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Correio Braziliense

Infância roubada pela tragédia

No centro de um crime aterrador, o destino do filho da modelo Eliza Samudio, supostamente com o goleiro Bruno, repete histórias de órfãos que tiveram as mães assassinadas pelos próprios pais


postado em 18/07/2010 12:18

Mais um episódio de atletas milionários envaidecidos pela fama e pelo dinheiro numa vida desregrada. Evidência da falta que uma família estruturada pode fazer. Prova cabal da violência covarde de homens contra mulheres em pleno século 21. Inúmeras são as reflexões que o caso do goleiro do Flamengo, Bruno, pode suscitar. Mas quando tudo acabar, e o assassinato de Eliza Samudio for totalmente elucidado, restará uma história triste e cruel para o verdadeiro pivô do crime que chamou a atenção do Brasil nas últimas semanas: o bebê que a jovem teimava ser filho de Bruno, enquanto o goleiro se negava a fazer o teste de paternidade. Batizado de Bruninho, o menino de cinco meses de vida poderá ser mais um entre tantos brasileiros órfãos de mãe graças às mãos assassinas do pai.

Ninguém sabe quantos eles são, mas dados da Secretaria de Políticas para as Mulheres, com base nos 51.354 relatos de violência recebidos pela central telefônica, de janeiro a maio de 2010, mostram que 30,3% das agredidas têm um único filho e 28,2%, dois. Em números absolutos, isso representa pelo menos 44.522 pessoas, entre crianças e adultos, com mães apanhando de pais, padrastos, namorados ou companheiros. Quase 70% dos filhos presenciam a violência e 15,6% são espancados com as mulheres que lhes deram à luz. Num emaranhado de sentimentos, que mistura incredulidade, dor, raiva, piedade e sede de justiça, os herdeiros dessas tragédias familiares abrem o coração para contar como encaram suas próprias histórias.

"A gente namora, se casa e ele mata a gente"
Eis a definição utilizada por muito tempo por Nathália Just Teixeira (foto), quando criança, durante as sessões de terapia, para definir o ciclo natural dos relacionamentos entre homens e mulheres. A moça de 25 anos presenciou, quando tinha quase 5, o pai, José Ramos Lopes Neto, matar a mãe, Maristela Just, em 1989, no Recife (PE). O homem também atirou contra ela, o irmão, Zaldo, e um tio deles. Todos sobreviveram à chacina, menos Maristela, baleada com três tiros na cabeça. De tão nítidas, as lembranças de Nathália ajudaram na condenação recente do pai, 21 anos depois do assassinato. “Infelizmente minha memória em relação ao dia não se apagou. Por outro lado, penso que foi bom, pelo menos pude colaborar como testemunha”, diz a jovem.

Equilíbrio emocional lapidado por 10 anos de terapia, Nathália ainda consegue contar com riqueza de detalhes o que ocorreu, mas destaca que alguns pontos vão ficando “embaçados” ao longo do tempo. “As imagens são coloridas, mas não têm som”, descreve. Sobre o homem que tirou a vida da mãe, condenado a 79 anos de prisão e atualmente foragido, ela não alivia. “Em toda a minha existência, convivi com a impunidade. E até com coisa ruim a gente se acostuma. Mas agora que houve o júri, quero que ele vá para a cadeia. Rezo para ele ser encontrado. Meus sentimentos têm vindo com uma ira muito grande, coisa que antes não acontecia”, conta Nathália, atualmente casada e sem filhos.

Enquanto aguarda ser nomeada como servidora pública do Judiciário em São Paulo, onde mora, ela acalenta o sonho de ter sua prole. “Meus avós e toda a família nos deram muito amor, por isso somos tão bem resolvidos hoje”, avalia. Por conta do tiro que levou do pai, Nathália tem a mão direita um pouco maior que a esquerda e os movimentos parcialmente comprometidos. Para Zaldo, o disparo teve consequências mais graves. Ele foi atingido na cabeça e tem o lado esquerdo do corpo paralisado. “Eu podia ter nascido com esse deficit. Ou ter sido baleado em um assalto ou ter caído de um cavalo. Mas saber que foi seu pai que fez isso é muito ruim”, desabafa o jovem de 23 anos, criado pelos tios maternos. Nathália, cuidada pelos avós depois de perder a mãe, apagou qualquer vestígio de paternidade da sua vida. “Houve um pai até 3 de abril de 1989.”

