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Correio Braziliense

Perigo em aeroporto de Congonhas continua

Mesmo com os investimentos feitos depois do desastre que matou 199 pessoas há um ano, Congonhas é um dos aeroportos mais perigosos do mundo. As pistas são muito curtas para aviões de grande porte


postado em 18/07/2008 09:19 / atualizado em 18/07/2008 09:23

Um ano depois do acidente com o avião da TAM que matou 199 pessoas, Congonhas continua o mesmo. Apesar de três reformas nas pistas principal e auxiliar, os pilotos o consideram um dos aeroportos mais perigosos do mundo. Não à toa. Com pouco mais de 1,6 mil metros de comprimento, as pistas usadas para pouso e decolagem são consideradas curtas demais para aviões de grande porte.

Apesar de o ministro da Defesa, Nelson Jobim, ter dito nesta quinta (17/07) que o aeroporto é seguro, 18 pilotos ouvidos no inquérito que investiga as causas do acidente com o Airbus A-320 da TAM afirmaram “ter medo” de pousar em Congonhas. Eles dizem que se trata de um procedimento estressante e arriscado. Entre esses profissionais, as pistas do aeroporto localizado no coração de São Paulo recebem apelidos inusitados: sabão e sabonete, quando o asfalto está molhado; e porta-aviões, em alusão ao tamanho reduzido do espaço para fazer a aeronave parar.

Por conta da série de perigos que Congonhas representa, o Ministério Público Federal move uma ação na Justiça Federal para impedir que aeronaves de grande porte operem nas pistas. No ano passado, a Justiça chegou a conceder uma liminar proibindo que Airbus e Boeings pousassem no aeroporto. No entanto, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) conseguiu derrubar a decisão. “É uma decisão polêmica. Muita gente reclama de Congonhas, mas é confortável embarcar e desembarcar no Centro de São Paulo. Se fizermos uma pesquisa com passageiros, ninguém vai querer ir para Viracopos (em Campinas)”, aposta Fernando Saveiro Pinto, consultor da Empresa Brasileira de Infra-estrutura Aeroportuária (Infraero).

“Nós não temos espaço para deslizar a aeronave com suavidade no solo. Então, a gente faz um pouso com mais impacto e freia de maneira mais brusca. Esse tipo de pouso só é feito em outros três aeroportos do mundo”, ressalta o piloto aposentado Carlos Eduardo Carañas, que já trabalhou na TAM e na Varig. Ele diz que o pouso “duro” não é confortável e costuma assustar os passageiros por causa do barulho que a aeronave faz quando chega ao solo.

Apesar das reclamações, Congonhas é considerado um aeroporto importante para o país. Só no ano passado, 205 mil aeronaves operaram nas duas pistas. Pelo menos 15 milhões de passageiros embarcaram ou desembarcaram dos 12 terminais, e 34,9 milhões de toneladas de bagagens e cargas foram despachadas por lá no mesmo período, segundo dados da Infraero.

Infra-estrutura

Mesmo com as críticas, o governo não dá sinais de que o aeroporto deixará de operar. Pelo contrário. No ano passado, foram investidos R$ 55,5 milhões para melhorar a infra-estrutura de Congonhas. Só na construção de um túnel que liga o terminal de passageiros ao estacionamento foram investidos R$ 23 milhões. As pistas também foram reformadas. Na auxiliar, foram gastos R$ 13 milhões em sistema recapeamento, grooving (canal para escoamento de água da chuva) e sinalização horizontal. Na pista principal, foram investidos R$ 19,9 milhões na recuperação do asfalto, correção de declives e sinalização luminosa. Também foram renovadas toda a sinalização horizontal e as pinturas das faixas na pista.

Após a tragédia com o avião da TAM, a Infraero diminuiu o movimento em Congonhas. Segundo dados da empresa, houve queda de 17,97% nos pousos e decolagens, comparando os cinco primeiros meses de 2007 com o mesmo período de 2008. Houve ainda redução de 27,48% na movimentação de passageiros nesse mesmo espaço de tempo. “Essa redução não elimina os riscos de acidente. O ideal seria que apenas aviões pequenos operassem em Congonhas”, diz o promotor Mário Luiz Sarrubbo, que acompanha as investigações sobre as causas do acidente da TAM.

Até a origem do aeroporto de Congonhas é pitoresca. Ele foi planejado em 1936, depois que uma enchente do Rio Tietê alagou e interditou por vários meses o aeroporto do Campo de Marte. Para solucionar o problema, decidiu-se construir um novo aeroporto. A área onde Congonhas está localizado foi escolhida por suas condições naturais: visibilidade, drenagem e terreno desocupado e plano, que permitiria a construção de quatro pistas. Naquela época, ele estava bem distante do centro urbano. “Na verdade, a cidade é que foi se aproximando do aeroporto e não o contrário”, diz Saveiro Pinto, da Infraero.

 

A frase 

"(Em Congonhas), a gente faz um pouso com mais impacto e freia de maneira mais brusca. Esse tipo de pouso só é feito em outros três aeroportos do mundo"
                    Carlos Eduardo Carañas, piloto aposentado


O número
R$ 55,5 milhões
foi o investimento feito pelo governo federal para melhorar a infra-estrutura do aeroporto de Congonhas

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