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Estado de Minas

Pesquisadores e ONGs avaliam área devastada ao longo do Rio Doce

Equipes percorrem a área desde o rompimento da barragem da Samarco, há 46 dias, e produzem estudos e relatos sobre o novo cenário


postado em 22/12/2015 09:48 / atualizado em 22/12/2015 10:16

Enquanto na cidade de Sem Peixe, na Zona da Mata, produtores rurais, como Valcerci Ventura, lamentam a 'morte' do Rio Doce, pesquisadores analisam a água do manancial (foto: Beto Novaes/EM/D.A.Press)
Enquanto na cidade de Sem Peixe, na Zona da Mata, produtores rurais, como Valcerci Ventura, lamentam a 'morte' do Rio Doce, pesquisadores analisam a água do manancial (foto: Beto Novaes/EM/D.A.Press)

Mariana, Minas Gerais - O primeiro passo para a recuperação das áreas afetadas pelo rompimento da Barragem do Fundão, há 46 dias, é entender a dimensão da tragédia. Desde o mês passado, grupos ambientais, ONGs e pesquisadores independentes se debruçaram sobre a área devastada para avaliar os danos, produzindo estudos e relatos de viagem deste novo cenário. Trabalho semelhante ao feito pelo naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire, que percorreu Rio Doce e Espírito Santo em meados do século 18 e inspirou esta série de reportagem publicada ontem e hoje pelo Estado de Minas.

 

“Precisamos entender esta degradação, o impacto, quais as consequências para biodiversidade. Para ver o tamanho e, a partir daí, traçar planos de recuperação, restauração, priorizando as mais urgentes. Não é só o aspecto ambiental”, afirmou Márcia Hirota, diretora-executiva do SOS Mata Atlântica, que, na semana passada, divulgou relatório mostrando que a lama da Samarco impactou uma área de 1.775 hectares, sendo 324 hectares de mata atlântica.

 

Uma equipe da Rede das Águas da Fundação SOS Mata Atlântica, em parceria com outras organizações e também parceiros locais, está em expedição pelo Rio Doce para coletar sedimentos para análises e monitorar a qualidade da água impactada pela lama e rejeitos de minérios que serão divulgados em breve. Segundo a fundação, o rompimento da barragem afetou um total de 679 quilômetros de rios, sendo 564 quilômetros do Doce, desde o seu início, em Santa Cruz do Escalvado, até a sua foz, em Linhares, no Espírito Santo. “A restauração ambiental vai muito além da área impactada. A restauração tem considerar todo Rio Doce, que já tinha baixos índices de vegetação. Ele já estava comprometido. Tudo isso precisa ser recuperado. Esse é o esforço.”

 

No fim do mês passado, 10 profissionais de geologia, biologia, geógrafos, engenheiros ambientais e das ciências humanas do Projeto Manuelzão, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), fizeram uma expedição pela área mais atingida pelo rompimento, entre Barra Longa e Rio Doce. “A tragédia não se resumiu ao ponto do rompimento. Ela teve uma abrangência grande. Estamos ainda tentando entender, por isso, a necessidade de vários atores é muito grande. Não é um problema que se resolve com um conhecimento apenas, ela requer interdisciplinaridade”, afirmou o coordenador do projeto, Marcus Vinícius Polignano.

 

Pesquisadores analisam a água do Rio Doce(foto: Cauê Taborda/SOS Mata Atlântica)
Pesquisadores analisam a água do Rio Doce (foto: Cauê Taborda/SOS Mata Atlântica)

 

O Manuelzão está em fase final da produção dos relatórios. “Nunca vi, numa dimensão dessa, uma destruição de tão alto impacto. Barra Longa ficou parecendo uma imagem lunar, aquele solo estéreo, com quase dois metros de sedimento depositado. A sensação de vazio, de extermínio. Dá uma tristeza com a nossa política, de uma forma geral, que prioriza o econômico em que o ambiente passa a ser um detalhe.”

 

Independente
A tragédia também sensibilizou e mobilizou pesquisadores do Brasil inteiro que se organizaram de forma independente. É o caso do Giaia, que se apresenta como um grupo de “cientistas reunidos para fazer análise independente dos impactos ambientais do desastre em Mariana”. A mobilização começou de um post em rede social do professor Dante Pavan, doutor em biologia pela USP. “Vi que poderia ser feito um estudo de impacto ambiental com pessoas que tivessem interesse em pesquisar. Abrimos um financiamento coletivo pela internet e, com o crescimento do interesse, nos organizamos em grupos de trabalho”, afirma Pavan, que desde a tragédia se mudou para Colatina, no Espírito Santo.


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Na semana passada, o Giaia apresentou o primeiro relatório de qualidade da água, que mostrou presença de metais pesados, incluindo na água tratada de Governador Valadares – dados conflitantes com os publicados pelo Serviço Geológico do Brasil (CPRM), que mostravam que os níveis estavam dentro dos limites aceitáveis. Desde novembro, o Giaia arrecadou pouco mais de R$ 80 mil por meio de campanha na internet e o próximo passo é formalizar o grupo – ainda não está decidido se será uma Organização não-governamental (ONG) ou Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip). “Algumas pessoas se organizaram com plano de trabalho e apresentaram orçamentos. Agora a gente vai buscar financiamentos a longo prazo para continuar nosso trabalho”, disse Pavan.

 

Enquanto isso

A Vale informou ontem, por meio de nota, que a liminar da Justiça Federal de Minas, que determina a indisponibilidade das licenças de concessões para exploração de lavra registradas pela empresa, não limita suas atividades de produção e comercialização. A decisão judicial, que se estende à BHP Billiton, foi concedida na sexta-feira pelo juiz substituto da 12ª Vara da Justiça Federal, Marcelo Aguiar Machado. A companhia acrescentou que ainda não foi notificada, mas que vai recorrer da decisão. Na liminar, o juiz também bloqueia os bens da Vale e BHP Billiton, que controlam a Samarco. Já o Ministério Público está investigando a diferença entre o que era previsto no plano de emergência da Samarco e o que realmente ocorreu com o rompimento da barragem, o que revelaria uma insuficiência ou omissão de estudos envolvidos no processo de licenciamento, já que o documento previva lama só até Bento Rodrigues, embora a onda de rejeitos da mineradora tenha chegado até o Oceano Atlântico.

Degradação já anunciada
Antes mesmo de a lama da Barragem do Fundão, da mineradora Samarco, agravar ainda mais o já crítico estado do Rio Doce, o Estado de Minas denunciava a degradação do manancial. A série “Amarga agonia”, publicada no EM nos dias 12 e 13 de julho e finalista do Prêmio Esso 2015 na categoria Regional Centro-Oeste, mostrou a situação extrema da bacia, desde a nascente até a foz do manancial, ao longo de 850 quilômetros de extensão. As reportagens de Mateus Parreiras, Guilherme Paranaiba, Alexandre Guzanshe e Leandro Couri mostraram que o desmatamento e o despejo de esgoto na calha do rio e de seus afluentes, aliados à falta de chuvas dos últimos anos, culminaram na interrupção do leito em sua chegada tradicional ao Oceano Atlântico, no distrito de Regência Augusta, em Linhares, no Espírito Santo.

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