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Correio Braziliense

Brasil tem 11,8 milhões de pessoas analfabetas com mais de 15 anos

Dados do IBGE mostram que o Brasil tem 11,8 milhões de pessoas com mais de 15 anos que não conseguem ler nem escrever um bilhete. O problema é quatro vezes maior no Nordeste do que na Região Sul, por exemplo, o que reforça a desigualdade social


postado em 22/12/2017 06:00 / atualizado em 22/12/2017 07:33

(foto: Arte/CB/DA Press)
(foto: Arte/CB/DA Press)

 

O Brasil tem 11,8 milhões de analfabetos com 15 anos de idade ou mais — o que representa 7,2% das pessoas nesta faixa etária. O percentual, no entanto, aumenta à medida que a idade avança, até atingir 20,4% da população com mais de 60 anos. Os dados são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua (Pnad Contínua) 2016, divulgada, ontem, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A quantidade de analfabetos no país supera a população de Cuba (11,2 milhões) e da Bélgica (11,3 milhões), por exemplo.

“O problema do analfabetismo vem declinando lentamente. A queda é de 1,5% ao ano. A política educacional já não está colocando o analfabetismo como prioridade. Investe em ensino básico, fundamental e médio, mas deixa de lado a alfabetização”, avalia o doutor em educação Célio da Cunha, da Universidade de Brasília (UnB).

A erradicação do analfabetismo é uma das metas do Plano Nacional de Educação (PNE), lei sancionada em 2014. O documento previa uma redução da taxa para 6,5%, em 2015, índice que não foi alcançado, de acordo com a pesquisa. Para Cunha, a erradicação é possível, mas as políticas educacionais precisam priorizá-la. “Não é prioridade, embora conste no PNE como uma das metas. Se não houver mudança, com o declínio que é de 1,5% ao ano, o índice vai reduzir até zerar, mas de uma maneira muito lenta”, comenta.

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Célio da Cunha observa que um dos grandes problemas das políticas em vigor é a falta de continuidade, o que torna o processo ineficaz. “Quando se começa o processo de alfabetização, é preciso que o letramento tenha continuidade, com leitura, acompanhamento, senão, acontece o fenômeno da regressão.”

Estratégias

As desigualdades são marcantes. O Nordeste (14,8%), região mais pobre do Brasil, concentra quase quatro vezes o número de analfabetos do Sul (3,6%), que tem a menor taxa. Em relação à cor, pretos ou pardos representam 9,9%, enquanto os brancos respondem por 4,2% da população.

De acordo com a analista da Coordenação de Trabalho e Rendimento do IBGE, Helena Oliveira Monteiro, a pesquisa mostra a continuidade das diferenças regionais e a desigualdade por cor ou raça. “Historicamente, pessoas brancas têm mais acesso à escola. Isso está associado à renda, que produz maior oportunidade de acesso ao ensino”, disse a pesquisadora.

O diretor da Fundação Santillana, André Lazaro, aponta que os números não mostram uma única realidade e, sim, várias, distintas e complexas. “Para cada grupo, são estratégias diferentes. E é preciso pensar em como estancar a renovação desse conjunto de pessoas. A população mais idosa é majoritariamente rural, se concentra no Nordeste e nas periferias urbanas. É difícil chegar até ela, precisam de uma motivação expressiva. Já o grupo de crianças com até 10 anos de idade tem outras necessidades. Para atender a população jovem, que está entrando no mercado de trabalho, ou outras que querem melhorar as condições, buscam emprego melhor, são abordagens distintas”, analisa.

A pesquisa avaliou também o perfil das pessoas ocupadas, associando o nível de escolaridade à ocupação. No Brasil, 51% da população de 25 anos ou mais tinham até o ensino fundamental completo ou equivalente em 2016; 26,3%, o ensino médio completo, e 15,3%, o superior completo.

Considerando a cor ou raça, as diferenças no nível de instrução são significativas: enquanto 7,3% dos brancos não tinham instrução, 14,7% das pessoas pretas ou pardas estavam nesse grupo. Situação inversa ocorreu no nível superior completo: 22,2% das pessoas brancas tinham esse nível de instrução, ao passo que entre as pretas ou pardas, a proporção era de 8,8%.

“A alfabetização representa uma melhora de vida não só para a pessoa, mas também para seu entorno. Um ano de alfabetização representa uma melhora salarial”, aponta Cunha. Ele alerta ainda para a falta de capacitação dos professores. “As experiências que deram certo atuam no processo de alfabetização aliado ao ensino técnico. Oferecem oportunidades para a pessoa se aperfeiçoar em sua área ou entrar em um campo novo e ter uma ocupação digna.”

No ano passado, o número médio de anos de estudo das pessoas com 25 anos ou mais foi oito. As regiões Nordeste e Norte ficaram abaixo da média nacional, com 6,7 anos e 7,4 anos, respectivamente, enquanto Sul (8,3 anos), Centro-Oeste (8,3 anos) e Sudeste (8,8 anos) situaram-se acima da média.

Estagiária sob a supervisão de Roberto Fonseca

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