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Correio Braziliense

O Haiti é mesmo aqui

Nas cidades mais devastadas pelas chuvas em Alagoas, moradores andam sem rumo em meio aos destroços, animais em decomposição infestam o ambiente e falta quase tudo às vítimas, de comida a postos de saúde


postado em 24/06/2010 08:35

União dos Palmares (AL) — No pior desastre natural vivido pela Região Nordeste nos últimos anos, os números são implacáveis: Pernambuco e Alagoas, castigados por chuvas e enchentes, contabilizam 42 mortos, mais de 110 mil pessoas desalojadas ou desabrigadas e 80 cidades atingidas, além de 600 desaparecidos. Por trás da frieza das estatísticas, no entanto, uma realidade ainda mais triste. Além de União dos Palmares, o Correio percorreu mais três cidades do estado alagoano — Santana do Mundaú, Branquinha e Murici. Em todas, um cenário de guerra.

Homens do Exército ocupam ruas e estradas. Helicópteros sobrevoam a área para avaliar danos e distribuir cestas básicas. A Polícia Militar tenta controlar, além da entrada de carros e pessoas nas cidades, saques e atos de violência. Moradores desolados perambulam em meio aos destroços em busca de objetos pessoais. Animais decompõem-se ao ar livre e o cheiro forte toma conta do ar, obrigando a população a usar máscaras — que assim como quase tudo nessas cidades, também estão em falta.

“Só temos a ajuda de Deus. Em cinco minutos perdemos tudo aquilo, que nem é muito, mas que construímos por uma vida toda”, resume Cícera Maria da Silva, de 40 anos, moradora de Murici. “Foi como ver a morte”, diz a moradora, sobre o dia do temporal. Cícera e os quatro filhos estavam em casa, conversando à luz de velas, quando a água invadiu a sala. Por sorte, um carroceiro passava pela rua na hora e lhes deu carona. Pegou apenas a bolsa com documentos. Desde sábado, Cícera vai todos os dias para a casa destruída na beira do rio. “Queria ela de volta. Era tão quentinha e o melhor é que era minha. Não sei quando vou poder ter outra casa”, lamenta.

Em Santana do Mundaú, apenas cinco homens do Corpo de Bombeiros estavam ontem na cidade completamente destruída. Eles ajudavam a recolher destroços e retirar moradores que insistem em permanecer nas áreas de risco. Apesar da alta possibilidade de desaparecidos na região, nenhuma equipe de salvamento foi vista atuando.

O município é dividido pelas águas do rio e parte da ponte que liga um lado ao outro foi levada pela correnteza. Somente ontem, depois que um caminhão aterrou o trecho, moradores conseguiram cruzar a cidade. Antes, eles estavam usando uma escada improvisada. Quitéria Celestina, de 53 anos, estava desde sexta sem comida em casa. É que o mercado fica do outro lado da ponte. Durante todos esses dias contou com a ajuda dos vizinhos. “Tem mais de 10 pessoas lá em casa. Só hoje conseguimos sair”, conta. Em Santana, praticamente todos os prédios públicos foram destruídos. Um posto de saúde precisou ser improvisado em uma casa de apenas um quarto. Mais de 50 pessoas aguardavam atendimento.

Funcionários do governo estadual estavam nervosos com a quantidade de fios elétricos espalhados no centro de União dos Palmares. Temem acidentes graves, especialmente com crianças. “Meu filho está assustado. Não sai da barra da minha saia e fala o tempo todo da chuva”, relata Rosilene Maria da Silva, que lavava as roupas cheias de lama.

Em Branquinha, onde não sobrou nada da parte baixa da cidade, carros com pães, leite e roupas entravam e saíam da cidade o tempo todo. Mas Dereide dos Santos, 44 anos, e as filhas ainda não tinham conseguido nada. “Ouvi falar que ia chegar ajuda e até agora nada.” A casa dela ficava no centro da cidade, que agora a prefeitura quer levar para bem longe. É a cidade mudando de lugar para não sumir de vez.

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