Reciclar é preciso

DF recicla cerca de 80 toneladas de lixo por dia. Quantidade, no entanto, poderia ser muito maior se brasiliense participasse da mais da separação do material reaproveitável. Especialista afirma que a população precisa liderar esse processo


por Luiza Machado

Os olhos ficam atentos. As mãos são ágeis. É preciso muita concentração para separar os materiais recicláveis que passam rapidamente pela esteira de lixo do Centro de Triagem de Resíduos do Varjão. As catadoras não deixam passar nada: vidros, papéis, papelões e plásticos, entre outros materiais, são separados em grandes recipientes colocados estrategicamente ao lado da esteira. Com um olhar treinado, elas já identificam o que serve e o que não serve. E o material recebe o destino ecologicamente correto: os centros de reciclagem.

A dedicação a esse trabalho não é apenas para garantir o dinheiro do mês (a renda é variável, mas fica em torno de R$ 500). As catadoras se orgulham de contribuir com o meio ambiente. "Eu me sinto outra pessoa desde que comecei a trabalhar aqui. Antes, em casa, eu não separava o lixo e jogava tudo fora. Agora, trago todos os recicláveis para cá. Não estou aqui só pelo trabalho, sei que isso é importante para a natureza também", conta Jandira Rosa Rodrigues, 52 anos, catadora desde 2006.

Em média, 160 toneladas de lixo são recicladas por dia no DF

Das 2.800 toneladas de lixo recolhidas diariamente em todo o DF, 160 são levadas para centros de triagem. Na cooperativa do Varjão, onde trabalham cerca de 30 catadoras (a única cooperativa exclusivamente de mulheres no DF), 70% do lixo são realmente recicláveis. Outros 30% são descartados como rejeito. Mas o percentual de aproveitamento varia: a média do DF fica em torno de 50%, de acordo com o diretor do SLU, Paulo Celso dos Reis. Ou seja, das 160 toneladas, apenas 80 são realmente recicláveis.

Após a triagem, o material é vendido para centros de reciclagem. O dinheiro fica com os catadores, mas todo mundo sai ganhando. Além de gerar empregos, a coleta seletiva diminui gastos do governo, que enterra menos lixo e poupa espaço nos aterros. Em um total de 31 regiões administrativas, existe coleta seletiva em 17. A expectativa é que o número pule para 22 a partir da semana que vem, quando o serviço de coleta seletiva será implementado em outras cidades. Ao todo, 33 cooperativas de catadores atuam no Distrito Federal.


Apesar desse esforço, o diretor do SLU afirma que a coleta seletiva poderia ser muito mais efetiva. Estima-se que, no DF, 35% dos materiais descartados sejam recicláveis, o que daria em torno de 900 toneladas por dia. Se metade desse material fosse encaminhado para centros de triagem, teríamos 450 toneladas de recicláveis por dia. No entanto, apenas 160 chegam até as cooperativas. Ou seja, os caminhões da coleta seletiva muitas vezes chegam às cooperativas praticamente vazios.

"Falta conscientização da população para separar o lixo. O SLU aumentou a coleta seletiva, mas não houve um trabalho de conscientização da população em paralelo, então não adianta", alerta o professor da UnB Gustavo Souto Maior. A falta de lixo reciclável chegou a fazer com que empresas cancelassem o contrato com o governo no ano passado. Como o pagamento era feito por tonelada, a quantidade de lixo recolhida não compensava. "Tinha caminhão e toda a estrutura necessária, mas não havia lixo suficiente", lamenta Paulo Celso.

Centro de Reciclagem do Varjão: local gera emprego para cerca de 30 pessoas

A solução para o problema passa pela educação. "Faltam ações de conscientização mais efetivas. Educação ambiental não é só jornal, rádio, TV, teatro. Precisamos fazer com que o governo atinja a população de alguma forma, seja nas escolas, seja por mídias sociais, um instrumento poderoso. A população tem que participar, ser protagonista da coleta seletiva. Se não for, o esforço será em vão", alerta Paulo Celso.

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