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Correio Braziliense

Destruição sem volta na Floresta Amazônica

Ministro anuncia diminuição de 22,35% no ritmo de derrubada de árvores na Floresta Amazônica em setembro. Porém, pouco mais de 80% do desmatamento identificado pelo sistema Deter é irreversível


postado em 30/10/2008 08:41 / atualizado em 30/10/2008 08:41

Apesar da redução geral de 22,35% na área devastada na Amazônia em setembro, comparada com a observada em agosto, os dados colhidos por satélite pelo sistema Detecção do Desmatamento em Tempo Real (Deter), utilizados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Ambientais (Inpe) para medir o índice de degradação da floresta, revelam que 83,8% das matas atingidas por queimadas no mês passado sofreram destruição irreversível. Uma amostragem feita pelo Inpe mostra que a grande parte da área destruída em setembro pode ser classificada como de “corte raso” (52,7%) — método que utiliza correntes arrastadas por tratores para derrubar toda a vegetação antes das queimadas — e como “floresta degradada de alta intensidade” (31,1%), locais onde foi feita a retirada de árvores adultas para o comércio ilegal e a utilização da vegetação mais leve para fazer carvão. Índices semelhantes (acima dos 80%) desses dois tipos de destruição vêm sendo registrados desde maio. Eficiência No boletim mensal sobre queimadas divulgado ontem, o próprio Inpe ressalta o elevado índice de destruição definitiva da Floresta Amazônica. Nas áreas afetadas pelos dois métodos de devastação, os técnicos do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) consideram que a floresta não tem como ser recuperada em um possível projeto de reflorestamento. Essa situação, segundo o Inpe, demonstra que os “estágios iniciais e intermediários de degradação são detectados com menos eficiência”. Em 9,5% das áreas destruídas em setembro, a floresta ainda pode ser recuperada, uma vez que mantém suas características originais. O ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, comemorou ontem a queda de 22% na taxa de desmatamento registrada entre junho e setembro na Amazônia, em comparação com o mesmo período do ano passado. Em setembro deste ano, os satélites registraram a menor média dos três últimos anos em área degradada na Amazônia (587km²). “É inadmissível que ainda exista desmatamento ilegal na Amazônia, mas estamos conseguindo conter a destruição com muita fiscalização, a regularidade nas operações e o foco principal na origem do desmatamento”, afirmou Minc. “Não há justificativa” O pesquisador brasileiro Carlos Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e membro do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, em inglês), disse ontem que o Brasil não precisa avançar sobre a Floresta Amazônica para ampliar sua fronteira agrícola, uma vez que o país tem mais de 750 mil quilômetros quadrados de área desmatada com baixa utilização na produção de alimentos. Segundo ele, um terço das terras sem vegetação na Região Norte está abandonado ou com baixa ocupação. “Não há justificativa econômica para a expansão da fronteira agrícola”, alertou Nobre, que participou de uma audiência pública no Senado e de um seminário no Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea). Nobre também defendeu que o Brasil adote uma meta de redução das emissões de gases que contribuem para o efeito estufa. As negociações internacionais para a assinatura de um novo acordo sobre redução das emissões de gases poluentes estão sendo coordenadas pelo Ministério das Relações Exteriores. O governo brasileiro ainda não definiu se vai propor alguma meta. O ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, defende que o Brasil calcule o efeito da utilização de combustíveis e energia com base em fontes renováveis para negociar com os demais países os critérios para a redução. Coordenador do IPCC, o cientista inglês Martin Parry, presente no seminário do Ipea, defendeu a meta de 80% para a redução global de emissão de carbono até 2050. Esse é o percentual estabelecido pela Grã Bretanha. Segundo ele, o mundo está com uma década de atraso nas decisões sobre o controle das emissões. “Necessitamos de lideranças fortes para implantar um programa de redução”, sugeriu Parry. Para a secretária de Mudanças Climáticas e Qualidade Ambiental do Ministério do Meio Ambiente, Suzana Kahn Ribeiro, o ponto fraco do Brasil ainda é a falta de ações sustentáveis capazes de evitar a derrubada de floresta. “Quando a gente percebe o tamanho do problema, vê que lidar com o desmatamento não é só uma questão de fiscalização”, analisa a secretária, que coordena o Plano Nacional de Mudanças Climáticas. Colaborou Hércules Barros Ouça podcasts: com o ministro Carlos Minc e o pesquisador Carlos Nobre O ministro do Meio Ambiente Carlos Minc fala sobre as ações para coibir o desmatamento na Amazônia O professor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Carlos Nobre, fala sobre as conseqüências das mudanças climáticas para a agricultura

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