Cada vez que Cyro Torres Júnior fecha um ciclo de um ano, ele degustou cerca de 3 mil rótulos de vinho e passou por, no mínimo, seis feiras internacionais dedicadas ao produto. Não chega a ser um sacrifício, claro. A bebida é uma das grandes paixões do empresário de 52 anos, que começou com uma pequena delicatessen chamada Brilho, na Feira dos Importados, em 1997, para se tornar sócio de uma das 15 maiores importadoras de vinho do país.
O negócio cresceu e ganhou uma loja no Gilberto Salomão, no Lago Sul, para, em 2003, transformar-se na Del Maipo, distribuidora com sede no Setor Complementar de Indústria e Abastecimento (SCIA). "Vinho foi uma questão de paixão", conta. "Na época, não tinha internet, a gente comprava livros e lia sobre isso. Começamos com uma marca do Chile que nem existe mais, a Tamaya, nos primeiros seis meses. Logo depois, trouxemos uma marca de Portugal, depois da Argentina, Espanha e, em um ano e meio, tínhamos várias marcas." Hoje, a Del Maipo vende para todo o país e tem clientes em 21 estados.
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Brasília sempre foi uma inspiração para Cyro em vários sentidos. Nascido e criado na capital, filho de um pioneiro que veio para o Planalto Central em 1957 ajudar a construir a cidade, ouvia desde pequeno as histórias do pai. Formado em economia e gastronomia, ele percebeu o potencial da cidade para o consumo de vinhos ainda na década de 1990. "Brasília é, senão o primeiro, o segundo estado que mais consome", garante. "É a cidade de maior consumo de vinhos de qualidade do Brasil. A gente vende mais de 2 milhões de garrafas por ano, dos mais simples aos mais elaborados. Temos vinhos para todos os bolsos."
Da revenda à produção
Na loja no SCIA, ficam armazenadas mais de 800 mil garrafas. Vendidas no atacado, elas abastecem restaurantes, lojas especializadas e supermercados da cidade. "Só tem dois ou três restaurantes, hoje na cidade, que não abastecemos", brinca o empresário. É um negócio, mas também um trabalho de devoção à cidade. "Brasília é minha vida, não saio para morar em lugar nenhum, é a cidade onde nasci, que amo e pela qual sou apaixonado", declara. Para ele, o ponto de virada da carreira empreendedora na área de bebidas e vinhos se deu há cerca de uma década, quando a Del Maipo virou referência.
Agora, o próximo desafio está em lidar com a produção do produto que escolheu para vender. Junto com dois outros empresários brasileiros, Cyro tornou-se sócio da Bodega Réquiem da Ribera del Duero, no município de Peñafiel, na região de Castela e Leão (Espanha). "A vinícola é um desafio novo, começamos há seis meses e o desafio é aumentar um pouco a produção, sem deixar de ser uma bodega de garagem (propriedade pequena, com produção limitada), ir ganhando pontos e números no exterior e ter um vinho de qualidade", avisa.
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É um desafio quase tão grande quanto o de manter uma distribuidora com mais de 800 mil garrafas de vinhos no coração do Planalto Central. Como membro da commanderie du Bontemps, em Bordeaux (França), uma confraria fundada para convidados de jantares e festas nas quais se promove os vinhos franceses e diretor da Associação Brasileira de Sommeliers do Distrito Federal, Cyro garante que é incapaz de vender vinhos dos quais não gosta.
"Escolho os vinhos importados pela empresa. Provo todos eles. A gente vai aos poucos aprendendo mais sobre olfato, paladar, sobre produção. E não importo um vinho que não consiga beber. Lógico que tem que ter vinhos de todos os preços, mas só vendo o que consigo beber", garante o empresário, que também já teve uma empresa em Miami, a Del Wine. Quando pensa em um conselho a deixar para as próximas gerações de brasilienses, Cyro não hesita: "Dedicação. Tudo que você se dedica e faz bem feito, vai dar certo" .
