Brasil

Quedas da própria altura ou de janelas matam 250 crianças todos os anos

postado em 17/07/2009 08:45
Um tempo inferior a 20 minutos foi o suficiente para a menina de 5 anos posicionar uma escada perto da janela, cortar a tela de proteção que já apresentava rasgos, lançar edredom, lençol e outros objetos para, depois, despencar do 5º andar. A morte de Rita de Cássia, que há uma semana caiu do apartamento onde morava, no Rio de Janeiro, chocou o país. Os pais da garota chegaram a ser presos e terão que responder na Justiça por abandono de incapaz. Tragédias semelhantes, entretanto, ocorrem com mais frequência do que se imagina. Levantamento do Ministério da Saúde mostra que 250 crianças, de 1 a 14 anos, são vitimadas todos os anos por quedas dos mais variados tipos - de janelas e lajes a tombos da própria altura. Entre 2001 e 2006, 1.757 meninos e meninas perderam a vida por conta do acidente - quarta causa de mortes não naturais nessa faixa etária. Segundo especialistas, alguns cuidados, no entanto, poderiam evitar pelo menos 90% dos casos. "Além de educar as crianças sobre o perigo de acidentes, é preciso muita vigilância. Em princípio, poderíamos admitir que uma menina de 5 anos, como nesse triste caso, já tem condições de entender que não deve pular da janela. Mas veja que não dá para estipular uma idade padrão em que todos terão esse discernimento. A análise deve ser feita caso a caso, conforme o desenvolvimento da criança", afirma Aramis Lopes Neto, integrante do Departamento Científico de Segurança das Crianças da Sociedade Brasileira de Pediatra. De acordo com o médico, é preciso também não criar facilidades para que os acidentes ocorram. "Evitar colocar móveis próximos às janelas e não deixar que brinquem em escadas são duas medidas importantes", destaca. E o perigo, segundo o médico, não se restringe às crianças com desenvolvimento suficiente para engatinhar, andar ou escalar móveis. "As pessoas esquecem que os bebês conseguem rolar", adverte Aramis. Daí o cuidado em não deixá-los sozinhos em cima de móveis, mesmo que seja a própria cama dos pais. Coordenadora nacional da ONG Criança Segura, Alessandra Françoia ressalta a falta de cultura da prevenção. "De uma forma geral, em todas as esferas, não há um foco, um esforço em prevenir. E isso é resultado, em grande parte, da filosofia de enxergar o evento como uma fatalidade, quando sabemos que a maioria dos acidentes poderiam ter sido evitados", destaca Alessandra. Ela lembra que, no ambiente doméstico, essa negligência inconsciente pode ser ainda maior. "Existe essa visão de que, por estar dentro de casa, no contexto familiar, podemos relaxar nos cuidados." Do lado de fora Além das adaptações dentro de casa, os cuidados com a segurança da criança, do lado de fora, são fundamentais. Local adorado pelo pequenos, os parquinhos sempre figuram como uma fonte de acidentes em potencial. Aos pais e responsáveis, cabe a análise das condições dos brinquedos e a vigilância ininterrupta. Cair de um brinquedo com altura superior a 1,5 metro, por exemplo, aumenta em quatro vezes o risco de lesão. "Veja que as quedas, em geral, não provocam consequências graves. Na maioria das vezes, hematomas ou fraturas ósseas. O problema é que não dá para prever. Pode ocorrer de a criança cair da própria altura, ao levar um tombo aparentemente corriqueiro, e bater a cabeça. Então, o melhor é a prevenção", diz Aramis. Acessórios como capacetes, joelheiras e cotoveleiras são obrigatórios em atividades que oferecem um risco acrescido, tais como andar de bicicleta ou skate. "Em equipamentos como os carrinhos com rodinhas ou o bebê conforto, lembre-se sempre dos cintos", recomenda Alessandra. "Não basta passar a faixa da cintura, utilize também a proteção entre as pernas", recomenda a coordenadora da ONG Criança Segura. O andador, ainda usado por muitos pais para auxiliar a criança nos primeiros passos, é um vilão da segurança da criança, e há um bom tempo é desaconselhado pela Sociedade Brasileira de Pediatria. "Além do risco de quedas, ainda dificulta o desenvolvimento da criança, que deve aprender a se equilibrar sozinha, utilizando toda a planta do pé, de acordo com o próprio ritmo de desenvolvimento", diz Aramis.

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