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Correio Braziliense

Falta de remédio prejudica hemofílicos


postado em 23/05/2010 13:00 / atualizado em 23/05/2010 13:04

Acabou o estoque de medicamentos sintéticos Fator 8 para o atendimento de pacientes portadores de hemofilia no Hospital de Apoio de Brasília. Na segunda-feira, o Correio noticiou a crise no abastecimento desse tipo de remédio no país. A Secretaria de Saúde do Distrito Federal, entretanto, prepara a importação emergencial dos medicamentos, até porque o seu fornecimento é determinado por decisão judicial. Mas os pacientes já estão prevendo um novo período de desabastecimento. O Ministério da Saúde afirma que não tem a obrigação de fornecer os medicamentos sintéticos (recombinantes) porque os plasmáticos (feitos a partir do sangue humano) teriam a mesma eficácia, o que é contestado pelos pacientes. Eles afirmam que apenas os sintéticos eliminam totalmente a possibilidade de contaminação do sangue.

Na última quarta-feira, Sandra dos Santos foi até o Hospital de Apoio buscar o Fator 8 (recombinante) para o filho de 9 anos. “Eu tenho apenas uma dose em casa. Já fiquei duas vezes por uma semana sem o medicamento. É uma agonia. Se acontece algum sangramento, não há o que fazer”, comentou. Na semana anterior, ela havia recebido a mesma informação do hospital: o medicamento estava em falta. Entraram em ação os líderes da ONG Ajude-C, que conseguiu na Justiça o fornecimento do fator recombinante. A coordenadora do Grupo de Paz da entidade, Roberta de Lucena, pediu esclarecimentos ao hospital.

A coordenadora do Centro de Tratamento de Coagulopatias do Hospital de Apoio, Jussara Almeida, afirmou ao Correio que os medicamentos sintéticos seriam realmente “a única garantia” de que não haverá contaminação. “Não há mecanismos para identificar novos tipos de vetores. E a nossa obrigação como médicos é fornecer o melhor medicamento existente”, diz. Ela assegurou que o pedido de compra dos medicamentos foi feito em março, mas ainda não há uma decisão do setor de compras.

A Secretaria de Saúde do DF afirmou que a compra dos medicamentos “depende da finalização do parecer técnico” do setor de Hemoterapia do Hospital de Apoio. Esse parecer deve conter o número de pacientes a ser atendidos, o número de doses necessárias e o tipo de medicamento. “A Central de Compras disse que, fechado esse parecer técnico, será aberto o processo de importação. Mas o processo de importação tem todos os trâmites de alfândega, de burocracia. Não estipularam prazo, até porque tem que ver qual empresa vai fornecer. Eles vão fazer uma tomada de preços”, acrescentou a assessoria de imprensa da secretaria. O órgão também informou que o fator plasmático não está em falta e que apenas o Distrito Federal fornece fator recombinante no país.

Primária
A Ajude-C também batalha pela implementação de um tratamento preventivo para hemofílicos, chamado profilaxia primária. Esse método prevê a aplicação do medicamento de forma regular, e não apenas quando há o sangramento. Projeto de lei em tramitação no Senado, de autoria do senador Marconi Perillo (PSDB-GO), prevê a adoção da profilaxia primária, ou seja, a aplicação regular dos fatores de coagulação aos hemofílicos, independentemente da manifestação de sinais ou sintomas de hemorragia. O senador sustenta que essa prática resultaria em economia a longo prazo, embora consuma um volume maior de medicamentos.

Estudos técnicos comparativos dos tratamentos de profilaxia primária e de demanda feitos pelo Núcleo de Coagulopatias do Distrito Federal apontou justamente essa economia. O valor médio por paciente/ano na profilaxia primária ficou em R$ 80 mil, enquanto no atendimento por demanda ficou em R$ 230 mil — cerca de 188% a mais. Foi analisado o tratamento de 64 pacientes hemofílicos ao longo de cinco anos.

O Ministério da Saúde afirma que não há falta de hemoderivados no país. Acrescenta que a dose domiciliar plena é prioridade neste ano. A pasta realiza estudo de viabilidade econômica e já constatou que a dose domiciliar causa impacto 20% maior sobre o que é gasto hoje com os medicamentos hemoderivados. Além disso, informa que o número de unidades de Fator 8 adquiridas passará de 150 milhões, em 2009, para 475 milhões em 2010, o equivalente a um aumento de 216%.

 

PARA SABER MAIS

Doença é transmitida pelos pais

 

Classificada nos tipos A, B e C, a hemofilia é o nome de doenças genéticas hereditárias que impedem o corpo de controlar sangramentos. Quando alguma parte do nosso corpo começa a sangrar, as proteínas (elementos responsáveis pelo crescimento e desenvolvimento de todos os tecidos do corpo) entram em ação para estancar o sangramento. Esse processo é chamado de coagulação. Os portadores de hemofilia não possuem essas proteínas e, por isso, sangram mais do que o normal.

Hemofílicos tipo A são deficientes do Fator 8. Já os com hemofilia do tipo B apresentam ausência do Fator 9. Indivíduos com o tipo C têm falta do fator 11. Os sangramentos são semelhantes nos três tipos, porém a gravidade depende da quantidade de fator presente no plasma (líquido que representa 55% do volume total do sangue). A hemofilia é uma doença genética, ou seja, é transmitida dos pais para os filhos no momento em que a criança é gerada. 

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