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Correio Braziliense A DROGA QUE DESCOBRIU O BRASIL

Pequenos territórios do vício

Consumo do crack é endêmico em várias cidades. No Rio Grande do Sul, a massa de usuários ultrapassa o número de 55 mil


postado em 25/11/2009 09:11 / atualizado em 25/11/2009 10:03

» Samanta Sallum
Enviada especial

Montenegro (RS) — As pedras da morte rolam soltas por todo o território continental brasileiro. Não há distância, não há fronteira, não há obstáculo. Dos centros urbanos, da periferia das metrópoles, elas se espalham para o interior. No Rio Grande do Sul, o consumo virou endêmico. O número de usuários supera alertas de saúde pública para outras doenças. São pelo menos 55 mil no estado. Pessoas consideradas gravemente afetadas pela fumaça que vem do subproduto da cocaína. Esses são dados oficiais, mas estima-se que a massa de “noiados” seja maior. Como também em todo o país.

(foto: Iano Andrade/CB/D.A Press)
(foto: Iano Andrade/CB/D.A Press)
No Rio Grande do Sul, a cada 10 atendimentos realizados pela emergência psiquiátrica do Hospital São Pedro, em Porto Alegre, sete são usuários de crack vindos do interior do estado. Foi pela cidade serrana de Caxias do Sul, a 125km de Porto Alegre, que a droga chegou ao território gaúcho há cerca de 10 anos. O número de mortes de pessoas entre 16 e 30 anos provocadas pela violência do crack diariamente (6) é maior do que o de vítimas de acidentes de trânsito (3) no estado.

No Paraná, a realidade também é preocupante, apesar de o estado ser apontado entre os que têm os melhores índices de desenvolvimento humano do Brasil. Hoje, 90% dos casos recebidos no Centro Antitóxicos de Prevenção e Educação (Cape) da Polícia Civil são relacionados à droga. A coordenadora Maria Cristina Venâncio é uma das que fazem trabalho de luta diária contra a droga, indo a escolas, distribuindo cartilhas de prevenção, viajando principalmente para o interior, onde pequenas cidades também são afetadas. Exemplo do município de Santa Amélia, a 500km de Curitiba, de apenas 3 mil habitantes. “Cidadezinhas estão sendo invadidas”, lamenta Maria Cristina, que seguia para a cidade de Imbaú, a duas horas de Curitiba, para uma palestra. “Vou passar o fim de semana no interior, distribuindo as cartilhas de prevenção”, contou.

Os caminhos do crack são os mais variados. Migram da capital para o interior, do interior para a capital, da fronteira para a capital, de lá para a área rural. A situação no Rio Grande do Sul ficou tão grave que foi criado um comitê pelo governo local, pela Assembleia Legislativa, sociedade civil e imprensa local para mobilizar o estado. Um dos primeiros focos da reação contra o crack foi a cidade de Montenegro, por ser exatamente uma das mais afetadas. A cidade fica a uma hora da capital Porto Alegre. Tem 58 mil habitantes e 3% da população é vítima do crack.

De perfil industrial, a região tem favelas, onde o problema foi primeiramente detectado. Um projeto social da Central Única das Favelas (CUFA) pretendia levar esporte por meio do basquete às regiões carentes. “Não vai adiantar. Os meninos vão roubar as bolas e trocar por pedras”, disse, aos representantes da CUFA, uma mãe com um filho viciado. Lá uma pedra custa R$ 5.

Uma pesquisa realizada no início do ano passado em 17 bairros de Montenegro identificou mais de mil usuários num primeiro momento. “Foi alarmante o resultado. Era preciso fazer algo. Reagir. Lançamos a campanha ‘Montenegro contra o crack’”, conta Rogério Santos, representante da CUFA na cidade. Dos 800 pacientes que passaram pelo Centro de Atendimento Psicossocial (CAPS), 600 tinham problemas com o uso da droga.

Em Lajeado, a 130km de Porto Alegre, outro exemplo de região afetada pela droga, o número de internos usuários de crack aumentou, entre 2005 e 2007, de 10% para 72%.  As cidades gaúchas mais atingidas pela drogas são Porto Alegre e região metropolitana (Canoas, Gravataí, Viamão e Alvorada), seguidas pelas da região do Vale do Rio dos Sinos como São Leopoldo. Na Região da Serra Caxias do Sul, e, na Região Sul, cidades como Pelotas e Rio Grande. A apreensão de crack no estado passou de cerca de 28 mil gramas em 2005 para 227 mil gramas até outubro de 2009. O que já supera tudo que foi recolhido da droga em 2008, quando foram 150 mil gramas, suplantando nos últimos anos a cocaína.

Reação
No Paraná, a Polícia Civil também intensificou a repressão ao crack. “Para nós, é mais importante apreender 100 quilos de crack do que 100 quilos de maconha”, diz o delegado Renato Bastos, da Divisão de Narcóticos (Denarc) de Curitiba. Com a explosão do número de viciados no estado, a polícia criou equipes específicas para desbaratar o tráfico da droga. Com um quilo de crack são produzidas até 8 mil pedras, que na região são vendidas entre R$ 7 e R$ 10.

Foz do Iguaçu é a porta de entrada da droga no Paraná. Moradores da cidade, como C., de 28 anos, têm acesso fácil. Depois de internação em clínica de Curitiba para ficar longe da pedra e dos traficantes, ele voltou para Foz. Não teve jeito. Retornar ao cenário, onde a pedra rola solta, o fez recair. De volta à clínica de desintoxicação em Curitiba, contou ao Correio, que tomou uma decisão: “Vou me mudar para Curitiba. Voltar para Foz, no meu caso, é muito perigoso. Aqui, será mais difícil eu recair”, admite. No Paraná, o crack é a segunda droga mais apreendida. Foram 333 quilos nos últimos dois anos.

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