guardiãs do futuro

A consciência ambiental resulta de um processo que começa na infância. Crianças devem ser educadas desde cedo a entender e a preservar o futuro do planeta. Escolas inovam no ensino das práticas sustentáveis


por Luiza Machado

"Quando eu crescer, quero ser presidente. E vou plantar muitas árvores!", conta Mariana Rosano, 8 anos. A pequena estudante do 4º ano sabe bem a importância do meio ambiente, assim como suas colegas de turma. Valentina Fernandes, 9 anos, dá as orientações de como escovar os dentes: "Não pode deixar a torneira aberta. Devemos só molhar a escova antes e depois, senão desperdiça água". Já Isabela de Freitas, 9 anos, é mais enfática. Ela diz que chama a atenção do irmão mais novo quando ele não adota uma postura ecologicamente correta: "Se ele faz alguma coisa errada, eu logo falo que não pode". Orgulhosa ao ouvir as amigas, Maria Eduarda Pitman, 9 anos, resume o que o grupo aprende diariamente na escola: "A gente tem que cuidar da natureza".

Minizoológico na escola: crianças aprendem a cuidar dos animais e da natureza desce cedo

Mariana, Valentina, Isabela e Maria Eduarda não estão sozinhas no movimento de conscientização sobre a importância da preservação do meio ambiente. Nos últimos anos, diversas escolas têm adotado o tema no currículo dos alunos. Márcia Maria Peixoto, coordenadora pedagógica de uma escola brasiliense, é possível trabalhar as noções de consciência e meio ambiente com crianças a partir dos dois anos de idade. Segundo ela, quanto antes, melhor. "No desenvolvimento do ser humano, a interferência maior é o meio. Se a criança desde cedo vive em um ambiente de respeito à natureza e é educada dessa forma, as chances de se tornar um adulto consciente são infinitamente maiores", destaca.

No colégio em que as meninas estudam, na Asa Sul, todo o ambiente foi adaptado para favorecer o contato das crianças com a natureza. No pátio, um minizoológico chama a atenção: tem araras, tucano, pavão... Tudo para que as crianças se sintam à vontade e acompanhem de perto o cuidado com os animais - todos identificados e monitorados pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama). Nas salas de aula, existem várias plantinhas e um aquário. Os próprios alunos trocam a terra dos vasos, regam os vegetais e alimentam os peixinhos. "Esses cuidados têm que estar no cotidiano das crianças para que virem hábitos naturais. O hábito de um contagia a família, gerando um ciclo de sustentabilidade e consciência", descreve Márcia Maria.

Por recomendação do Ministério da Educação, as escolas passam apenas noções de sustentabilidade aos alunos, como atividade extracurricular. No Distrito Federal, um colégio público especializado se destaca na conscientização ecológica. É a Escola da Natureza, que fica no Parque da Cidade e funciona como um complemento das atividades escolares tradicionais. Cerca de 500 alunos da Secretaria de Educação vão lá a cada quinze dias para desenvolver atividades lúdicas nos jardins, como cuidar da horta, plantar e colher vegetais e observar animais que vivem soltos por lá, como uma família de micos.

"Esse contato é fundamental, eles veem os bichinhos e entendem que precisamos respeitá-los, sem interferir no cotidiano dos animais. As crianças ficam quietinhas quando os micos aparecem, elas sabem que eles precisam de espaço", relata a diretora da Escola da Natureza, Renata Lafetá. O colégio conta ainda com uma estrutura sustentável: casinhas de madeira, banheiro seco (que evita o desperdício de água) e recipientes de captação de água da chuva para reutilização. Tudo para que os pequenos desenvolvam hábitos sustentáveis. Renata cita a importância da continuidade da conscientização na escola tradicional. "É um trabalho em equipe. Precisamos sempre reforçar a importância do cuidado com o meio ambiente", observa Lafetá.

A família também tem papel essencial. Segundo Márcia Maria, o trabalho da escola perde a eficácia se, em casa, a criança presencia hábitos prejudiciais à natureza. "É uma tarefa que envolve todos do círculo do aluno", frisa a coordenadora. Quando existe essa cooperação, os resultados ultrapassam a esfera do meio ambiente: "O cuidado com a natureza se expande. Se a criança cuida da plantinha, do animalzinho, é claro que ela vai cuidar também das pessoas. O respeito começa em uma área da vida e extrapola para outras. E são as crianças que vão mudar nosso futuro. O governo tem destaque nesse papel de proteger o meio ambiente, mas acredito que a mudança mesmo começa dentro de cada um", finaliza.

Maria Eduarda, Valentina, Isabela e Mariana


Renata Lafetá destaca ainda que a geração está muito mais consciente do que as anteriores. "As tragédias naturais estão aí, estamos vivendo as consequência de décadas de descaso com o meio ambiente. Não podemos esperar, é urgente. Esse trabalho de conscientização das crianças é essencial porque dependemos delas para mudar a sociedade no futuro. E vendo o interesse dos alunos, acredito que o planeta estará em boas mãos nas próximas décadas", afirma a educadora. Assim como as coleguinhas de escola, a pequena Valentina chama a responsabilidade para si: "Eu sempre vou cuidar do planeta, ele é a minha casa".

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