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Correio Braziliense

Jovens nascidos em 2000 chegam aos 18 anos com dificuldade de se relacionar

Ao invés de conquistar bens materiais, essa geração prefere gastar com experiências e "aproveitar" a vida sem preocupações em economizar para o futuro


postado em 04/02/2018 08:00 / atualizado em 03/02/2018 22:29

Julia, Samara, Henrique e Isabela: prontos pronta para votar, eles exibem dúvidas quanto ao futuro, tranquilidade nas opções sexuais e têm conflito com as gerações anteriores(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
Julia, Samara, Henrique e Isabela: prontos pronta para votar, eles exibem dúvidas quanto ao futuro, tranquilidade nas opções sexuais e têm conflito com as gerações anteriores (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)


Eles são volúveis, individualistas e só conhecem o mundo digital. Esse é o perfil dos 3,42 milhões de jovens no Brasil que alcançam a maioridade neste ano. Ao invés de conquistar bens materiais, essa geração prefere gastar com experiências e “aproveitar” a vida sem preocupações em economizar para o futuro. Como vivenciaram a crise econômica, o que eles mais desejam é um bom salário. Especialistas avaliam, porém, que esses jovens ainda não estão preparados para o mercado de trabalho, e que eles devem se reinventar para ter espaço neste novo mundo. De acordo com as projeções do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), são 1,737 milhão de homens e 1,682 milhão de mulheres.
 

As mudanças de uma geração para a outra são acompanhadas por um cenário diferente na sociedade. Por isso, na opinião da diretora da multinacional Stanton Chase e especialista no assunto, Eline Kullock, apesar de não ser possível ainda afirmar em qual ano começa a chamada ‘geração Z’, os jovens que completam 18 anos têm muitos desafios pela frente. Isso ocorre por causa da modernização das tecnologias. 

“Em determinado momento, essa geração passa a não ter mais experiência com o mundo analógico. Essa será uma grande mudança”, comenta. “Esses jovens pensam que não precisam mais ter carro, nem ter nada. É uma geração que curte. Essa é uma mudança de pensamento e do modelo mental (em comparação a outras gerações)”, afirma Kullock.

Segundo a diretora, esses jovens são mais individualistas. “Todo mundo tem duzentos amigos no Facebook, mas está sozinho. O importante é se exibir, ser inserido em determinado contexto”, analisa.

“A minha geração colecionava. Era importante ter. Para esta geração, é importante aproveitar. Antes a sociedade ensinava a poupar, e agora eles nos bombardeiam dizendo que nós devemos curtir o agora”, avalia.

Eleições à frente

O Brasil tem 1.036.686 de eleitores com 17 anos de idade, de acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), uma diferença de pouco mais de 16 mil na comparação com as últimas eleições presidenciais, em 2014. Entre os jovens com idades entre 18 e 20 anos, a maioria deles — 59,6% — possui título de eleitor e votou na última eleição. No entanto, na prática, a maior parte destes jovens não se envolveu com o pleito, não discutiu com familiares ou amigos os rumos eleitorais do passado e não participaoudo processo eleitoral. As conclusões são da Pesquisa entre jovens de 16 a 20 anos, realizada pelo TSE no ano passado.

Entre os pesquisados na faixa etária de 16 e 17 anos, prevaleceram as desmotivações para o ato de votar. Esse jovem ainda não necessita de mudanças e o voto é considerado como uma ferramenta insignificante, já que não enxergam as mudanças realizadas após as eleições, revela o estudo.

O presidente do Instituto de Pesquisa Locomotiva, Renato Meirelles, acredita que a falta de conhecimento histórico pesa no momento de escolher um candidato. “Muitos vão votar sem saber de onde viemos, não viram o histórico de privações, de fome, do país. Eles têm menos parâmetros. O jeito como enxergam o mundo é diferente, se organizam por bandeiras, como o feminismo, e não por movimento partidário”, analisa o pesquisador.

Para Rui Tavares Maluf, cientista político da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, apesar de a Constituição de 1988 ter introduzido o direito de pessoas com 16 anos se inscreverem para votar, essa adesão ainda é pequena. No entanto, ele é cauteloso na hora de avaliar a consciência política da geração. “Toda afirmação e diagnóstico podem ser levianos porque tudo pode mudar”, enfatiza.

Segundo ele, o nível de informação é maior que antes e isso torna o processo mais difícil de compreender. “O grau de inconformidade ativa, que se traduz em mobilização social, teve uma mudança maior que há 30 anos. Dentro desse grupo sempre vai haver muitas diferenças”, explica Tavares.
 
