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Correio Braziliense

Luta incansável por punição

Dedicado há sete anos a cuidar da filha Renata, hoje tetraplégica e em estado vegetativo, o aposentado Luiz Felipe Gonçalves não se conforma com o fato de o médico acusado continuar praticando a medicina


postado em 14/04/2009 09:04 / atualizado em 14/04/2009 09:11

O aposentado Luiz Felipe Gonçalves, 67 anos, usou a internet e diversos pontos movimentados de Brasília para divulgar o erro médico do qual a filha Renata Gonçalves, hoje com 39 anos, teria sido vítima numa famosa clínica de inseminação artificial da cidade. Depois de enviar cerca de 25 milhões de e-mails, que circularam em todo o país e até no exterior, e de distribuir 1 milhão de panfletos denunciando o caso, a clínica mudou de nome e o proprietário decidiu se mudar para Salvador (BA), onde abriu uma filial. Assim que tomou conhecimento, o aposentado contratou uma empresa para distribuir 300 mil fôlderes na capital baiana. “Depois do que aconteceu com a minha filha, é um absurdo o ginecologista Joaquim Roberto Costa Lopes continuar praticando a medicina. Isso mostra que a impunidade ainda prevalece em nosso país”, desabafa Felipe. Em 28 de fevereiro de 2002, após várias tentativas de ser mãe, Renata decidiu procurar uma clínica de reprodução humana para realizar um dos seus maiores sonhos. Casada com o bancário Carlos Alberto Lopes há 11 anos, a então secretária do presidente da Embrapa tomou coragem e se submeteu a uma videolaparoscopia (técnica para identificação de patologias ginecológicas). “Eu cheguei a sugerir que ela adotasse uma criança, mas ela insistia na inseminação artificial, já que estava tentando engravidar há três anos sem sucesso”, lembra o pai. No dia do exame, Luiz Felipe conta que verificou os equipamentos e a estrutura da clínica. “Aparentemente estava tudo perfeito e se tratava de um médico famoso que atuava no Lago Sul.” Renata foi atendida por Costa Lopes. A crise Depois do procedimento, Renata deveria voltar para casa em, no máximo, duas horas. Não foi o que ocorreu. Durante a videolaparoscopia, a secretária sofreu uma parada cardiorrespiratória após a anestesia. “O mais impressionante é que o anestesista aplicou a injeção e foi embora. Quando a outra anestesista, que nunca havia estado no local, chegou, encontrou minha filha praticamente morta. Ela caiu de paraquedas. O doutor Joaquim, que deveria ter prestado assistência correta, não estava do lado da minha filha quando ela passou mal”, denuncia. Ainda na sala de cirurgia, Renata ficou com a pressão e os batimentos cardíacos reduzidos a zero: tecnicamente morta. Depois de 55 minutos de massagens cardíacas, e de ter recebido doses de adrenalina e atropina, ela voltou a respirar. Ela foi transferida às pressas para a Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Brasília. Em seguida, a família decidiu levá-la para o Hospital Barra D`or, no Rio de Janeiro, onde ficou 53 dias em intenso acompanhamento. A grave lesão cerebral fez com que Renata perdesse pelo menos 40% da audição, parte da visão e dos movimentos. Ao voltar para Brasília, Renata foi internada no Hospital Sarah Kubitschek. “Desde 2002, nossa família não é a mesma. Mexeu com todo mundo. Estamos embrutecidos e com muitas doenças. Além disso, precisei vender um apartamento e minha coleção de 18 carros antigos para pagar todas as despesas que tenho com a Renata, em torno de R$ 10 mil por mês para custear as despesas com a equipe multidisciplinar de 29 especialistas.” Justiça Sete anos depois da videolaparoscopia, Renata está tetraplégica e em coma total e vegetativo. Não anda, não fala, tem apenas 10% da visão do olho direito e nem consegue comer direito. Mesmo doente, Luiz Felipe continua dedicando parte do seu tempo à Associação das Vítimas de Erros Médicos de Brasília (Avemb), criada para orientar as famílias das vítimas de procedimentos médicos. Ele também luta para receber uma indenização do ginecologista Joaquim Roberto. “Ele me deve mais de R$ 1 milhão, pois é esse o valor de tudo o que já gastei com a minha filha.” Segundo o aposentado, no julgamento da classe médica, Joaquim Roberto foi inocentado. O ginecologista foi absolvido por unanimidade pelos integrantes do Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal (CRM-DF). “Vi numa reportagem da TV que 21 dos 42 integrantes do CRM respondem a processos por erro médico, inclusive o presidente”, afirma. O médico Antonio Carvalho, conselheiro do CRM-DF, afirma ao Correio que não pode fornecer nenhuma informação sobre os processos que tramitam no conselho. “Os procedimentos correm sob sigilo e não são divulgados até que sejam concluídos”, explica. A família ingressou com ação no Ministério Público, mas o processo prescreveu. “A desembargadora ficou 10 meses com o processo na gaveta. O ginecologista foi indiciado, mas não foi julgado. O lobby dos médicos é muito grande e eles têm força no Congresso Nacional”, desabafa. Os anestesistas fizeram um acordo com a família e custeiam 35% das despesas com Renata, em torno de R$ 3,5 mil por mês. O ginecologista vai complementar os outros 65%, em torno de R$ 6,5 mil a cada mês. Eutanásia Diante do sofrimento da filha e de toda a família, Luiz Felipe defende a eutanásia para Renata, apesar de a prática ser proibida no país. “A contragosto da minha família, já solicitei uma autorização para abreviar a vida dela, mas não da forma convencional, que é deixar de alimentar, onde vai morrendo aos poucos. Acho que a forma mais sensata é a aplicação de uma injeção letal”, revela. “Defendo isso porque minha filha é uma boneca de pano e o seu sofrimento se espalhou por toda a família. Prefiro ver minha filha morta a viver numa situação dessas.” (RC) Ouça: trecho da entrevista com Luiz Felipe Gonçalves

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