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Estado de Minas

O reinventor do carnaval

Joãosinho Trinta queria ser bailarino, mas foi na avenida que ele se transformou num ícone da cultura popular brasileira


postado em 18/12/2011 08:56

Com Ratos e urubus, larguem a minha fantasia, em 1989, a Beija-Flor sacudiu o Sambódromo(foto: Ricardo Leoni/O Globo)
Com Ratos e urubus, larguem a minha fantasia, em 1989, a Beija-Flor sacudiu o Sambódromo (foto: Ricardo Leoni/O Globo)


Com o terno branco que usava para cortar a passarela da Marquês de Sapucaí, o carnavalesco Joãosinho Trinta será velado hoje no Teatro Arthur Azevedo, em São Luís. O artista que revolucionou a concepção do carnaval morreu na manhã de sábado, na UTI do Hospital UDI na capital do Maranhão, vítima de pneumonia e infecção urinária. Ele tinha 78 anos. Joãosinho Trinta deixou São Luís rumo ao Rio de Janeiro em 1951 com o sonho de ser bailarino. No lugar dos louros do palco do Theatro Municipal, encontrou nos barracões das comunidades o reconhecimento de seu talento e foi aclamado como um dos maiores artistas do país. Foi na Beija-Flor de Nilópolis, na Baixada Fluminense, que desfilou toda sua genialidade, dando cinco títulos à escola.

A saúde do carnavalesco sofreu um baque quando teve o primeiro acidente vascular cerebral (AVC) em 1996. Após buscar tratamento em Brasília, adotou a capital do país de 2006 a 2010. Atualmente, Joãsinho Trinta vivia em São Luís, onde atuava no projeto de comemoração dos 400 anos da capital maranhense, em 2012. A presidente Dilma Rousseff divulgou nota de pesar pelo falecimento do mestre da avenida. “O carnaval do Brasil fica mais triste sem a alegria e o talento de Joãosinho Trinta. É uma grande perda. Joãosinho Trinta fez do carnaval brasileiro uma das mais belas festas do mundo”, destaca a nota. No Rio, o governo do estado decretou luto de três dias pela morte do artista. Ele será sepultado às 10h da segunda-feira, em São Luís.

O carnaval nunca mais foi o mesmo depois de Joãosinho Trinta. Ele surgiu, nos anos 1970, como uma notícia boa num ano ruim para os sambistas. O desfile das escolas de samba havia mudado da Avenida Presidente Vargas para a Presidente Antônio Carlos, na Esplanada do Castelo, no centro do Rio. Castor de Andrade iniciava na Mocidade Independente o reinado dos banqueiros do jogo de bicho. Na Portela, um ato autoritário da diretoria, que nomeou os compositores Evaldo Gouveia e Jair Amorim para fazer o samba-enredo daquele ano, afastou a maioria dos grandes compositores da escola, dentre eles, Candeia e Paulinho da Viola, que fundaram a Quilombo. Quando o carnaval parecia perdido, eis que surge Joãosinho Trinta. Não, não foi na Beija-Flor de Nilópolis — a escola que veio a ser sua grande invenção —, foi na Acadêmicos do Salgueiro, da Tijuca.

Joãosinho Trinta venceu o desfile das escolas de samba de 1974 com o enredo Rei da França na Ilha da Assombração. Foi um desfile espetacular, com alegorias imensas, adaptadas à posição do público, espremido em altas arquibancadas. “Joãosinho levou o carnaval para o alto, produzindo um espetáculo mais impressionante do que aquele proporcionado pelas escolas rivais”, conta o jornalista e historiador Sérgio Cabral, no livro Escolas de samba do Rio de Janeiro (Companhia Editora Nacional).

Com um bom samba enredo e Laíla, o diretor de harmonia, no comando do desfile da Salgueiro, Joãosinho substituia o consagrado coreógrafo Fernando Pamplona e estreava como carnavalesco-solo com o pé direito na avenida. Os sambistas da escola, conta Cabral, comemoraram a vitória ironizando a campeoníssima Portela, onde o banqueiro de bicho Carlinhos Maracanã começava a dar cartas: “Lá vem Portela/ Com Piximguinha e seu Natal/ Para aprender com o rei da França/ Como se ganha o carnaval”. Não foi um caso. No ano seguinte, ainda na Avenida Presidente Antônio Carlos, Joãosinho Trinta faturou o bicampeonato para escola tijucana com o enredo O segredo das minas do rei Salomão.

Porém, o reinado era mesmo dos banqueiros do bicho. Para fazer um carnaval à altura do poder que ostentava na Baixada Fluminense, depois de uma sucessão de desfiles cuja marca registrada era a exaltação do regime militar, o banqueiro Anísio Abraão resolveu transformar a pequena Beija Flor, a escola de samba de Nilópolis, numa potência carnavalesca. Contratou Joãosinho Trinta a peso de ouro — segundo Sérgio Cabral, as cifras jamais foram divulgadas — com carta branca para criar e organizar o carnaval da escola.

Revolução
Não deu outra: o carnavalesco recém-contratado ganhou o desfile de escolas de samba com um enredo que era puro marketing para o jogo do bicho: Sonhar com rei dá leão. Foi uma explosão de luxo na avenida, que simplesmente fez o povo esquecer os desfiles anteriores do Salgueiro. Joãosinho fez uma revolução nas escolas de samba, profissionalizando a produção dos desfiles e seus principais protagonistas. Mudou até mesmo a estrutura dos sambas-enredos, reduzindo letras, fundindo melodias, escalando compositores e passistas. Sem ele, Neguinho da Beija Flor não seria o puxador de samba da escola, pela qual ganhou cinco títulos e vários vice-campeonatos.

Mas sua consagração definitiva veio depois da construção do Sambódromo, com desfiles cada vez mais polêmicos. “O povo gosta de luxo; quem gosta de miséria é intelectual...”, dizia, ao rebater os críticos. Quando quase todos achavam que sua criatividade havia virado uma fórmula feita, desconstruiu a sua mais famosa frase: Ratos e urubus, larguem a minha fantasia, o enredo de 1989, foi um desfile de personagens de rua, incluindo mendigos, alcoólatras, pivetes, loucos e desocupados, que denunciou as desigualdades e a indigência num país à beira do colapso por causa da hiperinflação. Gerou grande controvérsia com a Igreja Católica, mas foi seu desfile mais antológico, no qual o Cristo Redendor desfilou encoberto por um plástico preto com a faixa “Mesmo proibido, rogai por nós”. João Clemente Jorge Trinta tem sinônimo: carnaval.

Ele foi do lixo ao luxo. Revolucionou o carnaval carioca, transformando-o no maior espetáculo da Terra”

Geomar Leite, o Pará, presidente da União das Escolas de Samba e Blocos de Enredo do DF

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