 
(foto: Thiago Fagundes/CB/D.A Press)
(foto: Thiago Fagundes/CB/D.A Press)
 

Busca pela felicidade no trabalho

A modernização também trouxe mudanças para o mercado de trabalho para aqueles que querem começar uma carreira agora. Para a coach de carreira Ghislaine Sandri, as empresas buscam um profissional que esteja disponível 24h. “Não que isso seja correto, mas tenho visto uma grande expectativa nesse sentido”, comenta. Além disso, de acordo com a coach, os pais ainda influenciam muito na carreira dos jovens e a maioria dos novos profissionais preferem escolher empregos com bons salários. “Eles querem dinheiro, querem independência. Um jovem de 18 anos não é como um jovem há 20 anos. Em termos de trabalho, acredito que eles buscam o prazer e a felicidade na carreira”, avalia.

Porém, é necessário que o jovem se encaixe no ambiente e aceite algumas condições impostas pelo meio. “A gente ouve falar sobre home office, mas não são todas as empresas que podem trabalhar dessa forma. Eu acho que o discurso de dizer que as instituições estão se atualizando, mas na hora do ‘vamos ver’, eu acredito que as empresas ainda tenham uma expectativa de uma pessoa fidelizada, que fique muitos anos em um lugar”, disse.

De acordo com a coach, os jovens ainda não estão acostumados a diversificar as atividades, ou mesmo realizar funções adversas ao que foi combinado previamente. “Eles são de uma geração que os pais investiram. E eles disseram: você vai estudar, não quero que você trabalhe para ter uma carreira sólida no futuro. Sendo que ele não é preparado. Uma boa intenção que acaba prejudicando. E o jovem chega ao mercado de trabalho e se depara com aquele algo a mais que tem que fazer para o qual ele não estudou, e acha humilhante”, afirma.

Renato Meirelles, do Instituto Locomotiva, também rechaça a ideia de que a geração Z seja mais protegida pelos pais e pouco ativa. “As pessoas confundem a realidade do seu círculo com o que acontece no Brasil inteiro. O comportamento das classes A e B é diferente das classes C e D. Os últimos são pessoas que trabalham e estudam, sustentam a família ou contribuem com a renda de casa. Eles já estudaram mais que os seus pais”, explica.

Para ele, uma característica marcante dessa geração é a vontade de empreender, mais do que as anteriores. “Enquanto o país vivia uma bonança econômica, os jovens tendiam a adiar a entrada no mercado de trabalho. Depois da crise, tiveram que equilibrar estudo e trabalho ou largar os estudos. O que se nota é que os melhores profissionais são aqueles que conseguem conciliar as duas coisas”.

Sobre o comportamento no ambiente de trabalho, Meirelles diz que eles não entendem o porquê da hierarquia. “Os nativos digitais têm uma facilidade de trabalhar utilizando a tecnologia, mas demonstram desprezo pela maneira tradicional de se trabalhar e pelos tempos dos mais antigos. Também não têm o mesmo grau de atenção dos mais velhos”, analisa.
 
 

Desafio de filtrar a informação

Muitos jovens, como Verônica Nasr, sentem que as gerações anteriores julgam as próximas sem sequer ouvirem seu lado. “Acho errado acharem que nós somos completamente alienados, que temos tanto acesso a conhecimento e não sabemos filtrar”, comenta. “Mas concordo com isso, porque a maioria é assim. Por um lado, nós temos acesso a muita coisa e não sabemos aproveitar, por outro, todo mundo olha só o que tem interesse”, completa. Para ela, o defeito é justamente terem acesso à informação, mas procurarem o que não traz conhecimento útil.

A professora do Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília (UnB) Jane Farias Chagas Ferreira acredita que a educação deve se reinventar para lidar com os novos estudantes. “Por um lado, temos jovens antenados com questões que acontecem no mundo todo. Por outro, eles não olham o cenário nacional. Há uma certa alienação, apesar de terem crescido no mundo digital”, alerta.

Por conta de serem criados em um mundo extremamente competitivo, muitos jovens tendem ao isolamento e são desprovidos de habilidades sociais e emocionais, de acordo com a professora. “Esses jovens estão perdidos no sentido de darem significado para a vida”, afirma. Além disso, na sua visão, muitos deles não sabem expressar sentimentos ou ler os sentimentos de outra pessoa. “Há uma deficiência nessa área, por conta do isolamento social. Não sabem fazer amizade, conversar, ter uma conversa animada, expressar os próprios sentimentos ou saber o que os outros sentem”, completa.

