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Correio Braziliense

Pequenas cidades mineiras se transformaram por causa do vício e das mortes do crack


postado em 25/11/2009 09:02 / atualizado em 25/11/2009 09:48

Luiz, professor de um colégio estadual de Santa Cruz de Minas: sete alunos mortos porconta do crack(foto: Beto Magalhães/EM/D.A Press)
Luiz, professor de um colégio estadual de Santa Cruz de Minas: sete alunos mortos porconta do crack (foto: Beto Magalhães/EM/D.A Press)
Santa Cruz de Minas (MG) — A cidade fica na região central do estado e é a menor do país, com apenas 2,86km². Possui 8 mil habitantes e teria tudo para ser um tranquilo município do interior. Mas uma pedra impede que seja assim. A pedra do crack. Santa Cruz de Minas, a 200km de Belo Horizonte, convive com a droga há cerca de 15 anos, desde que um traficante de São Paulo que mantinha negócios na região, fornecendo maconha e cocaína, apresentou a então “novidade”.

A chegada do crack em Santa Cruz e a disseminação da droga na cidade foram acompanhadas pelo pintor N., de 30 anos, que estava no pior lado de toda a história. N. fumou crack dos 18 anos até o último mês de setembro, quando foi internado em uma clínica de reabilitação, em São João del Rei, vizinha a Santa Cruz, onde ficou por 47 dias.

O pintor afirma que na cidade existem cinco pontos para venda específica de crack. Quatro no bairro Cascalho e um no local conhecido como Cohab. A movimentação registrada em um giro pelos dois bairros em uma segunda-feira, por volta das 17h, explica os motivos que levam uma cidade do tamanho de Santa Cruz a ter tantos pontos de venda de crack, conforme relatado por N. O pintor acredita que a potência da droga em viciar, aliada aos círculos de amizade do pequeno município, impulsiona o uso da droga na cidade. “Quem não usa, acaba usando por influência de um amigo”, diz.
Centro de Santa Cruz, a 200km de Belo Horizonte: parte da população envolvida direta ou indiretamento com droga (foto: Beto Magalhães/EM/D.A Press)
Centro de Santa Cruz, a 200km de Belo Horizonte: parte da população envolvida direta ou indiretamento com droga (foto: Beto Magalhães/EM/D.A Press)


Impacto

O professor de línguas Luiz Antonio da Cruz, que trabalha na única escola estadual de Santa Cruz de Minas, a Amélia Passos, tem na lembrança o impacto do crack. Há três anos, sete alunos de Luiz Antonio morreram por envolvimento com o crack. Todos com idade entre 15 e 25 anos. “Hoje, melhorou muito. Antes havia relatos de uso de entorpecentes inclusive dentro da escola”, conta. O prédio da Amélia Passos foi reformado. Lembra mais um presídio que um estabelecimento de ensino, com muitas grandes e muros altos.

Em Santa Cruz de Minas não há um delegado titular. Apenas agentes. O substituto para a cidade, Marcos Cardoso Atala, diz que o vandalismo na cidade, provocado pelo crack, é o principal motivo para implantação de dispositivos de segurança na escola. O interfone do estabelecimento, por exemplo, fica depois de um portão de ferro. Atala trabalha na regional de São João del Rei e vai uma vez por semana a Santa Cruz.

O Centro Mineiro de Toxicomania (CMT), principal estabelecimento público estadual de Minas Gerais para atendimento a dependentes químicos, registrou em 2009, pela primeira vez em 10 anos, número maior de casos ligados ao crack que os relacionados ao consumo de álcool. Até então, os registros de tratamento por bebida liderava os atendimentos do centro. Este ano, até outubro, 38% dos dependentes químicos que deram entrada no CMT, que opera pelo Sistema Único de Saúde (SUS), tinham problemas com crack, contra 36% de usuários de álcool. Até aquele mês, 886 pessoas haviam sido atendidas pelo centro.

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