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Correio Braziliense

Em 2017, 21 mil pessoas saíram do Brasil para tentar a vida no exterior

Segundo especialistas, o motivo é a falta de perspectiva econômica e política no país. Número cresceu mais de 160% nos últimos seis anos


postado em 01/01/2018 07:00 / atualizado em 31/12/2017 16:37

(foto: Arquivo Pessoal)
(foto: Arquivo Pessoal)
O momento conturbado na política e na economia fez com que mais brasileiros passassem a olhar com interesse a possibilidade de morar e trabalhar no exterior. Segundo a Receita Federal, o número de declarações de saída definitiva do país, que foi de 8.170 em 2011, saltou para 14.612 em 2015 e chegou a 20.493 em 2016. Em 2017, o total chegou a pouco mais de 21,2 mil — um aumento de 160% num espaço de seis anos. Para analistas, a falta de perspectiva econômica e as tensões sociais são os principais fatores que têm levado as pessoas a deixar o Brasil. E os dados da Receita, obtidos a partir das declarações de Imposto de Renda, mostram que esse movimento tem crescido entre os profissionais de maior qualificação.
 

“Um dos motivos para me mudar foi a incerteza em relação ao futuro do Brasil”, diz o analista de sistemas André Erthal, 41 anos, que foi morar em Vancouver, no Canadá, no início de 2017. André tinha uma vida que considerava “muito confortável” em Manaus, onde morava com a mulher e a filha de sete anos. Entretanto, a falta de perspectivas para o futuro, a escalada da violência no país e a oportunidade de oferecer, no exterior, uma educação de qualidade para a filha o convenceram a emigrar.

Antes da mudança, André era diretor executivo do Instituto de Desenvolvimento Tecnológico (INDT), com escritórios em Manaus, Brasília e Recife. Nascido no Rio de Janeiro, ele morava em Manaus desde 2004, quando recebeu o convite para trabalhar na empresa. “O trabalho não foi um fator que motivou a saída do Brasil. Eu estava bem empregado”, explica.

Conseguir emprego no Canadá não foi problema, diz André. Após duas semanas de busca, recebeu uma oferta no fim de maio, quando a permissão para trabalhar ficou pronta. “Existe muita demanda para profissionais especializados, especialmente em tecnologia da informação”, afirma. Hoje, ele trabalha para o Digitalist Group no desenvolvimento de soluções de tecnologia para diversas áreas e mercados.

O professor de economia da Universidade de Brasília Carlos Alberto Ramos explica que os motivos que levam as pessoas a deixar o Brasil são variados, mas o mais significativo é a expectativa das pessoas sobre o país. “Uma pessoa emigra considerando as perspectivas da economia. Se você não espera que o Brasil progrida, vai embora”, diz. Embora considere que o número total de pessoas que deixam o país não é muito expressivo, Ramos observa que os dados da Receita Federal, baseados nas declarações de Imposto de Renda, mostram que a evasão está aumentando entre profissionais com maior qualificação. “Se você está pegando os dados da Receita Federal, as pessoas que você está monitorando são qualificadas”, frisou.

O analista de sistemas Roberto Soares, 35, deixou Brasília por não se sentir seguro. “Não poder sair de casa e viver com medo de ser assaltado ou ter a casa invadida sempre me preocupou muito”, conta. Ele já havia passado pelo Canadá duas vezes antes de se mudar, em maio de 2017, e diz que sempre teve muita simpatia pela cultura canadense. Atualmente, Roberto trabalha com cloud computing (armazenamento de dados na internet) na Azzurra, uma empresa de marketing digital. O processo de mudança foi bem longo e trabalhoso, mas valeu a pena. “Se precisasse, eu faria de novo”, afirma.

Bruno Ottoni, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV), aponta a situação ruim do mercado de trabalho no Brasil como um dos motivos da migração de profissionais. Mesmo com a recuperação lenta e gradual da economia, muita gente que perdeu o emprego formal não está conseguindo encontrar ocupação semelhante. “O mercado formal não está se recuperando muito bem. Muitos empregos nessa área foram eliminados”, observa.

O brasileiro, quando comparado com imigrantes de outros países, sofre menos com desemprego nos Estados Unidos (EUA), segundo a pesquisa mais recente realizada pelo Ministério das Relações Exteriores, em 2014. De acordo com os dados, são mais de um milhão de brasileiros que moram no país norte-americano. Segundo um estudo recentemente publicado pela Forbes, o número de imigrantes procurando emprego nos EUA cresceu de 30% em 2016 para 37% em 2017.

Para o CEO da Morar EUA, Roberto Spighel, mudar-se para os Estados Unidos é atrativo para o brasileiro, uma vez que, em algumas regiões, como na Flórida, o clima e o fuso são semelhantes aos do Brasil. “Independentemente da forma de emprego, a cultura do país, principalmente na Flórida, é parecida com a do Brasil”, explica. Além disso, Spighel explica que os brasileiros encontram muita segurança e uma perspectiva de vida mais estável.

“A grande mudança é a procura de brasileiros para empreender nos EUA”, revela. Segundo ele, muitos brasileiros com um capital médio procuram o país norte-americano para consolidar novas formas de empreendimento. Essas pessoas chegam a ter a renda média anual de US$ 48.707 a US$ 75.632. 
 

Volta às terras lusitanas 


Segundo Alice Autran Garcia, diretora de Comunicação da Athena Advisers, uma corretora de imóveis especializada que atua em vários países, os brasileiros representam a maior parte dos clientes da empresa em Portugal. O governo português concede automaticamente o “Golden Visa” (Autorização de Residência Para Atividade de Investimento) a qualquer pessoa que compre no país um imóvel com valor mínimo de 500 mil euros. Ao final de cinco anos, o visto de residência temporária garante a cidadania europeia. “Quando você faz um investimento de 500 mil euros, você ganha esse visto e depois se torna cidadão”, explica.

Os dados da pesquisa da Athena Advisers mostram um aumento de 222%, entre março de 2016 e outubro de 2017, nos pedidos de brasileiros para obtenção do Golden Visa português. Logo atrás vêm sul-africanos, com 160%, e libaneses, com 116%. Alice explica que os brasileiros que estão indo para Portugal são, na maioria, pessoas financeiramente bem-sucedidas. “Portugal experimenta uma leva de brasileiros com características muito diferentes dos que vieram antes. São pessoas com uma bagagem intelectual maior, normalmente investidores”, afirma. (BSR)

*Estagiário sob a supervisão de Paulo de Tarso Lyra 

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