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Correio Braziliense

Motoristas da intolerância

Agressão física, corpo mutilado e até morte. Todos os dias, uma simples discussão no trânsito se transforma numa guerra à qual todos nós estamos sujeitos


postado em 01/08/2010 10:04

Um retrovisor quebrado, um arranhão no carro ou a vaga perdida no estacionamento podem despertar as reações mais brutais, imagináveis e inimagináveis. Barra de ferro, faca, pau, extintor de incêndio, uma caneta ou o próprio carro se transformam em armas nas mãos de quem, por segundos, se sente agredido no trânsito e reage - numa escala bem maior - com mais agressão.

Geanderson teve parte da orelha decepada numa briga de trânsito contra três agressores:
Geanderson teve parte da orelha decepada numa briga de trânsito contra três agressores: "Foi muito desespero" (foto: Iano Andrade/CB/D.A Press)
Os crimes cometidos no trânsito acontecem a cada instante nas grandes e médias cidades brasileiras, na maioria das vezes de forma invisível aos olhos da sociedade. É a reação a uma fechada muitas vezes involuntária, a indignação com a audácia de um motociclista, a decisão instantânea de dar o troco ali mesmo, numa rua movimentada, à luz do dia. Qualquer um, quando tira o carro da garagem, pode ser vítima ou agressor. Diante da quase absoluta subnotificação desse tipo de violência, que na maioria das vezes é reduzido a acidentes de trânsito quando chega às delegacias, o Correio fez um levantamento de 32 casos de brigas no trânsito que terminaram em morte, espancamento ou quase assassinatos nos quatro cantos do país. Em todas as situações analisadas pela reportagem, as desavenças nasceram de acidentes simples: um esbarrão, a invasão de um espaço para pedestres, uma fechada brusca. A resposta, quase sempre, veio à bala: revólveres de calibre 38 são as armas mais utilizadas por motoristas que se envolveram em brigas no trânsito e que decidiram matar quem estava no outro volante. Em seguida, é o próprio carro que se transforma em instrumento de agressão, usado para atropelar intencionalmente. As lutas corporais também são frequentes nos episódios levantados pelo Correio. Dos 32 agressores, 31 são homens, com idades entre 20 e 50 anos. Há apenas duas vítimas mulheres. A grande maioria das brutalidades no trânsito aconteceu entre as 7h e as 20h, período de muito movimento e em vias com grande fluxo de carros e pedestres. A consulta aos processos na Justiça dos casos de brigas de trânsito resolvidas à bala revela uma outra característica em comum: a impunidade. A principal estratégia de defesa dos acusados é tentar reduzir o crime de homicídio doloso - quando há intenção de matar - para homicídio culposo, sem intenção. É esse o crime investigado nos casos de imprudência no trânsito que resulta em mortes. Quando o fato vai claramente além da negligência, a tática mais fácil é tentar reduzir o peso das acusações. Se há condenações, repetidos recursos e contestações na Justiça atrasam o cumprimento das sentenças. O passar do tempo leva a um abrandamento das penas, que se reduzem à prisão em regime aberto ou semiaberto. É o caso de um processo na Justiça de Goiás de 1991. Depois de uma briga no trânsito, em junho daquele ano, Venerando Vieira assassinou com três tiros um motociclista que havia esbarrado em seu carro. Em 2000, a Justiça decidiu mandá-lo a júri popular, realizado sete anos depois. Condenado a quase seis anos de prisão em regime semiaberto, Venerando não foi localizado para o cumprimento da pena. O problema da impunidade começa na subnotificação dos casos. Mesmo assim, é elevado o número de registros de lesões corporais levantados pela Polícia Civil do Distrito Federal, a pedido da reportagem. Em 2008 e 2009, foram 164 ocorrências - média de uma briga grave no trânsito a cada quatro dias. Por causa da subnotificação, só aparecem um homicídio e cinco tentativas nos boletins da polícia. Em série de três reportagens, o Correio conta, a partir de hoje, histórias de vítimas e agressores em diferentes cidades brasileiras. Violência gratuita Embalado por um dos tantos discos de música sertaneja que coleciona dentro do carro, Geanderson Araújo voltava para casa, por volta de 1h da madrugada, pela Estrutural, que liga o Plano Piloto a Taguatinga, quando um carro bateu na lateral direita de seu Corsa. Assustado, o brasiliense de 32 anos deu luz alta. O veículo parou no acostamento, pouco iluminado e absolutamente deserto naquele horário. Geanderson desceu do carro na tentativa de verificar os danos e resolver eventuais despesas com o motorista do Peugeot. Nem chegou a dizer nada. Levou logo um soco no olho. Depois do primeiro golpe, dois homens saíram do carro para agredi-lo. Quando Geanderson conseguiu agarrar o primeiro algoz pelo pescoço e derrubá-lo no chão, o homem arrancou, com os dentes, metade da orelha do rapaz. Geanderson seguiu os agressores até Ceilândia, mas sucumbiu à dor e foi para casa. "Chegou uma hora em que eu não sabia mais onde estava. Levei muita pancada na cabeça", lembra o rapaz, ainda abalado pela violência ocorrida há menos de um mês. O curativo na orelha esquerda não o deixa esquecer o dia em que foi espancado por um desconhecido. A memória captou o rosto do primeiro a golpeá-lo, o motorista do Peugeot. "Era forte, pouco mais alto que eu, barbudo." Casado e pai de um garoto três anos, Geanderson evita retirar o curativo. "Meu filho fica muito assustado quando olha para minha orelha. Na verdade, eu também fico." Motorista em uma empresa, Geanderson quer fazer a cirurgia de reconstituição da orelha, marcada na rede pública para o próximo mês. Também cobra da polícia a identificação do homem que o mutilou. Desde a agressão, ele dirige com receio. "Às vezes, quando vejo alguém parecido com o cara, me dá medo. Foi muito desespero." "Vou mostrar como isso vai ficar" Por causa de "um minuto de bobeira", o advogado Helmo Jácomo Alexandre Segundo foi surpreendido na porta de casa com cinco disparos de arma de fogo. "Ele descarregou a arma", conta o advogado, que poucos minutos atrás havia esbarrado o carro que dirigia no veículo guiado pelo caminhoneiro José Aparecido de Melo. O esbarrão deixou estragados os retrovisores dos dois carros. Os ânimos se exaltaram, não houve acordo e Helmo decidiu ir para casa, bem próxima do local do incidente. Foi seguido por José Aparecido, que atirou cinco vezes contra Helmo e só não o acertou por "erro de pontaria", como consta na denúncia do Ministério Público (MP) de Goiás. A tentativa de assassinato aconteceu num setor de chácaras de Goiânia, em novembro de 2003. Era início de noite, e cada um dirigia um veículo Gol. Após o esbarrão, Helmo e José Aparecido desceram do carro. "Vou mostrar como isso vai ficar", ameaçou o caminhoneiro. Helmo chegou à sua casa, abriu o portão e logo escutou o barulho de um carro. Segundo o MP, os disparos efetuados por José Aparecido atingiram o portão da casa e o carro de Helmo. Um projétil, de raspão, feriu o abdome do advogado. O caminhoneiro fugiu do local, mas Helmo anotou o número da placa do carro. A Justiça marcou para este ano o júri popular do crime de tentativa de homicídio supostamente cometido por José Aparecido.

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