BRASÍLIA 66 ANOS

Meu encontro com Brasília: Brasiliências

Eu amo Brasília, só queria que seus arredores recebessem o mesmo cuidado dos governos

Clarice Gonçalves, artista plástica

 

Como muitos "brasilienses", sou neta de nordestinos que vieram construir a cidade. As aspas na brasiliência se dão pela forma com que, historicamente, a cidade segregou e segrega os trabalhadores que a dão vida, diariamente, nos lembrando que não somos tão brasilienses assim, já que moramos nos arredores do Plano Piloto, mas distante de sua arquitetura mundialmente reconhecida e tombada, de sua arborização invejável e equipamentos culturais e transporte público funcional.

Para nós, dos arredores, o deslocamento para acessar a cidade maravilhosa é um dreno de tempo e recursos. O ápice da minha frequência ao Plano Piloto foi durante os anos de faculdade, ainda adolescente, dos 17 aos 20 e poucos anos, estudante de artes visuais da Unb em 2003. Naquela época, ainda não havia o metrôzinho de Brasília, e passava muitas horas do meu dia e da vida entre esperas em paradas de ônibus e dentro de ônibus lotados, carregando materiais de arte, tintas, telas...

Era um chá de revelação de classe social chegar na UnB e ver meus colegas que moravam ali nas proximidades chegando de carro próprio. Assim que fui me alfabetizando de Brasília e suas siglas, W3, L2... Fui com os anos mapeando memórias afetivas nos seus gramados verdejantes e arquitetura concreta, decorando suas tesourinhas e setores de diversão.

É gostoso frequentar o Plano e revisitar fases da minha vida, da minha carreira, vividas ali, lugares que fiz exposições, restaurantes, árvores de estimação! Infelizmente, não posso dizer o mesmo da cidade onde moro e onde cresci, Taguatinga, que a cada ano muda radicalmente: a arborização dentro da cidade é quase ausente, casas "antigas"  são derrubadas e dão lugar a edifícios, altos, não os simpáticos blocos das asas do plano, que se mantém baixos para respiramos o céu. Parquinhos e praças, aqui, somem, enferrujam, viram estacionamento.

Espaços culturais, como o finado Teatro da Praça onde fiz minhas primeiras apresentações em dança, segue fechado a anos! Onde tinha cinema, virou igreja. Onde tinha clube (Primavera) a especulação imobiliária engoliu. O Clube dos 200, virou igreja também, assim como a antiga escola onde terminei o ensino médio. O centro que era minimamente arborizado e pulsante, agora torra em concreto, grades e muito, muito engarrafamento. A Flona, que frequentava desde a adolescência, agora tem que pagar caro pra entrar.

Eu amo Brasília, só queria que seus arredores recebessem o mesmo cuidado dos governos. Que o brasiliense do Plano Piloto e também o dos arredores saibam escolher quem governe com senso de coletividade, pensando no futuro dos nossos filhos e netos, que realmente cuidem das cidades e do bem-estar de quem vive e faz viver o plano piloto, que o transporte público, saúde e educação sejam prioridade, e não só a politicagem das empreiteiras de viadutos. O DF é, mais que tudo, o Cerrado.

O Cerrado é, para mim, uma grande avó, que me nutre profundamente com suas estações afiadas, sua vegetação rebelde e seus sabores pungentes. É onde me deleito com araticum, pequi, buriti e ainda consigo ter acesso a um bom açaí, acarajé, feijão verde e manteiga da terra. Essa centralidade e multiplicidade que Brasília é e proporciona, são para mim, de uma riqueza gigantesca e impagável e vem de quem a construiu, a sua cultura, seus sabores e costumes, o Brasil inteiro está aqui, e isso é o que me faz e me fez permanecer nesse solo, mesmo com melhores oportunidades para minha carreira em outros estados.

Nem falar de nossas águas. Com tantos ataques ao bem comum e ao meio ambiente, me sinto na obrigação de usar meu talento para trazer reflexão e proteger nossos biomas. Que essa jovem Brasília daqui aos próximos aniversários se lembre que sua brasiliência é muito, muito mais do que o Plano Piloto, é Cerrado preservado e é também as cidades satélites e seu povo diverso a constelar esse planalto!

Mais Lidas