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Correio Braziliense

Oftalmologista Claudio Lottenberg critica a falta de políticas para a saúde

O presidente da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein aposta na quebra de paradigmas


postado em 08/05/2016 08:00

"No almoço oferecido ao presidente israelense Shimon Peres, que visitava o Brasil, fui retirado da lista de convidados. Eu era presidente da Comunidade Judaica do Brasil" (foto: Carlos Moura/CB/D.A Press - 1/3/16)


Conhecimento, trabalho em equipe, pé no presente e olhar no futuro é o tripé em que Claudio Lottenberg joga as fichas. O presidente da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein aposta na quebra de paradigmas. Balançou a comunidade médica ao tornar o paciente o centro do processo e adotar o modelo de saúde multiprofissional. Contrariou a tese de que o pobre se contenta com a sobra dos ricos. Abriu o Einstein para o SUS e oferece o mesmo padrão de qualidade para os dois hospitais públicos que a rede atende.

Defende a educação de qualidade para melhorar nossa representação política: ao eleitor faltam os instrumentos que o habilitem a fazer escolhas mais criteriosas. Adepto do trabalho e da ética, critica os políticos que se apropriam dos programas sociais. “O cidadão recebe o que tem direito. Vangloriar-se do aumento de 9% no valor da bolsa-família é se apoderar do alheio.” Atento ao cenário político, acredita que Temer tem qualidades que o habilitam a fazer um bom governo “se os políticos deixarem”.

O oftalmologista de 55 anos, otimista por natureza e advogado da liberdade de escolha, acredita em Deus, nos homens e na compaixão. Filho de comerciante da 25 de Março e dona de casa, está no segundo casamento, tem 5 filhos (dois dos quais gêmeos de 8 anos), acredita na ciência e nos valores éticos e morais. Acorda cedo, anda, faz pilates e cuida da alimentação. Leve e fluente, de terno sem gravata, falou ao Correio nas dependências do Eistein.


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Qual sua expectativa para o governo Temer? Quais conselhos o senhor daria ao presidente Temer sobre como melhorar a saúde no Brasil?
O primeiro: tratar a saúde com mais políticas de saúde e menos política na saúde. Saúde é assunto desafiante, com significado singular. Se for dado ao setor oportunidade de trabalhar de forma estruturante e não meramente compensatória, com a garantia de medidas perenes, o Brasil pode ganhar muito tanto na assistência quanto na empregabilidade. Cinco milhões de pessoas trabalham na área. O segundo: independentemente de quem venha a ocupar a pasta, é importante ouvir quem entende do assunto.

A saúde no Brasil pode dar certo?
Um plano de gestão com seis pontos é capaz de mudar o quadro desolador:
1. Fortalecer a medicina primária. Pôr em cena a tecnologia de comunicação, com recursos da telemedicina, que pode ligar pontos distantes e controlar o básico, como vacinação e medidas sanitárias.
2. Habilitar equipes multiprofissionais. Implica desmistificar a necessidade médica. Médico faz parte de uma equipe, de um time. O ato médico precisa ser revisto. Com isso, os médicos cubanos, que são enfermeiros treinados, deixarão de ser necessários.
3. Fazer um plano diretor de TI e um plano diretor de aparelhamento. Significa dotar a infraestrutura de informação e conhecimento. É importante saber as carências em vez de abrir hospitais em todos os cantos.
4. Institucionalizar o Ministério da Saúde. Médico precisa ser carreira de Estado. Com isso, teremos médicos nos lugares mais distantes. Sem isso, muita política e pouca técnica.
5. Alocar mais recursos para o setor. Implica planejamento pormenorizado para que verbas não escorram pelo ralo.
6. Ver a saúde como grande cadeia produtiva. A capacidade de geração de empregos e transferência de tecnologia é enorme.

O orçamento da saúde é suficiente? A CPMF é necessária?
O Orçamento destina 9,5% do PIB à saúde. Mas os recursos são insuficientes. A área privada, que atende 25% da população, fica com 50% do montante. A verba destinada ao SUS não cobre as necessidades. Mas aportar valores do porte dos da CPMF sem projeto estruturante será grande desperdício.

Qual sua expectativa para o governo Temer?
A perspectiva de um governo mais técnico tem sido frustrante. Antes de qualquer iniciativa, discute-se o segundo e o terceiro escalão. Cadê o preparo? Cadê a competência técnica? Invertem-se os valores. Servir à estrutura do governo deveria ser ato contributivo, não aspiracional. O plano individual se sobrepõe ao coletivo. É triste. Veja a votação do impeachment. A maneira como os deputados se manifestaram foi desapontadora. Mesmo pessoas que gostariam de colaborar, como eu, perdem a vontade. Temer tem atributos de estadista. É dos melhores constitucionalistas do país, gosta de escutar, tem interesse real nas questões públicas. O problema é os políticos darem uma trégua à nação. Se continuar a pressão da barganha, nem Deus, Jesus ou Moisés juntos terão o que fazer.

Como o senhor avalia a forma de organização do governo, com distribuição de cargos por apoio?
Convidar pessoas sem permitir que formem equipe é o contrário do mundo que não funciona. O trabalhador isolado não existe. São pessoas que colaboram para que as coisas funcionem. Quem se dispõe a aceitar o cargo sem equipe não tem compromisso com os desafios. Busca apenas a visibilidade. Neste momento tão delicado para o país, os políticos deveriam dar um tempo, esquecer os interesses pessoais e dar espaço para novas lições, novas tarefas. Novo governo é isso.

O Congresso está sintonizado com a contemporaneidade? E a Justiça?
Parlamentares desempenham papel decisório porque elaboram projetos, debatem, votam. Mas têm conhecimento raso do assunto. Respondem por estragos irreversíveis. Saúde envolve temas peculiares. Denunciar a falta de remédio é importante. Mas é importante também conhecer a cadeia produtiva que origina o remédio. A falta de preparo não é exclusiva da classe política. É geral. Lembremos a judicialização da saúde. Uma decisão obriga a entrega de medicamento com evidência científica não comprovada. Se não cumprir a ordem, o secretário vai preso. Deixa, então, de fazer a vacinação de um grupo de 14, 15, 30 mil escolares. Estudantes pegam gripe. Um morre. O doente também morre. Resultado: deixa-se de salvar quem poderia ser salvo. Impõe-se preparo de quem participa da estrutura do Estado.

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