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Correio Braziliense

Arquivos de guerra: Amargo esquecimento

Última reportagem da série sobre os pracinhas brasileiros na 2ª Guerra Mundial revela a dor dos sobreviventes devido ao que consideram desrespeito à memória nacional. Até a Associação de Veteranos deve fechar


postado em 28/08/2008 09:28 / atualizado em 28/08/2008 09:36

Lapa, Rio de Janeiro. Agosto de 2008.


“Conspira contra sua própria grandeza o povo que não cultiva seus feitos heróicos.” A frase escrita na entrada da Associação Nacional dos Veteranos da FEB, local onde os pracinhas se reúnem para relembrar os feitos nos campos de batalha, é hoje o retrato das condições em que eles vivem. Esquecidos pela história e pelo governo do país que um dia defenderam na Itália, os ex-combatentes se encontram apenas para lamentar. Sem condições de ser mantida, por falta de apoio oficial, a sede da entidade, onde está o Museu da 2ª Guerra Mundial, vai fechar.

Quando fala sobre a guerra, o major reformado Tiago da Fonseca, 87 anos, relembra a época com alegria. Fala dos seus atos de bravura, mas não consegue esquecer de Mega, um aspirante com quem lutou em Montese. “Ele não tinha medo de nada, mas morreu ao atravessar um campo minado. Até hoje existe um mapa com o sangue do garoto”, conta Tiago. Falar sobre os combates dos quais participou logo se transforma em tristeza ao olhar a seu redor. Quase todas as peças do Museu da Força Expedicionária Brasileira (FEB) estão encaixotadas, restando apenas algumas ainda em exposição. Entre elas, a farda do comandante das tropas brasileiras, João Batista Mascarenhas de Moraes, com vários furos causados por traças. Outro exemplo de abandono e esquecimento.

Pouco mais de 24 mil soldados foram para a guerra. Hoje, apenas 4 mil ainda vivem para contar esse capítulo da história do Brasil. O major Antônio André, 88 anos, é um deles. Com vasto bigode, jeito bonachão e tranqüilo, o ex-combatente trabalhava em um depósito da FEB em Montello, na Itália, quando foi mandado para os campos de batalha. Ficou admirado com a valentia de seus companheiros. No grupo dele, não houve baixas. “O nosso `gigante` tinha apenas 1m72, e havia gente que nunca tinha calçado um sapato na vida, mas superaram tudo”, conta André, companheiro inseparável de Tiago. “O nordestino, principalmente. Mal alimentado, chegou lá e cumpriu sua missão.”

Ressentimentos

Se superaram os campos de batalha, a dor pelo esquecimento é muito grande. Quando se reúnem na associação, os veteranos se dividem entre revoltados e esperançosos. O primeiro sentimento parece maior entre os pracinhas. “Só lembram da gente no desfile do Dia da Pátria”, diz um deles. Tiago, por exemplo, reluta em comparecer às solenidades oficiais, como no Dia do Reservista, em maio, no Forte de Copacabana, onde o ato foi realizado em 2008. Foi, mas ficou distante da cerimônia. Em um outro dia, chegou a segurar forte o braço do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pedindo ajuda para a associação. Em vão.

Marcos Galper, o primeiro combatente brasileiro a dar um tiro de canhão na Europa, conta que foi à guerra com dedicação redobrada. “Tinha dupla motivação: ser judeu e brasileiro”, diz ele, um dos poucos de família de classe média à época que foram à guerra. André se lembra da pobreza da Itália, poucos dias antes do fim da batalha. Todos os dias tinha que patrulhar as casas. “Só tinha mulheres, crianças e velhos”, diz o veterano. “Nos tratavam bem, nos chamavam de nono (neto) e faziam até marmitas para comermos”, conta ele.

Seu outro prazer foi lutar com pessoas de outras raças, com as quais não mantinha contato. Da guerra, trouxe poucas lembranças ruins, mas também é pessimista quanto ao destino da associação onde costuma ir dois dias na semana. A situação de André é diferente de muitos veteranos. Por questões burocráticas, ele corre o risco de perder a pensão a que tem direito, assim como de devolver seis meses de salários recebidos. Caso isso aconteça, não terá como sobreviver. Talvez seja um dos motivos que o leva a freqüentar, enquanto pode, a associação dos veteranos, antes que ela também desapareça. “O vice-presidente José Alencar prometeu ajudar”, conta o general Rui Leal Campelo, 90 anos, presidente do Conselho Deliberativo da entidade. A ajuda, porém, ainda não chegou.

Temor
Com um quadro social reduzido a 10% do que existia anteriormente, a associação, e em conseqüência o museu, não tem como manter os oito funcionários. Para não fechar totalmente, abrem o estabelecimento em dias alternados, mas a tendência é encerrar as atividades. O prédio de seis andares, que fica no centro do Rio, foi doado por Carlos Lacerda, mas até hoje o terreno pertence ao estado. Segundo o presidente da associação, coronel Hélio Mendes, 87 anos, a entidade não pode arrendar ou vender o imóvel.

Israel Rosenthal, 87 anos, foi tenente-dentista na guerra e enfrentou perigos e dificuldades para atender seus companheiros. Muitas vezes fazia consultas no escuro, não apenas para não ser alvo dos alemães, mas também por falta de energia elétrica. Como seus companheiros veteranos, passa as tardes conversando sobre os rumos da associação e dos próprios pracinhas. Uma das preocupações é que todos estão acima de 80 anos e muitos morreram nos últimos anos, sem que fossem reconhecidos pelos seus feitos, ou pelas suas inovações no combate. “Vários soldados, principalmente os do Nordeste, levaram consigo uma peixeira. E isso fez um diferencial em alguns momentos”, conta o coronel Sallis Szajnferber, de 84 anos.

Mesmo assim, os veteranos de guerra ainda têm esperança de dias melhores. Abriram uma campanha para ganhar novos sócios, que terão acesso a todo o acervo da associação e do museu, enquanto esperam alguma ajuda oficial. Eles sabem, porém, que não devem esperar muito, como diz uma placa na entrada do prédio: “À pátria tudo se deve dar. À pátria nada se deve pedir…nem mesmo compreensão”.

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