Brasil

Livro explica como estudo de microorganismos pode ajudar a esclarecer questões da humanidade

;

postado em 06/11/2008 08:23
Na incessante busca pelos mistérios da história e da evolução da humanidade, arqueólogos e cientistas ganharam aliados inusitados: vírus, bactérias e outros microorganismos. Graças à genética, já é possível desfazer mitos e encontrar novas respostas para temas que vão do surgimento e disseminação do HIV ao povoamento das Américas. Durante três anos, o médico infectologista Stefan Cunha Ujvari, especialista em doenças infecciosas e parasitárias do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo, debruçou-se sobre as novas pesquisas envolvendo as cadeias de DNA e RNA. O resultado é o livro A história da humanidade contada pelos vírus, um relato surpreendente de como a trajetória dos homens, desde seus ancestrais, está intimamente ligada a seres minúsculos e invisíveis. ;A partir da década de 1990, começaram a surgir muitas pesquisas genéticas que preenchem lacunas da história humana. Antes disso, não dava para imaginar a importância desses microorganismos;, conta o autor. ;Antigamente, procuravam-se as lesões que os microorganismos provocaram nos tecidos. Uma múmia, por exemplo, com lesões na coluna vertebral provavelmente era de alguém que sofria de tuberculose. Hoje, é possível descobrir a mesma coisa a partir do material genético dentro de ossos preservados;, explica. O infectologista começa o livro explicando como o vírus da Aids saiu do interior das matas africanas para atingir cerca de 40 milhões de pessoas em todo o mundo. Para isso, retorna ao ano de 1470, quando os portugueses desembarcaram na costa oeste africana, em busca de uma passagem para as Índias, colonizaram o continente, caçaram e comeram chimpanzés que, por sua vez, passaram para eles dois tipos de vírus. Assim começou a epidemia de Aids, que já em 1930 espalhava-se pelo globo. Nem sempre, porém, os bichinhos invisíveis são vilões. Possivelmente graças ao microorganismo que provoca o tifo é que possuímos mitocôndrias, as estruturas celulares responsáveis pela liberação de energia. Como se sabe isso? Analisando o DNA mitocondrial, os cientistas descobriram que ele é uma espécie de ;fóssil vivo;, um ancestral que invadiu as células e, ao acomodar-se na estrutura, permitiu o fornecimento de energia a partir da produção de açúcar e oxigênio. As investigações continuaram e descobriu-se que o ser humano possui outros fósseis herdados. Inclusive retrovírus, que podem ser a causa de doenças cuja incidência ainda é um mistério. Antepassados O médico explica que os vírus já estavam presentes nos nossos antepassados há milhões de anos. Contaminaram macacos e hominídeos durante a evolução até chegarem ao atual Homo sapiens. ;Isso ocorrendo, o vírus estaria presente no nosso organismo. E também teríamos a presença de vírus semelhantes no outro ramo que originou os chimpanzés;, diz um trecho do livro. ;A ciência pode comprovar a presença de algo semelhante? Sim. A resposta vem pela comparação de vírus em ambos os animais. Encontramos um candidato, o vírus causador do herpes;, continua. Tanto homens quanto macacos possuem vírus semelhantes, que evoluem há milhares de anos. Muitos outros enigmas são desvendados por microorganismos. Para Ujvari, o grande mistério que persiste é saber como as bactérias foram se diferenciando e se isso ocorreu durante a evolução do homem. ;Há bactérias com predileção pelas vias aéreas, outras pela urinária. O homem pode ter influenciado nisso?;, questiona. Eternas companhias Além de fornecer respostas sobre doenças, o estudo dos microorganismos ajuda a contar a história do deslocamento humano sobre a Terra. Apesar de diversas correntes divergirem sobre a chegada do homem à América, estudos recentes baseados na genética indicam que dificilmente a passagem se deu pelo Estreito de Bering (área gelada entre o extremo leste da Ásia e o norte da América), como se pensou durante décadas. E quem prova isso são vermes presentes em fezes fossilizadas encontradas em múmias que datam da ocupação da América. São seres que não conseguiriam se desenvolver no frio. Precisavam de um solo úmido e quente, o que exclui a possiblidade de o homem ter atravessado o estreito a pé, pelo gelo, durante milhares de anos. É bem mais provável que tenha chegado ao continente de barco. O cientista Stefan Cunha Ujvari explica que jamais seremos capazes de exterminar os microorganismos que provocam efeitos nocivos. ;Vivemos na biosfera, que é compartilhada por eles. Teremos que aprender a lidar com os microorganismos. Descobrir drogas para doenças que já criaram resistência às existentes, como a malária e a tuberculose;, informa. Apesar do conhecimento proporcionado pelo estudo genético dos seres invisíveis, não estamos livres de uma nova epidemia desconhecida, como ocorreu em 1983, com a descoberta da Aids. ;A gripe aviária é um exemplo. O vírus H5N1 é uma mistura de material genético do ganso, do pato e da codorna, e está invadindo o homem. Por enquanto, um homem não pode passar a doença para outro. Mas o vírus pode sofrer mutação;, alerta. Existe a possibilidade de microorganismos desconhecidos virem à tona. O médico, porém, garante que a humanidade não corre o risco de ser devastada por causa disso. ;Novas epidemias não terão altos índices de mortalidade. Com o mundo cada vez mais globalizado, logo que aparece uma doença já se tomam medidas de controle rapidamente;, tranqüiliza.

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação