postado em 12/12/2013 17:17
Rio de Janeiro- Lama, esgoto escorrendo por vielas, mau cheiro e água para uso doméstico armazenada em tonéis destampados nos quintais de casas. Esse foi o cenário encontrado nesta quinta-feira (12/12) pela relatora das Nações Unidas (ONU) para o Direito à Água e ao Saneamento, Catarina de Albuquerque, que fez uma visita ao Morro do Alemão, na zona norte do Rio.Usando sandálias havaianas durante manhã chuvosa no Rio, a especialista verificou as condições de vida na comunidade e conversou com os moradores. Ela cruzou vielas enlameadas, rios de esgoto e viu a dificuldade das famílias que não têm água encanada sequer para atender às necessidades básicas.
;Vivenciei a realidade de pessoas [de chinelos]. Elas não vivem aqui de botas. É muito escorregadia, molhado, estive sempre de mãos dadas com alguém, para não cair. Portanto, se tivesse filhos pequenos que tivesse que carregar, ou trazer latas de água, não conseguiria;, afirmou.
Uma das moradias mais precárias visitadas por Catarina foi a casa de Avanise Ferreira de Mello. Morando com cinco filhos pequenos, a dona de casa armazena em toneis tanto a água da chuva quanto a que carrega, com latas na cabeça, da estação do teleférico para casa. Perguntada pela relatora, ela confessou que, por várias vezes, as crianças ficaram doentes.
;Sim, os meninos têm dor de barriga, às vezes tenho que ir ao postinho [posto de saúde], eles têm problema de pele, vivem sempre com verme;, contou a moradora. Ela também revelou que, durante o trajeto entre o teleférico e a própria casa, uma viela precária, no meio da mata, carregando as latas de água durante uma hora, já chegou a torcer o pé.
Segundo a organização não governamental (ONG) Verdejar Socioambiental, que atua no morro, a situação da falta de saneamento e água se agravou com a desapropriação de casas para obras de urbanização. ;As pessoas não são atendidas pelos serviços públicos porque serão removidas. Os moradores, no entanto, não aceitam a remoção e permanecem em situação precária;, disse o biólogo Rafael Cruz.
A ONG Verdejar também denunciou que a prefeitura não tem abastecido as comunidades com água potável e disse que as canalizações do esgoto, feitas pelos próprios moradores, foram destruídas durante as obras de urbanização e não foram consertadas ainda. Com isso, o esgoto escorre para os rios, o que causa a poluição do canal que deságua na Baía de Guanabara.
A relatora da ONU chegou ao Brasil na última segunda-feira (9/12) e permanecerá até a próxima quinta-feira (19/12). Ao final da passagem pelo país, que incluirá ainda visitas ao Pará e a São Paulo, ela apresentará conclusões preliminares da vistoria. O objetivo da viagem é recolher informações para um relatório final. O documento contará com recomendações para todos os níveis de governo.
;O marco jurídico dos direitos humanos nos obriga a garantir, antes, o mínimo para todas as pessoas, só depois para a indústria e o turismo;, declarou a relatora, antes de criticar a crença na chamada Teoria do Gotejamento: ;A ideia de que ajudamos as pessoas que estão melhor e, por milagre, os benefícios vão descer para os desfavorecidos, é mentira. Se não houver políticas para os mais desfavorecidos, não há milagre".
Procuradas pela reportagem, a Secretaria Municipal de Habitação e a Secretaria Estadual de Obras não responderam sobre quais as medidas que estão sendo tomadas para atender à população local.