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Correio Braziliense

Falta capacitação tecnológica

Estudo da Unesco traça um panorama da formação de professores no país e constata que docentes não estão preparados para aplicar novos conhecimentos em sala de aula


postado em 25/04/2010 17:56

Faz tempo que a dupla giz e quadro-negro deixou de ser o único recurso do professor. Embora o índice de escolas públicas de educação básica no país com laboratórios de informática e de ciências seja, conforme dados oficiais de 2008, de 30% e 10%, respectivamente, a demanda por inovações tem sido cada vez maior. Engana-se, entretanto, quem aponta como único obstáculo a carência de recursos para equipar os colégios. Especialistas são unânimes em afirmar que a capacitação dos docentes é ponto fundamental na aplicação da tecnologia dentro de sala de aula. Estudo encomendado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) revela, porém, que não passa de 2% a proporção de disciplinas obrigatórias dentro da formação inicial dos futuros professores brasileiros.

Marcada para ser apresentada na terça-feira em evento internacional(1), em Brasília, a pesquisa sobre o emprego da tecnologia da informação e comunicação (TICs) na educação traz dados de aproximadamente 2 mil currículos dos cursos de pedagogia, ciências biológicas, licenciatura em letras (português) e em matemática no Brasil. Para a consultora independente contratada pela Unesco Maria Inês Bastos, ainda é muito pouca a abordagem do tema na formação inicial do professor. “Nesse universo avaliado, o maior índice foi de 1,6%, em matemática”, destaca a socióloga, para quem a capacitação dos docentes no país carrega uma carga alta de teoria. “Isso é importante para formar um profissional crítico e analítico. Só que discussões libertárias e ideológicas demais não ajudam aquele que será egresso do curso a trabalhar numa sala de aula. Falta prática”, sentencia.

Maria Inês destaca, porém, o curto tempo de discussão sobre a aplicação das TICs na educação. “São ferramentas que surgiram mais fortemente na década de 1990, então é natural que o tema esteja sendo trabalhado ainda”, afirma. A maior ação que o governo federal poderia comandar, na avaliação de Carlos Bielchowsky, secretário de Educação a Distância do Ministério da Educação (MEC), é a capacitação de 300 mil professores atualmente na área de mídias na educação. “São profissionais em serviço que estão sendo treinados. Já os 150 mil que estão se formando na Universidade Aberta do Brasil (que é a distância), esses sim vão ter o tema das TICs na veia”, destaca Bielchowsky. “Mas temos que trabalhar o tema com as faculdades presenciais, sem dúvida.”

1 - Debate
Representantes de países da América Latina e Caribe se reunirão, entre terça e quarta-feira, em conferência internacional cujo tema é o impacto das TICs na Educação. O objetivo é construir e avançar na produção de conhecimentos e modelos para mobilizar políticas sobre o tema. A organização do evento é feita pela Unesco e pelo Ministério da Educação. Além de educadores e autoridades dos países participantes, especialistas na área de tecnologia de informação e comunicação de entidades e da iniciativa privada estarão presentes.

Inovação necessária


Embora alunos de um curso presencial de pedagogia no Distrito Federal, Marcelo Prochazka e Geane Vieira não deixaram de aprender sobre tecnologia aplicada à educação. Tiveram uma disciplina sobre o tema. “No início há um estranhamento mesmo. Mas depois que fomos estudando, mudei meu conceito de que a educação a distância, por exemplo, é enrolação”, conta a moça de 28 anos que está no último semestre da graduação. Marcelo Prochazka, estudante do segundo semestre, entusiasma-se com o potencial. “Vejo a tecnologia como uma forma de aguçar a curiosidade e interesse do aluno”, diz o gaúcho de 39 anos.

Professora da disciplina tecnologia educacional ministrada no curso de letras (português) do Centro Universitário Unieuro, Yonara Costa Magalhães destaca alguns pontos que dificultam a aplicação das TICs na formação inicial dos docentes. “O professor universitário com 15, 30 anos de sala de aula não passou por essa transformação, é natural que ele resista a isso. Outro ponto é o aluno, que não sabe ainda que resultados práticos terá caso, quando profissional, decidir implementar a tecnologia no seu trabalho”, destaca. Segundo Yonara, a missão de sua disciplina é, entre outras questões, mostrar ao estudante que ele deve se aliar à informática e aos demais instrumentos inovadores, e não brigar com eles. “Ainda há um certo receio de perder o controle da turma quando se ensina com o apoio da tecnologia, sobretudo pessoas com um perfil mais conservador”, diz.

Guilherme Canela, coordenador de Comunicação e Informação da Unesco no Brasil, lembra o quanto é complicado capacitar docentes no tema da tecnologia, mas defende uma ação continuada e focada ainda na graduação. “Embora não seja uma tarefa trivial, temos de decidir de que forma a tecnologia da informação e comunicação fará parte da formação inicial dos professores. Capacitar profissionais em serviço é positivo, mas não sustentável na linha do tempo”, afirma o especialista. (RM)


Longe da tecnologia


Pesquisa encomendada pela Unesco mostra que, dentro da formação profissional específica*, onde estão previstos os conhecimentos relacionados à tecnologia, é mínima a proporção de disciplinas obrigatórias ligadas ao tema no país. Além do curso de pedagogia, as licenciaturas em matemática, letras (português) e ciências biológicas foram analisadas em cerca de 2 mil currículos. Veja os dados:

Disciplina - Proporção de conteúdo ligado à tecnologia

Pedagogia - 0,8%
Letras - 0,2%
Matemática - 1,6%
Ciências biológicas - 0,2%

A formação profissional específica inclui três vertentes: conteúdos do currículo da educação básica; didáticas específicas, metodologia e práticas de ensino; saberes relacionados à tecnologia (gestão de mídias educacionais, informática aplicada à educação, recursos tecnológicos para a educação)

Fonte: Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco)

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