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Correio Braziliense DROGAS

Crack modifica o perfil do consumo

Alta disponibilidade e preço baixo fazem com que usuários optem, já nas primeiras experiências, pelo entorpecente de grande poder destrutivo. Em alguns estados, número de apreensões das pedras de efeito 11 vezes mais intenso que a cocaína cresceu 370%


postado em 02/11/2009 09:39 / atualizado em 02/11/2009 09:45

O desabafo emocionado do produtor cultural Luiz Fernando Prôa, pai de Bruno de Melo, que estrangulou uma amiga até a morte enquanto estava sob efeito de crack, no Rio de Janeiro, funciona como um alerta. “Meu filho começou na droga pelo álcool, no colégio. (...) Vi um bom menino se transformar em assassino”, disse. O caminho percorrido pelo garoto de 26 anos, atualmente preso, ainda é o mais habitual, alertam especialistas. Num país onde um terço da população bebe de forma abusiva, segundo dados recentes da Secretaria Nacional Antidrogas (Senad), o álcool funciona como sedutora porta de entrada para substâncias mais pesadas. Entretanto, com a proliferação do crack, essa rota do consumo tem sido modificada, tornando comuns casos de usuários que pulam etapas.

Cachimbo artesanal usado para consumo no Rio Grande do Sul. Por lá, circulam 140 quilos da pedra por mês(foto: Iano Andrade/CB/D.A Press - 16/5/09)
Cachimbo artesanal usado para consumo no Rio Grande do Sul. Por lá, circulam 140 quilos da pedra por mês (foto: Iano Andrade/CB/D.A Press - 16/5/09)


“Há, sim, pessoas que se atrevem a experimentar de cara o crack, apesar de o caminho geralmente começar na bebida. Essa precipitação tem a ver com a disponibilidade impressionante dessa droga”, afirma Carlos Salgado, psiquiatra e presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (Abead). Para Cecília Motta, psicóloga clínica da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e coordenadora do projeto Refugiados Urbanos, que atende meninos de rua do centro de São Paulo, a sequência de experimentação de drogas é muito pessoal. “Tem a ver com o contexto onde a pessoa está inserida. Na rua, por exemplo, a cola se faz muito presente. Hoje, o crack também. Mas nem todo mundo gosta. Há meninos que experimentaram e não tiveram afinidade”, ressalta a especialista.

Camila Magalhães Silveira, psiquiatra do Hospital das Clínicas em São Paulo e coordenadora do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa), esclarece que a progressão do uso de drogas elaborada pelo pesquisador James Anthony, da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, é a mais aceita atualmente. “Indivíduos que fazem uso de álcool têm três vezes mais chances de consumir maconha. A partir daí, a probabilidade de utilizar cocaína é 11 vezes superior em relação a quem não fuma maconha. Quanto ao crack, não há mensuração. Mas podemos dizer, pela observação, que passar para a próxima etapa tem muito a ver com a renda do usuário”, diz a psiquiatra. “Como a cocaína é uma droga cara, mesmo o consumidor mais abastado e muito dependente acaba se rendendo ao crack.”

Abrangência

Onze vezes mais estimulante que a cocaína, apesar de o efeito durar apenas oito minutos, o crack acaba levando a uma repetição de uso incontrolável. “É uma ciranda, na medida em que a curta duração e o preço baixo induzem a mais uma dose sempre”, explica Salgado. De acordo com o médico, a abrangência da droga chegou a níveis tão altos que se tornou impossível traçar um perfil do usuário. Antes formado por pessoas de baixo poder aquisitivo, socialmente desestruturadas, hoje a droga chegou a todas as classes. “Embora a grande massa continue sendo de jovens em situações de vulnerabilidade, já atendo técnicos de enfermagem, colegas de profissão. O perfil, sem dúvida, está se alargando”, afirma o psiquiatra. Um estudo em fase final, conta Salgado, traçará quem é o consumidor de crack no Brasil.

Embora a grande massa continue sendo de jovens em situações de vulnerabilidade, já atendo técnicos de enfermagem, colegas de profissão. O perfil, sem dúvida, está se alargando”
Carlos Salgado, psiquiatra e presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas



Para saber mais
Estimativas imprecisas

As autoridades policiais brasileiras não têm estimativas precisas sobre o volume de crack que circula no país, mas o número de apreensões denota a gravidade do problema. Segundo o relatório sobre o uso de drogas da Organização das Nações Unidas (ONU), em 2006 foram apreendidas 145 toneladas de crack no país. Em 2007, esse total chegou a 578 toneladas.

Mesmo sendo uma droga de alto poder destrutivo e que já existe há pelo menos 20 anos, somente nos últimos três anos as polícias estaduais começaram a fazer o controle estatístico. Em São Paulo, onde se localiza a Cracolândia, o maior centro de consumo da droga do país, as apreensões cresceram 370% no ano passado em relação a 2007. Na Bahia, o aumento foi de 140% comparando-se 2007 com 2008.

No Paraná, há cinco anos, a polícia retirou das ruas 118 mil pedras de crack, enquanto no ano passado as apreensões chegaram a 1,3 milhão de pedras. No Rio Grande do Sul, o problema vem sendo tratado com preocupação intensa, já que a estimativa é de que estejam circulando pelas cidades gaúchas mais de 140 quilos da pedra mensalmente.

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