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Correio Braziliense

Gripe suína: Era melhor remediar

País chega a 129 mortes pelo vírus A (H1N1) e especialistas dizem que parte delas poderia ter sido evitada se o governo tivesse liberado o Tamiflu antes


postado em 05/08/2009 08:28 / atualizado em 05/08/2009 09:01

Passados 38 dias desde a primeira morte confirmada em decorrência da Influenza A (H1N1), o país viveu ontem (4/8) seu pior dia em relação aos óbitos registrados por causa da nova doença. Só o estado do Paraná divulgou 21 mortes, São Paulo chegou a 50 e o Brasil já contabiliza 129 vítimas no total, uma média de 3,3 por dia. E de acordo com especialistas ouvidos pelo Correio, parte dessas mortes poderia ter sido evitada se o governo tivesse liberado mais cedo o uso do Tamiflu para pacientes com sintomas da gripe suína que não estejam no grupo de risco.

O médico e infectologista Edimilson Migowski, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), é bem claro: se o governo tivesse flexibilizado o uso do antiviral desde o início da pandemia, o número de mortes no país poderia ter sido bem menor. "A Inglaterra estima mais de 100 mil infectados e os mortos não passam de 30 porque teve medicamento para todo mundo. A minha crítica é que se não houvesse essa restrição no Brasil, o número de óbitos seria bem menor. Mas antes tarde do que nunca", avalia. Após diversas críticas de médicos e especialistas, o Ministério da Saúde cedeu e decidiu modificar o protocolo que orienta a aplicação do Tamiflu. A mudança foi anunciada na segunda-feira (3/8). Até então, a recomendação era medicar apenas pacientes com síndrome respiratória grave, gestantes ou portadores de algum fator de risco como doenças cardíacas e diabetes. O Ministério da Saúde sustenta que a restrição não foi por medo de que faltasse remédio. Diz que tem no estoque comprimidos para medicar mais de 9 milhões de pessoas, encomendou mais 800 mil tratamentos e justifica que a ideia era evitar que o uso indiscriminado do antiviral, o que poderia fortalecer o vírus. Mesmo assim, a infectologista Rosana Richtmann afirma que o Ministério da Saúde demorou para alterar o protocolo. "Se tem um número de medicamentos suficiente, poderíamos ter flexibilizado um pouco antes, quando começamos a ver casos que não faziam parte do grupo vulnerável e tinham esse desfecho pior%u201D, avalia a médica do Instituto Emílio Ribas e do Hospital Maternidade Santa Joana, ambos em São Paulo, em referência a pacientes que não estavam no grupo de risco e morreram sem tomar o remédio. Rosana destacou que ontem mesmo, um dia após a nova orientação do ministério, receitou o antiviral a pacientes com sintomas da doença. "Vamos indicar (o medicamento) com uma flexibilidade bem maior, nas 48 horas em que o tratamento é mais eficaz, mas o importante é que os médicos mantenham o critério. Se chegar um paciente com quatro dias de gripe e estável, não tem porque receitar o Tamiflu." O ministro da Saúde, José Gomes Temporão, ressaltou ontem que a mudança no protocolo não libera o médico a receitar o antiviral sem qualquer critério, mas negou flexibilização. "Não muda nada. Apenas acrescenta que toda e qualquer prescrição fora do protocolo tem de ser tomada em conjunto pelo médico e pela autoridade sanitária local. É uma excepcionalidade, não rotina", salientou. A modificação deve ser incluída no protocolo nos próximos dias, mas o ministério não soube precisar quando. A Secretaria de Saúde do Distrito Federal informou que só depois de ser notificada oficialmente sobre as mudanças no protocolo é que irá orientar os médicos da rede pública sobre a prescrição do medicamento. Nos hospitais particulares da cidade, continua o procedimento usado até agora: os profissionais podem solicitar o remédio para pacientes que se enquadrem nos critérios da restrição desde que assinem um termo e apresentem a receita médica. "Esperamos mais autonomia com a mudança", ponderou o infectologista Marcone Tinhati, do Hospital Santa Luzia. Enquanto o novo protocolo não é colocado em prática, o número de mortes avança. E as 21 mortes confirmadas no estado do Paraná confirmam esse crescimento. A Secretaria de Saúde estadual disse que havia grande quantidade de casos à espera de confirmação, daí a razão do número alto em apenas um dia. Mas não revelou detalhes como em que regiões e em que período eles ocorreram. Informou apenas que as vítimas, em sua maioria, eram jovens entre 25 e 35 anos. São Paulo, que confirmou ontem mais 13 vítimas, é o estado com mais mortos: 50. O Rio Grande do Sul conta 29. Houve ainda 25 mortes confirmadas no Paraná, 19 no Rio de Janeiro, três em Santa Catarina, uma na Bahia, uma em Pernambuco e uma na Paraíba. No Distrito Federal, foram confirmados 55 casos da doença, segundo boletim divulgado ontem, mas sem registro de óbitos. A Organização Mundial da Saúde (OMS) reiterou a previsão de que cerca de 2 bilhões de pessoas serão infectadas pelo vírus da gripe suína em todo o mundo até o fim da pandemia. Ouça entrevista com a infectologista Rosana Richtmann

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