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Correio Braziliense

Destruição da floresta amazônica continua

 


postado em 14/12/2008 09:04 / atualizado em 14/12/2008 09:05

Vinte anos depois do assassinato de Chico Mendes, o avanço da fronteira agrícola, com a implantação da pecuária e plantações de grãos, desmatou 370 mil quilômetros quadrados de florestas primárias nos nove estados que formam a Amazônia Legal. A área de onde as árvores e o restante da vegetação foram retirados a um ritmo crescente equivale a 7% da Região Norte. Parece pouco, mas a extensão desmatada é maior que todo o estado de Mato Grosso do Sul. Os dados são do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), entidade encarregada de analisar as imagens captadas pelos satélites que fotografam a floresta e detectam o corte raso da mata.

Em 1988, ano em que o seringueiro caiu morto, mais de 21 mil quilômetros quadrados de florestas foram derrubados. Somente no Acre, terra de Chico Mendes, 620km² de vegetação virgem foram transformados em pastagens. Hoje, boa parte das áreas abertas estão ocupadas por fazendas. Outro pedaço foi abandonado pelos pecuaristas porque terminou degradado, sem viabilidade econômica. Ao longo das últimas duas décadas, o ápice do desmatamento ocorreu em 1995. Naquele ano, quase 30 mil quilômetros quadrados de matas primárias foram destruídos.

Todas as áreas desmatadas são abertas inicialmente pelos madeireiros para retirar árvores nobres vendidas nos mercados nacional e internacional. Depois, entram os tratores, que arrastam os correntões e terminam varrendo a vegetação menor, destinada à queima para a produção de carvão vegetal que alimenta fornos de siderúrgicas. Com a mata transfigurada em vegetação baixa e secundária, classificada cientificamente como antropizada, a área passa a ser considerada fronteira agrícola e é rapidamente ocupada pelo gado ou utilizada para plantação.

Entre a vegetação destruída para a implantação de fazendas, estavam milhares de seringueiras, uma árvore natural da Amazônia e utilizada por extrativistas como Chico Mendes para a retirada do látex. Uma árvore precisa ter pelo menos 10 anos de vida para ser utilizada na retirada da resina.

Segundo projeções feitas pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), uma das maiores ONGs ambientalistas brasileiras, em 20 anos foram derrubadas mais de 500 milhões de árvores adultas. Foram mognos, ipês, cedros e massarandubas. Ao todo, somam 1,5 bilhão de metros cúbicos, que poderiam render cerca de US$ 20 bilhões se somente metade das árvores fosse vendida em toras para a indústria de transformação. A destruição foi tamanha que o corte do mogno está proibido há alguns anos, e sua derrubada é crime inafiançável.

Início
A retirada da Floresta Amazônica brasileira começou em meados da década de 1970, quase 10 anos antes do início da atuação de Chico Mendes como sindicalista. Foi a época em que o regime militar incentivou a ocupação da Região Norte. Com a abertura da Rodovia Transamazônica — que corta a floresta de leste a oeste, com 2.300km de extensão — e a implantação de grandes projetos de colonização, o desmatamento e as queimadas passaram a ser condição para o financiamento de produtores rurais.

A maior parte das áreas desmatadas virou cidades ou fazendas. Uma pequena parcela da região descoberta terminou regenerada, com o surgimento de um outro tipo de floresta, secundária e com poucas árvores nativas. Quando a mata primária é derrubada, nasce outra no lugar, sem o mesmo valor, que volta a ser considerada novamente pelas imagens dos satélites cobertura vegetal fechada, como se nunca tivesse sofrido a intervenção do homem.

Mato Grosso foi o estado que mais derrubou sua florestas para o avanço da fronteira agrícola. Em 20 anos foram derrubados 122,3 mil quilômetros quadrados para a criação de pastagens e gigantescas plantações de soja, milho e sorgo. O Pará vem em seguida, com quase de 120 mil quilômetros quadrados transformados em região de agropecuária, segundo o Inpe. “O legado do Chico Mendes foi extremamente positivo. Ainda falta muito a ser feito na área da preservação ambiental, mas sem o trabalho dele o desmatamento da Amazônia teria sido muito maior”, comenta Adalberto Veríssimo, coordenador do Imazon.

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