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Correio Braziliense ENEM

Após o caos, troca no Inep

Reynaldo Fernandes, que presidia a instituição, admite desgaste por conta do vazamento das provas, diz que situação não melhorou e pede demissão. Novo ocupante do cargo será o diretor do Cespe


postado em 19/12/2009 07:00 / atualizado em 19/12/2009 08:05

O ministro da Educação, Fernando Haddad, vai anunciar até segunda-feira, o diretor do Cespe, Joaquim José Soares Neto, como o novo presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) — Reynaldo Fernandes, que presidia a instituição, entregou ontem ao Ministério sua carta de demissão. O principal motivo do afastamento, segundo Fernandes, seria, principalmente, preservar a instituição. Ele destacou que o Inep tem vivido “tempos difíceis” desde o furto e vazamento das provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

Na carta, Reynaldo Fernandes lembra que o órgão teve papel fundamental em diversos pontos positivos na educação do país, como a consolidação das avaliações educacionais, mas admitiu também que alguns erros e falhas foram detectadas, mas nenhum comparado ao vazamento da prova do Enem, como ele mesmo ressalta.

“Creio que todas as mudanças que nos propusemos a fazer no Enem foram realizadas. A matriz do exame foi refeita, cerca de 2 mil itens foram construídos e pré-testados, uma prova foi elaborada e a proposta de adotar a Teoria de Resposta ao Item (TRI) foi bem recebida. Quase por ironia, o problema ocorreu justamente na etapa da execução, que não sofreu qualquer alteração, sob responsabilidade do consórcio licitado, o que evidentemente não exime o Inep da responsabilidade pelo ocorrido”, destacou Reynaldo, que pediu ainda uma auditoria para investigar a atuação do órgão na supervisão do contrato com o consórcio responsável pela aplicação do teste.

Com o episódio do furto e o adiamento da realização da prova, Reynaldo conta que o ambiente de trabalho ficou muito desgastado e, mesmo assim, era preciso refazer o exame e manter os demais processos, como a Prova Brasil, o Enade e o Educacenso. Nesse caso, como destacou, a expectativa era que, após a realização do exame, nos dias 5 e 6 de dezembro, o ambiente se acalmaria e o instituto voltaria às atividades normais. Porém, não foi o que aconteceu. O novo exame teve uma elevada abstenção, as questões foram consideradas distantes das propostas e o gabarito divulgado continha erros, enumera Fernandes na carta.

Diante dos problemas, o presidente destacou que a imagem da instituição “ficou ainda mais abalada”. E ele, como presidente do órgão, não tinha como se eximir da responsabilidade de todo o ocorrido. “Assim, ponderei minha saída da presidência do Inep. Um novo presidente poderia dirimir com menos dificuldade as desconfianças que recaem sobre o Instituto neste momento delicado”, afirmou Reynaldo, que reconheceu que não sai feliz do cargo.

Ontem, em Porto Alegre, o ministro da Educação disse que Reynaldo Fernandes não tem qualquer responsabilidade em relação aos problemas envolvendo o exame. “Não cabe acusar a vítima. O Inep foi vítima de delinquência. Foram delinquentes que roubaram a prova e, inclusive, já estão sendo denunciados pelo Ministério Público. Então, não cabia o julgamento do professor Reynaldo”.

Leia a íntegra da carta de demissão de Reynaldo Fernandes

Leia mais no Eu, estudante


Memória

Prejuízo milionário
O drama para alunos que fariam o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), envolvidos na produção do teste e Ministério da Educação começou nos dois últimos dias de setembro deste ano, quando dois homens, à época não identificados, procuraram o jornal O Estado de S. Paulo, afirmando estar de posse das duas provas que seriam aplicadas aos estudantes e querendo vendê-las por R$ 500 mil.

O ministro da Educação, Fernando Haddad, foi alertado pelo jornal, que anunciou o cancelamento do exame. “Há fortes indícios de que houve vazamento, 99% de chance”, disse o presidente do Inep, Reynaldo Fernandes, ainda sem ter certeza do roubo. O cancelamento do Enem causou prejuízo em torno de R$ 45 milhões ao erário. O exame, que seria aplicado a 4,1 milhões de estudantes no início de outubro, acabou remarcado para os dias 5 e 6 de dezembro.

Em menos de uma semana, a Polícia Federal concluiu o inquérito aberto para apurar o vazamento do teste. E aproveitou para divulgar um vídeo que mostra o momento em que uma das provas foi furtada da gráfica. De acordo com a PF, o mentor da operação foi Felipe Pradella, que contou com a ajuda de dois colegas que trabalhavam com ele na empresa Cetro, uma das que compunham o consórcio: Marcelo Sena, 20 anos, e Felipe Ribeiro, 21 anos. Eles tinham livre acesso à gráfica Plural, onde as provas foram impressas.

Um dia antes do novo Enem, o Ministério Público Federal em São Paulo denunciou à Justiça, pelos crimes de peculato, corrupção passiva e violação de sigilo funcional, cinco pessoas envolvidas no vazamento do Enem. De acordo com a denúncia do MPF, são responsáveis pelos crimes Pradella, Marcelo e Felipe. Além deles, dois intermediários, o DJ Gregory Camillo Oliveira Craid e o empresário Luciano Rodrigues, foram denunciados.

Pradella, avaliado como mentor do crime, é acusado também pelo crime de extorsão cuja pena varia de 4 a 10 anos.

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