decisões, precisamos aproveitar isso", finaliza Juliana.

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