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Correio Braziliense SAÚDE

Camisinha burocrática

Última licitação do Ministério da Saúde para compra de preservativos que serão doados à população pediu 1,2 bilhão de unidades, mas só recebeu 800 milhões


postado em 19/06/2010 10:25 / atualizado em 19/06/2010 10:34

Cestos de madeira em cima do balcão no Centro de Saúde 1, na Asa Sul: preservativos para adultos e adolescentes e acesso fácil, uma exceção no DF(foto: Bruno Peres/CB/D.A Press)
Cestos de madeira em cima do balcão no Centro de Saúde 1, na Asa Sul: preservativos para adultos e adolescentes e acesso fácil, uma exceção no DF (foto: Bruno Peres/CB/D.A Press)
A oferta de material publicitário é numerosa. Não faltam cartazes e panfletos nos postos de saúde alertando sobre o uso do preservativo como forma de evitar doenças sexualmente transmissíveis, inclusive a Aids. O insumo propriamente dito, entretanto, passou a ser uma preocupação do Ministério da Saúde recentemente. Na última licitação realizada pela pasta para comprar camisinhas, o edital pedia 1,2 bilhão de unidades. Mas o mercado, tanto nacional quanto internacional, só conseguiu entregar 800 milhões, que estão sendo distribuídas atualmente a estados e municípios. Na ponta, outro problema. Nem sempre a distribuição é feita de forma abrangente e planejada, de modo que facilite o acesso ao preservativo.

“Em muitos locais, a pessoa tem que ter cadastro, assistir a uma palestra ou se submeter a uma consulta médica para ter acesso à camisinha de graça. Ou seja, há uma burocracia para entrega do preservativo, enquanto a política deveria ser a de facilitar cada vez mais”, afirma Mariângela Simão, diretora nacional do programa de DST/Aids do Ministério da Saúde. Uma pesquisa abrangente da própria pasta, realizada há um ano e meio, com 8 mil pessoas, em todas as regiões do país, mostrou que apenas 28,2% da população já receberam preservativo gratuitamente. Quanto mais jovem, maior o acesso. Entre 15 e 24 anos, por exemplo, o índice de quem já pegou a camisinha gratuitamente foi de 36,4%.

Com o brasileiro começando a vida sexual mais cedo — 36,9% dos homens e 17% das mulheres disseram ter tido a primeira relação antes dos 15 anos —, a situação dos adolescentes, em especial, preocupa Mariângela. “Se tiver que pedir no balcão, o adolescente não vai pedir. Imagine em uma cidade pequena, onde provavelmente a atendente do posto é amiga da mãe dele”, ressalta a diretora do Ministério da Saúde, sem apontar locais específicos onde a burocratização ocorre. No Distrito Federal, a regra geral, indicada pela própria Secretaria de Saúde, é centralizar a distribuição nas farmácias dos postos de saúde.

O Correio verificou o procedimento em seis postos de saúde visitados nas asas Sul e Norte, Cruzeiro, Estrutural e Guará. A exceção ficou por conta do Centro de Saúde 1, na Asa Sul, que é referência no tratamento de doenças sexualmente transmissíveis e funciona como hospital, durante o dia, para doentes crônicos. Lá, o usuário não precisa se dirigir à farmácia do local. Há cestos de madeira em cima do balcão principal com camisinhas para adultos e adolescentes. “Aqui é só pegar. Até por sermos um centro especializado em DST, prezamos muito pela distribuição do preservativo. E notamos claramente que não há desperdício, ninguém pega uma quantidade excessiva”, destaca Ana Maria de Castro, administradora do Centro de Saúde 1 da Asa Sul. Além das gôndolas na recepção, em cada consultório há um recipiente com camisinhas.

No Guará II, o Centro de Saúde 2 também oferece o insumo logo na entrada. Na tarde de ontem, porém, o cesto de madeira estava vazio. Era preciso se dirigir à farmácia para pegar as camisinhas. Para Diva Castelo Branco, gerente de DST/Aids da Secretaria de Saúde, a centralização na farmácia ocorre por questões técnicas de armazenamento. “Não acredito que haja dificuldade no acesso por conta de ter de ir ao balcão. Mas é claro que, se o administrador do posto de saúde tiver condições de oferecer o preservativo de maneira melhor, ele pode fazer”, destaca Diva. O militar Nelson Olavo, de 43 anos, aguardou cerca de 15 minutos na fila da farmácia do Centro de Saúde 11 da Asa Norte, na tarde de ontem, para receber 15 preservativos. “Não me incomodo, mas eu sei que há pessoas que ficam envergonhadas em ter que pedir, infelizmente”, diz.

Indicadores


O cruzamento de dados do extenso levantamento realizado pelo governo federal com 8 mil pessoas, de 15 a 64 anos, de todas as regiões do país, inclusive em área urbana, chegou às seguintes conclusões sobre o hábito do brasileiro com a camisinha.

A chance de quem já pegou preservativo de graça usá-lo é 2 vezes maior do que em relação aos que nunca pegaram

A probabilidade de um homem usar preservativo é 40% maior que a de uma mulher utilizar

A chance de uma pessoa usar a camisinha cai 1% ao ano. Portanto, os jovens são os que mais usam


A chance de os solteiros usarem camisinha é 3 vezes maior do que aqueles com companheiros

Fonte: Ministério da Saúde

 

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