O exercício do perdão
A voz da irmã, Luana, anunciava uma verdade pouco crível. “Quando eu atendi o telefone, ela disse: ‘Acho que meu pai matou minha mãe’”, lembra Elaine Araújo Damacena (foto). Chegando ao Lago Azul, cidade do Entorno do Distrito Federal, o que parecia um grande engano se confirmou. A salgadeira de 25 anos foi informada por policiais que periciavam a casa onde viviam seus pais que João da Silva Pereira Damacena não só tinha tirado a vida de Luzia Ricardo Araújo, como serrou o corpo da mulher com quem era casado havia 26 anos. “Tudo escureceu e eu desmaiei”, diz Elaine. Passada a tristeza que a deixou de cama por uma semana, ela arregaçou as mangas e, hoje, tenta ajudar o pai, preso em flagrante desde o crime, em abril passado.

“Não tenho um pingo de raiva dele. Acredito quando ele diz que não lembra do que fez, que não via minha mãe e sim um homem alto e barbudo, que não se lembra de ter pegado um serrote. Já minha irmã não quer saber dele, e eu respeito”, diz Elaine. Católica, a filha de Luzia e João sempre visita o pai na cadeia às quartas-feiras e atribui o ocorrido a alguma espécie de influência demoníaca. “Ele não teria coragem de fazer uma coisa dessa em sã consciência. Quando bebia, ficava diferente, discutia com ela, mas nada perto disso”, garante Elaine. A grande preocupação, agora, é como contar ao filho de 7 anos, que insiste em perguntar pelo avô. “Falei que a avó dele morreu, mas não disse como. Ele é muito apegado ao meu pai, não sei o que fazer”, lamenta a mulher.

Para a médica Márcia Mossurunga, que trabalha como psicoterapeuta, o momento certo de revelar a verdade tem de ser avaliado caso a caso. “Mas não deve ser antes dos 7 ou 8 anos, nem depois dos 13, 14. Uma hora será preciso contar, com todo o cuidado, ressaltando que ninguém sabe o que ocorreu naquele momento, que o pai se arrependeu do que fez. Enfim, tentando transformar algo doentio em minimamente digerível”, diz a médica. Psicólogo especializado em traumas e pesquisador da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), Christian Kristensen chama a atenção para o risco de a criança distorcer a história, colocando-se como culpada. Apesar de ter 25 anos, Elaine não chega a se responsabilizar pela tragédia de sua família, mas se pergunta como teria evitado. “Hoje, acho que deveria ter ajudado mais meu pai com relação à bebida”, diz.

Sobre pais e monstros
Quatro anos livre de um marido agressivo, três vivendo um namoro saudável e com um bebê em formação na barriga. A felicidade da gravidez de Roberta* se estendia às filhas Mariana* e Cristina* (foto), frutos do primeiro casamento. Tanto que o último diálogo da mais velha com a mãe foi dirigido ao futuro irmão. “Eu tinha esquecido de dar boa noite para ela. Aí, levantei da cama, fui lá e falei: ‘Boa-noite, mãe. Boa-noite, Carlos* ou Juliana*’”, conta Mariana, 11 anos, repetindo os nomes que o bebê receberia, dependendo do sexo. Em maio passado, porém, Roberta foi encontrada carbonizada dentro de pneus, com 95% do corpo queimado, no Novo Gama (GO), a 46km de Brasília. O principal suspeito do assassinato é o ex-marido, atualmente preso.

Cristina, 9 anos, resume-se a chorar a morte da mãe. Mais crescida, Mariana se revolta com o que ocorreu. “Agradeci a Deus por ter colocado ele na cadeia. Agora Ele tem que nos ajudar para que meu pai fique o resto da vida lá”, diz, com lágrimas nos olhos. Abalada com a perda da mãe, porém bem articulada, a menina de cabelos ondulados e pele branca conta dos sonhos que têm com Roberta, enquanto mostra as primeiras peças de roupas compradas para o irmão que nunca chegará. “Um dia depois de tudo que aconteceu, eu sonhei que ela estava de asas, e ela me contava que o bebê era um menino”, lembra Mariana. Para a avó das garotas, falar a verdade logo de cara foi a única saída. “Toda vida elas viram as monstruosidades dele. E de qualquer maneira ficariam sabendo”, diz.

O passado de agressões vivenciado por Mariana e Cristina durante os nove anos de casamento da mãe com o pai, de acordo com o psiquiatra Bruno Mendonça, acaba servindo como uma resistência adicional às intempéries da vida. “Se uma tragédia dessa ocorre com uma criança que já enfrentou dificuldades, que ficou casca grossa, ela pode lidar muito bem com tudo isso”, diz o médico. Entretanto, ele destaca que as reações são muito individuais. Até questões biológicas de formação cerebral pesam para definir o grau de impacto que tal situação provoca na vida dos filhos. Na casa ampla mas humilde no Pedregal, a família de Roberta clama por Justiça. “Ele é um monstro, um psicopata, estamos fazendo de tudo para que ele pague pelo que fez à minha irmã”, diz uma irmã de Roberta.

* Nomes fictícios em respeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA)

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