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Correio Braziliense

Executivo também era alvo

PF revela que criminosos detidos na Penitenciária Federal de Campo Grande planejavam seqüestrar, além de autoridades do Judiciário, funcionários de “alto escalão” do governo federal e dos estados


postado em 06/08/2008 09:24 / atualizado em 06/08/2008 09:52

Além de seqüestrar autoridades e familiares, as investigações da Polícia Federal mostraram que os quatro presos da Penitenciária Federal de Campo Grande (MS) suspeitos de tramar as extorsões tinham planos mais audaciosos. Eles pretendiam atacar o presídio para provocar uma fuga em massa e também desenhavam ações contra comboios de transporte de detentos. Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, o colombiano Juan Carlos Ramirez Abadía, José Reinaldo Girotti e João Paulo Barbosa pretendiam raptar integrantes do Judiciário e também do Executivo — em nível federal e estadual — usando integrantes das facções às quais são ligados e a quem controlavam de dentro do presídio. Quatro pessoas apontadas como contatos do grupo nas ruas e detidas na chamada Operação X, desencadeada na segunda-feira, estão na superintendência da PF em Mato Grosso do Sul — os líderes do grupo, que serão indiciados por formação de quadrilha, já foram levados de volta à penitenciária.

Apesar de Abadía e Beira-Mar atuarem com tráfico de drogas, os dois não tinham ligação dentro do presídio, revelam as investigações da Polícia Federal. As articulações seriam feitas por advogados e parentes dos principais envolvidos. “Havia um revezamento entre os contatos”, explica o delegado Wilson Salles Damázio, diretor do Sistema Penitenciário Federal. Segundo ele, a descoberta dos planos do grupo foi feita pela área de inteligência do Departamento Penitenciário Nacional (Depen). As informações foram então repassadas à PF, a quem coube abrir a investigação que resultou na Operação X. Por estar em segredo de Justiça, em decorrência de determinação da juíza substituta da Vara Federal de Execuções de Campo Grande, Raquel Domingues do Amaral, o Ministério da Justiça não deu mais detalhes sobre o caso.

Fontes da PF informaram que as ações seriam desencadeadas por facções ligadas aos quatro presos. Beira-Mar tem ligações com o Comando Vermelho, enquanto que Abadía liderou o cartel de traficantes de Bogotá. Barbosa e Girotti são integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC). A investigação realizada até agora pela PF indica que um ataque anterior ao presídio, repelido por agentes penitenciários federais, já teria sido articulado por uma das quadrilhas. “Isso mostra que eles têm poder em várias partes do território nacional”, diz um policial da área de inteligência da PF. Segundo ele, as ações seriam desenvolvidas em vários estados.

“Alto escalão”

Por meio de escutas telefônicas, a Polícia Federal descobriu que um dos planos era seqüestrar autoridades dos poderes Executivo e Judiciário. “Eram pessoas de alto escalão e seriam usadas como moeda de troca”, observa um investigador, que não revela nomes, cargos ou locais de trabalho das supostas vítimas por questões de segurança. Os planos seriam desenvolvidos pelos que estavam fora do presídio e mantinham contatos constantes com os quatro presos. Na segunda-feira, na Operação X, a PF prendeu em Nova Andradina (MS), Leandro Oliveira dos Santos e Leonice de Oliveira, ligados a Barbosa. Em São Paulo, foi detido o advogado de Girotti, Vladimir Búlgaro, e em Campo Grande foi presa Ivana Pereira de Sá, ex-mulher de Beira-Mar.

Para evitar novas investidas, o Ministério da Justiça pretende reforçar o policiamento no local e qualificar os agentes penitenciários. “Nossos homens passam por vários treinamentos e o próximo será com o Comando de Operações Táticas (COT) da Polícia Federal”, informa Damázio. Hoje, a Penitenciária de Campo Grande abriga 143 detentos de alta periculosidade, enquanto que a unidade de Catanduvas (PR) — a única outra de segurança máxima no país — tem 125 presos.

 

A frase 

"Havia um revezamento entre os contatos (dos presos com familiares e advogados)"
               Wilson Salles Damázio, delegado da PF e diretor do Sistema Penitenciário Federal

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