Questão de atitude

A preservação ecológica é uma escolha pessoal. Iluminação natural, reaproveitamento da água, jardim natural são algumas práticas possíveis no dia a dia. Consciência ambiental dos cidadãos estimula segmento da construção sustentável


por Luiza Machado

No portão da casa não tem interfone, mas um sino. O jardim também dá pistas de sustentabilidade: árvores nativas preservadas, como ipê amarelo, pé de pequi e jurubeba, entre outras. A engenheira florestal Soraia Melo, ao planejar a própria casa, disse que não tinha conversa: seria um espaço ecologicamente correto. A começar pelo terreno, que é inclinado. Ela e o marido se recusaram a fazer terraplanagem. Preferiram se adaptar ao solo e construir uma casa suspensa, de forma a preservar a topografia do cerrado e favorecer a circulação de ar no imóvel. Além de cultivar diversas espécies nativas no jardim, Soraia deu mais vida ao espaço: plantou manjericão, citronela, pé de amora e pé de mamão. Em meio à beleza visual, há uma inebriante combinação de aromas.

"Aqui em casa, a sustentabilidade não é vista como opção. Eu me sinto obrigada a preservar a natureza, é um prazer tomar essas atitudes", diz Soraia. E ela cumpre bem a missão. A casa tem grandes placas de vidro no lugar de paredes, permitindo a iluminação natural. As lâmpadas são de LED, mais econômicas e duráveis do que os modelos tradicionais. Na cozinha, ela cuida com carinho de uma hortinha orgânica. E todo o conhecimento é passado para o filho, Daniel, de 8 anos: "Ele aprende a teoria na escola e, aqui, a prática. Respeitar a natureza é muito natural. Talvez ele nem tenha se deparado com a palavra sustentabilidade ainda, mas sabe na prática o que é", conta a engenheira.

Placas de aquecimento solar no terraço dispensam chuveiro elétrico

No telhado da casa, placas de aquecimento solar aquecem a água, dispensando chuveiros elétricos. O terraço, coberto por terra, não é apenas um lugar de contemplação da vista privilegiada do planalto central. Funciona também um coletor de água das chuvas. Todo o líquido que cai lá vai para recipientes de armazenamento no subsolo da casa. Soraia aproveita essa água para descargas nos vasos sanitários e irrigação das plantas. Uma economia que ela não consegue mensurar, mas que certamente traz um grande alívio ao bolso. E a engenheira quer ir além e fazer um jardim nesse terraço, o que esfria a casa, dispensando ar condicionado em períodos muito quentes. Tudo estrategicamente pensado para cuidar do meio ambiente e economizar nas contas de água e luz.

Apesar de exigirem mais planejamento, casas sustentáveis não costumam sair mais caras do que casas convencionais."O encanamento da água quente (aquecimento solar) foi um gasto extra, mas em compensação houve economia com movimentação. Então, no fim, o valor fica mais ou menos o mesmo, e eu ainda saio ganhando na questão ambiental", avalia Soraia. A arquiteta Gabriela Mendes, especialista em construções ecológicas, diz que o custo de um imóvel sustentável, ao longo do tempo, se mostra inferior ao de imóveis tradicionais. Essa economia poderá ser medida nas contas de água e luz, que ficam cada vez mais altas.

Tendência sustentável

A maior conscientização ambiental estimulou o incremento de uma atividade econômica: a arquitetura sustentável. Gabriela Mendes trabalha no ramo há 15 anos e conta que, no início, dedicava-se a três projetos sustentáveis por ano, em média. Hoje, o número de contratos saltou para 30. "A tendência é aumentar cada vez mais, já que as pessoas estão se conscientizando sobre os impactos ambientais, além de terem a intenção de economizar nas contas de água e luz", avalia.

O número de profissionais na área de construção sustentável também vem aumentando, segundo a arquiteta. Hoje, é possível encontrar empresas especializadas na área. "Ao longo desses 15 anos, fomos testando, aprimorando as técnicas. Foi dando certo e o aumento da oferta e da procura é consequência dessa maior conscientização", avalia Gabriela.

Consciência tranquila: Soraia diz que cuidar do ambiente não é opção, é obrigação

Soraia conta que as ações ecologicamente corretas não são pontuais; constituem, na verdade, um modo de vida. "A casa me inspira a levar o conceito de sustentabilidade para outras áreas. Com as pessoas, por exemplo, eu também tenho relações equilibradas. Não entro na cultura do consumo exagerado. Então, a sustentabilidade com o meio ambiente me ensina a ser mais racional e ponderada em vários outros aspectos. É um ciclo de bem-estar", conta.

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