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Correio Braziliense

A droga que descobriu o Brasil

Antes restrito aos grandes centros urbanos, o crack chega às pequenas cidades. Série de reportagens mostra como a "pedra da morte" se tornou a mais recente tragédia nacional


postado em 25/11/2009 08:55 / atualizado em 25/11/2009 09:45

O vaivém de pessoas pelas ruas confunde quem chega a Guayaramerín, na fronteira do Brasil com a Bolívia. No porto, às margens do Rio Mamoré, o movimento de passageiros é intenso. Filas são formadas à espera de uma vaga para voltar a Guajará-Mirim, em Rondônia, onde outro tanto de pessoas aguarda a vez de embarcar para o país vizinho. Os barcos lotados, o calor intenso e o perigo na travessia não impedem que mais de mil brasileiros cruzem diariamente a divisa para ir às compras. A muamba é o comércio que pode ser visto. Mas ali há outro, oculto e ainda mais lucrativo. A região Norte é uma das rotas de entrada da pasta de cocaína, a substância que, refinada no Centro-Oeste e no Sudeste, dá origem ao crack. A droga, antes vista apenas nos centros urbanos, invade o interior do país. Chega de Norte a Sul, onde as autoridades já tratam o tema como epidemia, um problema grave de saúde pública. A mais recente tragédia brasileira é uma pedra comprada por R$ 5 e consumida por ricos e pobres. Para revelar as histórias que envolvem o crack — a pedra da morte — desde a entrada no país até o vício devastador, 10 repórteres do Correio, do Estado de Minas e do Diario de Pernambuco percorreram 6.792km. Equipes de jornalistas estiveram no Plano Piloto, nas regiões administrativas do Distrito Federal, nos municípios das fronteiras do Norte e do Centro-Oeste, e nas capitais e nos interiores gaúchos, paulistas, mineiros e pernambucanos.

Marcelo, ex-cortador de cana: viciado em crack, o homem de 28 anos perambula pelas ruas principais de Pradópolis, no interior de São Paulo(foto: Iano Andrade/CB/D.A Press)
Marcelo, ex-cortador de cana: viciado em crack, o homem de 28 anos perambula pelas ruas principais de Pradópolis, no interior de São Paulo (foto: Iano Andrade/CB/D.A Press)

 

 

 

 

 

 

 

 

A invasão nos municípios do interior

Renata Mariz

Pradópolis (SP) — Tudo no crack vem carregado de uma velocidade vertiginosa. O efeito no cérebro, a fissura por mais um cachimbo, a transformação de corpos saudáveis em figuras esqueléticas, o despudor de roubar para aquietar o vício. No mesmo ritmo acelerado com que fabrica indigentes e criminosos, esfacela famílias e mata, a pedra elaborada dos restos da cocaína chega aos grotões do país. Difícil imaginar, há 20 anos, época dos primeiros relatos de uso do crack entre meninos de rua no centro de São Paulo, que a droga ganharia cidades minúsculas, atingiria aldeias indígenas, escravizaria trabalhadores de zonas rurais. Ao embarcar no pau de arara saindo do Maranhão, com a roupa do corpo e esperança de uma vida melhor, Saulo* também desconhecia a existência do que ele chama de “demônio”.

O homem pardo, com um rascunho de tatuagem no braço esquerdo e dentes deteriorados chegou a Barrinha, distante cerca de 35km de Ribeirão Preto (SP), com o intuito de trabalhar na lavoura de cana, há cinco anos. Faz três anos que ele foi apresentado ao crack por um amigo, também migrante. Com ganhos proporcionais à produtividade, variando entre R$ 0,20 e R$ 0,32 por metro de cana cortada, Saulo conta que a pedra o ajuda a ter mais disposição. “Mas nem todo mundo gosta de fumar na hora do serviço. Depois de voltar do trabalho é que o pessoal usa mais”, explica o maranhense de 28 anos que consegue receber mensalmente entre R$ 500 e R$ 700, dos quais metade serve para comprar a droga. “É um demônio, uma coisa sem explicação.”

Para Marcelo*, também de 28 anos, o crack se mistura com a própria vida. Ex-cortador de cana em Sertãozinho, outra cidade que gira em torno das usinas de açúcar e álcool no interior paulista, o jovem passou da maconha e cocaína para o crack. Começou a roubar bicicletas e carros para comprar a droga, chegou a ser preso. Hoje, perambula pela cidade de Pradópolis, cuja população estimada fica em torno de 15 mil habitantes, à espera de uma oportunidade de fumar. “Faço um corre pra um aqui, pra outro ali. Muita gente chega na praça sem saber onde comprar, sem ter o esquema, aí eu levo na boca ou vou buscar pro sujeito. Conseguindo 10 reais, eu já garanto uma pedra”, conta o rapaz de olhos azuis.



Vício// É principalmente no bairro Maria Luiza II, em Pradópolis, que Marcelo busca a droga. Meninos de não mais que 15 anos ficam muito à vontade parados em bicicletas, nas ruas onde há venda, fazendo as vezes de avião. Todos se vestem com bermudas folgadas de tecido tactel e camisetas igualmente largas. Para Marcelo, a vida se resume a esse espaço, entre a praça onde costuma dormir e os bairros da cidade em que existe oferta da pedra. As mãos tremem, ele conta que vem sentindo perda de sensibilidade nas pernas. Mesmo assim, não abandonará o vício. “Crack, pra mim, é melhor que mulher, melhor que dinheiro”, define o rapaz, pai de dois filhos, que ele não vê faz seis meses.

Rosa Maria Monteiro, indigenista ligada à organização não governamental Operação Amazônia Nativa (Opn), não duvida da força da droga e sente isso no próprio cotidiano. “Há relatos de problemas com crack entre índios que vivem mais próximos das cidades, como em Mato Grosso”, afirma a especialista. O alcance da droga, para quem lida com o assunto no dia a dia, é fato consumado. “Diria que hoje o crack está em 100% dos municípios do Sul”, afirma Carlos Salgado, psiquiatra e presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (Abead).

* Nomes fictícios

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