Publicidade

Correio Braziliense A DROGA QUE DESCOBRIU O BRASIL

Consumo a céu aberto

Nas cidades mineiras, policiais se dizem alarmados com o aumento do número de usuários do crack


postado em 28/11/2009 07:00

A população de Belo Horizonte convive com pelo menos dois pontos, ambos em regiões de grande movimentação na cidade, em que o uso de crack é comum. Um deles, conhecido como cracolândia, fica a 100m do Departamento de Investigações da Polícia Civil, no bairro São Cristóvão, região noroeste da cidade. Pela manhã, à tarde e à noite é comum encontrar, principalmente, crianças e jovens utilizando a droga. A Polícia Militar faz rondas frequentes na região. Assim que veem as viaturas, os usuários se escondem pulando o muro do conjunto residencial conhecido como IAPI.

O local é uma das passagens para o Hospital Municipal Odilon Behrens. Bares funcionam no local e, durante as tardes, mesmo de quartas-feiras, é comum donos de veículos equipados com potentes aparelhos de som ligarem o equipamento na região.

Outro ponto fica embaixo do viaduto Santa Tereza, nas proximidades da Avenida dos Andrades, ao lado do Parque Municipal, região central de Belo Horizonte. Exatamente em frente ao ponto utilizado para o consumo da droga existe um depósito utilizado pela prefeitura para guardar ferramentas. “Aqui eles fumam a qualquer hora do dia. Basta terem nas mãos”, conta um frequentador dos pequenos bares da região. “De vez em quando aparece a polícia e faz revistas”, diz.

Ricardo Beghini
Luiz Ribeiro

Morador do Bairro Santa Efigênia, região sul de Juiz de Fora, H.A.N., 27 anos, driblou as tenebrosas previsões sobre o futuro dos usuários de crack. Os especialistas dizem que apenas 15% dos dependentes que abandonam a droga conseguem se livrar totalmente do vício. O rapaz, que fumava maconha, conheceu o crack há 4 anos. “O que determinou em meu processo de regeneração foi ver milha filha de 10 anos crescer, enquanto eu me acabava”, revelou ele, que abandonou o vício há 8 meses.

H.A.N. evidencia a facilidade com o que crack ganha mercado em cidades do porte de Juiz de Fora, que tem 510 mil habitantes. As bocas de fumo, que eram frequentadas pelo rapaz, ficam em locais muito próximos. “É muito fácil conseguir. Se der bobeira, tem sempre alguém chamando para o mal”, conta o ex-viciado, que hoje atua como monitor de hip-hop e informática da ONG Casa de Cultura Evailton Vilela, no mesmo bairro. “Sou um privilegiado por ter conseguido largar o vício”, reconhece.

Os números da 32ª Cia., responsável pelo patrulhamento da zona sul de Juiz de Fora, ilustram a evolução da substância na região. Entre junho e agosto de 2007, houve 17 ocorrências que resultaram na prisão de traficantes. Em 2008, no mesmo período, o número subiu para 18 e quase dobrou este ano, chegando a 34 ocorrências. “Além do consumo, percebemos os efeitos colaterais, entre eles o aumento de crimes contra o patrimônio, como pequenos furtos e roubos de celulares”, disse.

Levantamentos mais abrangentes da Polícia Militar também confirmam a expansão do crack no interior. Na área de atuação do 27º Batalhão PM, que abrange bairros de várias regiões de Juiz de Fora e de 15 pequenos municípios da Zona da Mata, houve um aumento de 144 para 420 nas ocorrências de apreensão da droga, uma ampliação de 291%.

No principal município da Zona da Mata, os pacientes envolvidos com o crack são encaminhados pelas unidades básicas de saúde ao Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (Caps AD), onde mais de 50% dos atendimentos são de usuários dessa droga. De acordo com o psicanalista e gestor do Departamento de Saúde Mental do SUS, em Juiz de Fora, José Eduardo Amorim, os dados sobre internações na cidade seguem a tendência nacional. “Há 10 anos, para cada 10 pessoas internadas, duas eram usuárias de crack. Mas, hoje, são oito dependentes da droga para cada dez internações”, revela.

Montes Claros
As cracolândias se espalham pelo interior do país, em cidades como Montes Claros — quinto maior município de Minas, com 362 mil habitantes. O principal ponto de venda da droga na cidade é o Aglomerado Cidade Cristo Rei, antigo “Feijão Semeado”, onde a disputa pelos pontos de vendas entre os traficantes é violenta.

“O crack está dominando Montes Claros. A situação é alarmante”, afirma o juiz Isaías Caldeira Veloso, da 2ª Vara Criminal de Montes Claros. Segundo ele, além do “Feijão Semeado”, a droga também é encontrada com facilidade no bairro Morrinhos, outra parte da cidade que convive com o problema da venda de entorpecentes.

Principal polo do norte de Minas, Montes Claros é o segundo entroncamento rodoviário nacional. “Acredito que a droga que entra aqui vem de São Paulo, da Bahia e outros estados”, revela Isaias Caldeira.

A delegada distrital de Montes Claros, Gislanie Veloso Freitas, confirma que “o consumo de crack aumentou muito na cidade”. Ela afirma que a droga é mais perigosa do que outras por causa dos seus efeitos. “O viciado fica com aquela fissura, querendo mais. Aí, para manter o vício, ele acaba praticando furtos”, afirma.








» POR DENTRO DAS CRACOLÂNDIAS



» CHAPAQUISTÃO, O TERRITÓRIO DO CRACK



» CONSUMO À CÉU ABERTO



» PEDRA COM SOTAQUE NORDESTINO

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade