Brasil

Ascensão econômica não reduz exploração sexual de adolescentes, diz especialistas

postado em 20/05/2010 21:00
A ascensão socioeconômica de 30 milhões de brasileiros nos últimos anos e duas décadas de Estado de direito pleno não conseguiram reverter a exploração sexual de crianças e adolescentes. ;Isso arranhou por cima o problema. Não mudou muito o cenário. A questão ainda é grave. É um cancro;, diz Maria Lúcia Pinto Leal, professora do curso de pós-graduação em Politica Social da Universidade de Brasília (UnB) e participante do Grupo de Pesquisa sobre Tráfico de Pessoas, Violência e Exploração Sexual de Mulheres, Crianças e Adolescentes (Violes).

Em sua opinião, nas duas últimas décadas, o Brasil ;conseguiu construir um paradigma de direitos;, mas isso não foi suficiente. ;O Estado é frágil e as redes de proteção são furadas;, assinalou, após reclamar que as ;políticas de educação e de inserção de jovens no mercado de trabalho, por exemplo, foram esvaziadas;.

De acordo com a professora, o país tem uma legislação avançada, como o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), e uma série de programas sociais expressivos, como o Plano Nacional de Enfrentamento da Violência Sexual Infanto-Juvenil, o Plano de Erradicação do Trabalho Infantil ou o Plano Integrado para Enfrentamento do Crack, mas os direitos não são respeitados. ;Não vamos com esse discurso de que criança e adolescente já têm o seu o direito construído ou que esse já está dado. Esses direitos estão extremamente fragilizados ou inexistem;.

Para Maria Lúcia, as políticas públicas para as crianças e adolescentes não estão articuladas. ;O hegemônico não é o abuso sexual, mas a violação de direitos;, afirmou, para explicar que as crianças e adolescentes que sofrem com as formas de abuso sexual, entre elas a exploração, são vítimas de outros problemas e que o aparelho do Estado e a sociedade tratam cada coisa de forma separada e sem o levantamento preciso de informações.

;A escola não conversa com posto de saúde. O posto de saúde não conversa com as organizações não governamentais. As ONGs não conversam com os conselhos tutelares. Existe o serviços, mas estão fragmentados. A criança cai naquele atendimento geral, mas ninguém sabe se ela foi ou não abusada, porque a informação é muito precária. A gente ainda vê as crianças de forma fragmentada: hoje eu vou tratar a questão do abuso, amanhã a do trabalho infantil, depois de amanhã da saúde mental, e depois o problema da escola...;

Maria Lúcia apresentou uma palestra no seminário organizado pelo Conselho Nacional do Serviço Social da Indústria (Sesi) sobre exploração sexual. O Sistema S (Sesi, Senai, Senac, Senai, Siscoop e Sebrae) mantém o projeto ViraVida para cerca de 630 jovens, de 16 a 21 anos, que foram submetidos a alguma forma de violação de direitos. Na avaliação da professora, o programa deveria virar política pública porque leva os participantes de volta à sala de aula e os coloca no mercado de trabalho.

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