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Correio Braziliense

Cresce tensão no Pará

Grupo de sem-terra ocupa outra propriedade no sul do estado, onde confronto deixou nove feridos no sábado, em fazenda que pertence a Daniel Dantas. Polícia começa operação de desarmamento na região


postado em 21/04/2009 08:57 / atualizado em 21/04/2009 09:00

Aumentou a tensão entre trabalhadores rurais e pecuaristas no sul do Pará com a consolidação de uma nova invasão de terras na região da rodovia PA-150, que liga Marabá a Belém. Até o final da tarde de ontem, mais de 300 famílias foram contabilizadas em dezenas de barracos de palha montados nos pastos da Fazenda Gaúcha, no município de São Domingos do Araguaia. O grupo de camponeses é ligado à Federação dos Trabalhadores na Agricultura (Fetagri). Com mais de 12 mil hectares, os títulos da fazenda, que pertence ao grupo madeireiro Batistelo, estão sendo questionados na Justiça. A Fetagri reivindica a desapropriação da terra para criação de um novo assentamento de reforma agrária. A ocupação ocorreu um dia depois de trabalhadores sem-terra e seguranças da Fazenda Santa Bárbara, localizada na mesma região, terem se confrontado. Segundo o governo do estado, oito camponeses e um segurança ficaram feridos à bala. A fazenda pertence à Agropecuária Santa Bárbara, cujo um dos donos é o banqueiro Daniel Dantas, e está invadida desde fevereiro por dois grupos: um ligado ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra(MST) e outro formado por militantes da Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar (Fetraf). As polícias Civil e Militar desencadearam ontem uma operação de desarmamento na rodovia PA-150. Quarenta PMs foram enviados ao local. “Viemos para demonstrar a presença do Estado na região para a manutenção da ordem”, disse o delegado-geral de Polícia Civil Raimundo Benassuly. Agentes da Delegacia Especial de Conflito Agrário (Deca) estão na Espírito Santo. Policiais civis começaram também a interrogar os sem-terra baleados. O caso mais grave é o do trabalhador Valdeci Gomes de Castro, 29 anos, internado em estado grave no Hospital Regional de Marabá com perfurações nos pulmões e intestinos. Segundo o advogado da Comissão Pastoral da Terra (CPT) em Xinguara, frei Henry Des Roziers, o sem-terra foi baleado porque resistiu às ordens dos seguranças da fazenda, que tentavam impedi-lo de retirar palha para cobrir os barracos do acampamento. Depois de baleado, Valdeci teria sido detido pelos seguranças privados e levado à sede da propriedade antes de ser encaminhado ao hospital. Frei Henri negou que os sem-terra tenham atirado. “Não houve tiroteio. Somente os seguranças atiraram nos camponeses”, disse. O Grupo Santa Bárbara, por sua vez, diz que os camponeses iniciaram o conflito e que os seguranças tiveram de revidar. Jornalistas que estavam no local afirmaram que tentaram impedir o conflito conversando com os sem-terra. Nessa hora, segundo eles, foram usados de escudo de proteção pelos trabalhadores. A polícia também quer ouvir os jornalistas. A agropecuária divulgou nota informando que utiliza os serviços de duas empresas de segurança, Atalaia e Marca. O comunicado diz que as duas são registradas e seus funcionários treinados e habilitados ao porte de arma, não podendo merecer a alcunha de “jagunços” ou “milícias”. Solução No domingo, o chefe da Casa Civil do governo do Pará, Claudio Puty, esteve no local para tentar negociar uma solução para o conflito. O ouvidor agrário nacional, Gercino José da Silva Filho, lamentou ontem que a direção da Agropecuária Santa Bárbara não tenha aceitado a realização de vistoria do imóvel pelo Instituto Brasileiro de Colonização e Reforma Agrária (Incra), como critério para que os sem-terra deixassem o local. A vistoria poderia apontar se a Espírito Santo é ou não classificada como produtiva. “Não foi possível resolver amigavelmente o conflito agrário em razão dessa intransigência, principalmente do grupo Santa Bárbara”, disse o ouvidor.

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