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Correio Braziliense

No DF, mulheres negras têm quase 5 vezes mais chance de serem assassinadas

Números são de um levantamento feito pela Organização das Nações Unidas em parceria com a Secretaria Nacional de Juventude, da Presidência


postado em 11/12/2017 00:01

(foto: AFP)
(foto: AFP)
 
Mulheres negras têm mais chances de serem assassinadas que as brancas da mesma idade em praticamente todos os estados brasileiros, de acordocom o levantamento da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) em parceria com a Secretaria Nacional de Juventude (SNJ) da Presidência da República. Foram analisados apenas os municípios com mais de 100 mil habitantes e, pela primeira vez, o IVJ analisou informações de gênero. Os resultados do estudo serão apresentados nesta segunda-feira (11/12), com a divulgação do Índice de Vulnerabilidade Juvenil à Violência 2017 (IVJ).
 

A faixa etária abordada — jovens de 15 a 29 anos — representa um quarto da população brasileira, e é justamente onde estão as maiores vítimas de homicídios. Segundo o estudo, as mortes têm geografia e endereço certo, pois fala dos jovens, sobretudo negros, que moram em áreas pobres e estão mais expostos à violência. "Eles não estão em vulnerabilidade apenas por causa da cor da pele. Tem a ver com escolaridade, com morar na periferia... Tem uma questão geográfica muito séria aí”, afirma a representante da Unesco no Brasil, Marlova Noleto.

Um ponto inédito da pesquisa é que informações levam em consideração o gênero dos entrevistados, o que possibilitou aos pesquisadores descobrir, por exemplo, que os jovens negros do sexo masculino têm mais chance de morrer assassinados, mas que a diferença é pequena quando há comparação com as mulheres. "É importante ter esses dados que trabalhem a questão da violência em gênero e raça. A ideia é contribuir para criar e aperfeiçoar políticas públicas nos três níveis: municipal, estadual e federal. Assim, faremos um esforço concertado, todos juntos, para propor soluções”, ressalta Noleto.

A pesquisa, cujo ano-base é 2015, analisou municípios com mais de 100 mil habitantes e constatou que 21 estão em situação de maior vulnerabilidade. A disparidade de homicídios por raça é maior no Rio Grande do Norte, onde uma mulher negra tem 8,11 possibilidades a mais de ser assassinada que uma pessoa branca e do sexo feminino. Segundo a socióloga Tânia Mara, que trabalha analisando casos de violência, a pesquisa é louvável. "A ideia é ótima, mesmo que as informações sejam preliminares, porque estimula o refino dos instrumentos de combate à discriminação", cita.

Cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco, é o município que apresenta os maiores índices de homicídio de jovens negros, seguido de Altamira e São José do Ribamar, ambos no estado do Maranhão. Em contrapartida, São Caetano do Sul, em São Paulo, apresenta os melhores indicadores — inclusive de empregabilidade e evasão escolar, questões diretamente ligadas à violência. Em Alagoas e em Roraima, não há dados disponíveis.

A Organização das Nações Unidas no Brasil (ONU-BR) reuniu seus 26 organismos na campanha Vidas Negras. Segundo a organização, a ideia é "sensibilizar a sociedade brasileira sobre a importância da prevenção e do enfrentamento à discriminação racial". A campanha ocorre no âmbito da Década Internacional de Afrodescendentes (2015-2024), proclamada pela resolução 68/237, em Assembleia Geral da ONU.

DF entre os piores

No Distrito Federal, a mulher negra tem praticamente cinco vezes mais chance de ser assassinada, se comparada a uma mulher branca. As chances são 4,72 vezes maiores, segundo a pesquisa. A militante Renata Lima, que faz parte de grupos relacionados ao tema, diz que existe uma diferença muito grande entre a vida que leva na faculdade onde estuda, a Universidade de Brasília (UnB), e o local onde mora atualmente, Taguatinga. "Perto de casa, temos índices altos de violência. Como em toda área pobre, existem muitos negros. Políticas públicas tentam amenizar a situação, tem muita coisa voltada para as mulheres. Mas ainda falta muito”, explica.

A vida não é mais branda para a farmacêutica Luana Carvalho. Para ela, conseguir um emprego e sair da Cidade Estrutural, onde morava, foi mais que um investimento: é uma mudança de vida. Com os R$ 5 mil que recebe atualmente – rendas somadas dos dois empregos que mantém – alugou um apartamento no Plano Piloto, na intenção defugir da violência. "Não adianta você fingir que as coisas nas regiões administrativas são simples. Não é como aqui, onde tem transporte, polícia, iluminação. São mundos opostos. Perdi amigas da escola, todas negras como eu, mortas pelos maridos, pelos credores, até pelos pais. As pessoas acham que qualquer débito pode ser resolvido com uma morte. Isso é herança da escravidão e falta de respeito, como se o preto ainda não fosse gente", observou.

QUADRO

Exceto em Alagoas, todas as outras regiões do Brasil têm maiores índices de mortalidade de mulheres negras que brancas. Abaixo, as cinco estados onde a situação é pior:

Rio Grande do Norte
Taxa de homicídios entre negras — 11,7
Taxa de homicídios entre brancas — 1,4
Risco relativo — 8,11

Amazonas
Taxa de homicídios entre negras — 12,3
Taxa de homicídios entre brancas — 1,8
Risco relativo — 6,97

Paraíba
Taxa de homicídios entre negras — 13
Taxa de homicídios entre brancas — 2,3
Risco relativo — 5,65

Distrito Federal
Taxa de homicídios entre negras — 7,9
Taxa de homicídios entre brancas — 1,7
Risco relativo — 4,72

Ceará
Taxa de homicídios entre negras — 7,2
Taxa de homicídios entre brancas — 1,6
Risco relativo — 4,43

O que é risco relativo?

É a razão entre a taxa de mortalidade por homicídio de jovens negros e jovens brancos. Valores mais próximos a 1 indicam maior proximidade na prevalência da mortalidade entre os dois segmentos. Quanto maior o risco relativo, maior a proporção de jovens negros mortos em relação a jovens brancos.

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