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Correio Braziliense

Estoques de Tamiflu estão muito abaixo do recomendado

Ministério da Saúde só tem antiviral suficiente para atender a 5% da população brasileira, quando OMS sugere que o percentual mínimo seja de 25%


postado em 08/09/2009 08:29 / atualizado em 09/09/2009 13:43

O governo não se cansa de divulgar que tem antiviral de sobra para tratar os pacientes com influenza A (H1N1), também conhecida como gripe suína. Mas, se levada em conta a orientação da Organização Mundial da Saúde (OMS), os estoques de Tamiflu do Brasil estão abaixo do recomendado. Hoje, o Ministério da Saúde tem remédio suficiente para atender 5% dos brasileiros, enquanto a agência ligada à Organização das Nações Unidas (ONU) sugere que, em situações de pandemia, os países tenham medicamentos para pelo menos 25% da população.

De acordo com o ministério, os estoques do governo têm 8,5 milhões de kits do remédio. Cada um, com 10 comprimidos, é suficiente para uma pessoa. Desses, 756 mil já foram repassados às secretarias estaduais de Saúde. Até o fim deste mês, o laboratório Roche, que produz o Tamiflu, terá enviado ao país mais 800 mil kits. O fabricante reuniu dados dos estoques de 44 países, fornecidos pelos órgãos de saúde locais, e fez um ranking, levando em consideração o estoque disponível e a população. O Brasil aparece em último lugar. O Reino Unido lidera a lista, com antiviral suficiente para atender 80% da população. O país, que teve mais de 100 mil casos da doença e ampliou o acesso ao remédio desde o início da pandemia, registra 65 mortes até agora - e a segunda menor taxa de mortalidade do mundo, com 0,10 óbito por 100 mil habitantes, contra 0,34 do Brasil. Para reforçar os estoques, o governo brasileiro encomendou outros 9 milhões de kits do Tamiflu, mas a entrega está prevista só para maio de 2010. Com esse aporte, o país terá remédio suficiente para tratar cerca de 10% da população. Em nota enviada ao Correio, o Ministério da Saúde diz que o estoque atual é suficiente para atender a demanda gerada até o momento "com folga" e que a OMS "apenas sugeriu que os governos procurassem se prevenir, organizando um estoque mínimo para garantir o atendimento". Entretanto, o infectologista Edimilson Migowski, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), contesta o argumento. "Não há falta do medicamento, porque o ministério restringiu o uso do remédio no país. Ficou claro que ele (o governo) não estava preparado, porque 5% de estoque é muito pouco para uma pandemia", critica. No início da pandemia, todos os pacientes com suspeita da nova gripe recebiam o Tamiflu. Em junho, o ministério determinou que só recebessem o remédio pacientes em estado grave, gestantes ou com fatores de risco, como hipertensão ou doenças cardíacas. Na época, o governo negou que fosse racionamento e argumentou que a ideia era evitar que o vírus criasse resistência pelo uso indiscriminado do medicamento. Resistência Até agora, de acordo com a Roche, houve 13 casos de resistência ao remédio desde o início da pandemia. O vírus já infectou pelo menos 250 mil pessoas em todo o mundo. Mas, segundo a OMS, não há sinais de que ele tenha sofrido mutações. Os mortos passam de 2,8 mil e o Brasil tem o maior número absoluto de óbitos: 657, conforme boletim do Ministério da Saúde. O presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), Juvêncio Furtado, avalia que limitar o uso do medicamento pode ter sido uma estratégia motivada mais pelos baixos estoques do que por uma possível mutação do vírus. "Eu não posso afirmar isso com certeza, mas é uma conclusão que se pode tirar, porque a resistência não ocorreu numa dimensão tão grande assim", disse. O Ministério da Saúde afirma que seguiu recomendações da OMS para restringir o uso do medicamento. O número 8,5 milhões Quantidade de kits de antiviral que o Ministério da Saúde tem disponíveis para a população Disponibilidade A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que os países tenham estoque de antiviral suficiente para tratar 25% da população, com base em projeções sobre o possível número de infectados pelo vírus H1N1. País Estoque Reino Unido Suficiente para atender 80% da população França Suficiente para atender 50% da população Estados Unidos Suficiente para atender 30% da população Brasil Suficiente para atender 5% da população Fonte: Roche, com base em informações de órgãos de Saúde Defensoria ainda briga O defensor público da União no Rio de Janeiro André Ordacgy vai recorrer hoje contra a decisão do juiz Rafael Souza Pereira, da 15ª Vara Federal, que negou liminar para obrigar a venda do Tamiflu nas farmácias. O pedido foi feito no início do mês passado. Na sentença, ele acolheu os argumentos do Ministério da Saúde, que apontou o risco de o vírus desenvolver resistência em caso de uso indiscriminado do remédio. O recurso será apresentado no Tribunal Regional Federal da 2ª Região, responsável pelos estados do Rio de Janeiro e Espírito Santo. Na semana passada, o diretor de Vigilância Epidemiológica do Ministério da Saúde, Eduardo Hage, afirmou que o fabricante só deve retomar a distribuição do antiviral às farmácias em 2010 e admitiu que não havia estoques para suprir a demanda do governo e dos estabelecimentos comerciais. O ministro da Saúde, José Gomes Temporão, informou, na semana passada, que, além de comprar mais medicamentos, o governo pretende priorizar a produção da vacina para iniciar a imunização em abril. O Instituto Butantan assinou ontem, com o laboratório francês Sanofi-Pasteur, um contrato para o fornecimento e a produção de 18 milhões de doses da vacina contra a gripe suína. O primeiro lote, com um milhão de doses, será entregue até dezembro. No primeiro trimestre de 2010, o Butantan vai receber matéria-prima para processar as outras 17 milhões de doses. O ministério pediu um crédito de R$ 2,1 bilhões para a compra de vacinas e ampliação do atendimento nos hospitais. O medo da nova gripe fez com que pelo menos cinco cidades do Paraná cancelassem ontem os desfiles de Sete de Setembro. O estado tem o segundo maior número de mortes - 186 -, atrás apenas de São Paulo, que registra 261 óbitos.

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