Brasil

"Temos que aprender com o início do HIV", diz especialista sobre o ebola

Jussara Maria Silveira, doutora em Infectologia do Hospital Universitário de Rio Grande, no Rio Grande do Sul, diz que o Brasil acertou ao lidar com o homem suspeito de ter contraído o vírus

postado em 11/10/2014 07:50

Temos um surto de ebola no mundo?
O ebola já teve surtos endêmicos em 1995, 2000 e 2007 em alguns países da África. Endemia é quando uma doença contagiosa está restrita a uma área e a infeção é mantida nessa população. No caso do ebola, os três surtos anteriores foram pequenos e restritos à África. Infelizmente, não houve mais pesquisas para a contenção da contaminação, apesar de a Organização Mundial de Saúde ter emitido um alerta sobre o caso (que foi subestimado pelas nações). Essa negligência culminou em um surto maior agora em 2014, com características de epidemia, isto é, quando a doença se alastra para outras regiões do planeta. Temos que ficar atentos à doença, dada a facilidade de locomoção das pessoas nos dias de hoje. Esse tipo de epidemia é reflexo da globalização e é praticamente impossível que não se tenha nenhum caso de ebola no Brasil. É preciso atenção, mas sem pânico nem discriminação de populações, classes sociais ou etnias.

As pessoas podem viajar sem preocupação?
Nesse momento, é melhor evitar viagens para os lugares que estão em surto da doença, como a Libéria, Nova Guiné e Serra Leoa. Não é hora de fazer turismo para esses países, mas nada impede as pessoas de seguirem para a Europa ou outras viagens de turismo. Mais uma vez, não é necessário o pânico.

O governo brasileiro agiu corretamente no manejo do paciente de Cascavel?
Sim. É importante lembrar que temos um caso de suspeita de ebola no Brasil. As medidas tomadas pelo governo no caso do paciente de Cascavel são preventivas e seguem o Protocolo Brasileiro e o Protocolo Internacional da OMS para a doença. É preciso prestar atenção aos casos, mas não gerar pânico nem alimentar a discriminação contra negros e africanos. Temos que aprender com os erros cometidos no início da epidemia do HIV que discriminou e criou grupos de risco e, no fim, todos estão vulneráveis a ele. É importante, também, ressaltar as diferenças entre o ebola e o HIV. O HIV se transmite no período de incubação, porém o vírus ebola só pode ser transmitido após os sintomas da doença. No período de incubação, que pode ser de 2 a 21 dias, não há dissipação do vírus.

Como é feito o tratamento da infecção por ebola?
Ainda não existe um tratamento específico. É feito o que chamamos de tratamento de suporte, isto é, de contenção dos sintomas, como as dores, a febre e as diarreias.

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação