BRASÍLIA 66 ANOS

Meu encontro com Brasília: uma utopia pessoal

"Por causa desse filme passei a frequentar e conhecer uma outra Brasília"

André Luiz Oliveira, músico e cineasta

 

"…Estou na região onde o concreto se faz abstrato e o abstrato concreto, procuro olhar não vejo nada, torno a examinar, vejo tudo …"

Musa chinesa Chuan-Ta-King

São muitas as dimensões nas quais identifico Brasília presente no meu imaginário e na minha história, todas suficientes para que eu, capturado por elas, esteja morando aqui a quase quatro décadas. A primeira, a física, ordinária — que rege os acontecimentos na dimensão visível e concreta da vida —, aconteceu em 1963 quando estive aqui pela primeira vez, aos 15 anos de idade, a passeio, trazido da Bahia por meu pai, de carro, numa longa viagem, com a boa intenção de reparar um trauma familiar no qual eu era o causador.

Meu saudoso e querido pai, Milton Oliveira, juscelinista informal, entusiasta apaixonado pela "ideia de Brasília" e pela "coragem inaudita" (termo então usado por ele) do seu criador, achava que essa mudança de ares me afetaria positivamente com algum tipo de "cura" para o meu mal comportamento adolescente e de fato, anos mais tarde, senti que a viagem ''curou", sim, algo em mim. Meu pai me trouxe até Brasília e, sem ter a menor ideia de que um dia eu faria filmes, muitos deles em Brasília, e muito menos que viria me estabelecer nessa cidade para o resto da vida, me disse sem proferir palavra alguma mas eu entendi: "…O lugar do seu equilíbrio é aqui…". Foi ele quem, anos depois, me deu o livro Ubirajara, o senhor da lança, de José de Alencar, no qual me inspirei para filmar A lenda de Ubirajara no Araguaia. Por causa desse filme passei a frequentar e conhecer uma outra Brasília.

A dimensão imaginária, poética, mítica e a mais afeita ao meu perfil aquariano, foi-me apresentada nos anos 1960 por um senhor extraordinário, músico, filósofo, místico, também aquariano, chamado Anton Walter Smetak (suíço radicado na Bahia desde os anos 1950) que conheci, convivi pouco mas o suficiente para me encharcar dos seus "ensinamentos" sobre uma Brasília oculta, profunda e o seu significado transcendente análogo à alma humana que cohabita e transcende o corpo sem que ninguém a veja.

Estes dois momentos relatados acima presentes na minha memória como cenas do destino, representam dimensões do mental/espiritual entrelaçadas e trabalhando juntas, foram determinantes para minha mudança para Brasília em 1991. Mas a dimensão humana emocional que concretiza o abstrato, só foi possível acontecer com a recepção amorosa de pessoas muito queridas como a saudosa cineasta Tania Quaresma e outras amigas e amigos desgarrados aqui vivendo abrigados e, sobretudo, no encontro com a minha companheira a musicoterapeuta Clarisse Prestes. Os filmes e festivais são outras histórias em outras dimensões…

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