Há também a necessidade de se aprender determinadas competências, para saberem o que fazer com aquela informação. “A geração 2000 é hiperconectada, com uma atenção difusa, e eles têm mais acesso à educação, mas não sabem filtrar ou interpretar”, conclui Jane Ferreira. “Esse é o ponto em que a academia precisa transpor, ensinar a selecionar e interpretar informações, não simplesmente repassar informação e conhecimento, como antigamente”, complementa a professora.
 
 
(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)

“Trabalhe amando o que faz”

Para Henrique Mendonça, morador da Asa Norte, é possível buscar um ambiente de trabalho em que as pessoas gostem de estar. “As pessoas sempre pensam de forma exagerada quando falamos de capital. O novo capital é um modelo que, ao invés de você explorar o trabalhador, você faz com que ele trabalhe amando o que faz”, explica. Para ele, condições de trabalho saudáveis e ser respeitado não deveriam ser um diferencial mas, no mundo em que vivemos, são.  Ansioso para ter sua carteira de motorista e alcançar aquela liberdade que só os habilitados têm, Mendonça também se mostra um jovem ativo. Criado em uma família católica, ele respeita todas as religiões, mas não se vincula à nenhuma: “Eu ia quando era mais novo, fiz a primeira eucaristia… Mas nunca fui praticante”, comenta.
 

(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)

“Sonho de morar na Espanha”

Samara Santos sonha em morar na Espanha, mais precisamente em Madrid ou Barcelona. Mas isso só após formar-se em biologia ou veterinária. Enquanto muita gente pensa que o desejo da menina de Planaltina é somente uma fantasia de adolescente, Samara se esmera na aprendizagem do Espanhol, no Centro Interescolar de Línguas (Cil). A determinação para ir embora do Brasil é diretamente proporcional à descrença nas instituições nacionais que, segundo a jovem, não investem em infraestrutura, saúde, educação e policiamento nas ruas. “Eu já nem acho o Brasil tão maravilhoso. Sei que em todo o mundo tem corrupção, mas aqui tem 10 vezes mais. Falta tudo. Até cuidar mais do país”, desabafa a jovem. Católica praticante, Samara afirma que virgindade é importante e que deve ser conservada até o casamento. Além disso, as meninas devem se cuidar para não engravidarem de “gente sem futuro”. Por enquanto, a jovem ainda não tem namorado.
 

(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)

“Animado para aprender a dirigir”

Em um mês, Thiago Rabelo completará 18 anos. A nova idade traz a obrigatoriedade de votar, e de fazer o alistamento militar e a possibilidade de tirar a carteira de motorista. Nem o título de eleitor nem o certificado militar empolgam Thiago. O adolescente, que mora na Asa Norte, está mais interessado no documento para dirigir, principalmente porque, a partir de fevereiro, terá que se deslocar diariamente para a Faculdade Católica, em Taguatinga, onde começará o curso de medicina. “Estou muito animado para aprender a dirigir, mas já sei o básico”, conta. A oportunidade de passar a votar, a partir deste ano, também não o empolga  “Sempre achei que o Brasil tem muito potencial, mas falta patriotismo. As pessoas vão para a rua pelos motivos errados. Não querem mudanças, mas fazer bagunça, postar uma foto nas redes sociais ou quebrar as coisas”, lamenta. Se eleição ainda é um tema que causa estranheza a Thiago, o mesmo não se pode dizer com relação à reforma da previdência.  “A reforma é necessária, não adianta reclamar”.
 

(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)

“Somos o futuro do país”

Isabela Gonçalves tem fé no Brasil. E isso não é clichê. A jovem acredita na força do jovem como agente de mudanças. “Não temos voz. Somos o futuro do país, mas não dão valor para a gente”, afirma com determinação e doçura. A receita da moça para melhorar o país inclui menos rivalidade entre os grupos. “Para construir um Brasil melhor, é preciso mais união. O pessoal da esquerda briga muito com o pessoal da direita e todos se estressam muito por causa de política”, explica. A jovem, que completa 18 anos em agosto, reivindica uma maior participação dos jovens nos debates dos problemas nacionais. As eleições, acredita, são importantes para começar o processo de transformação do país e para. “A gente tem que votar, sim. Só assim vamos garantir um futuro melhor para todos”, analisa.  Estudante do 3º ano do Ensino Médio, Isabela quer cursar a faculdade de bioquímica e ser papiloscopista. “Sempre fui mais forte para ajudar a família”, confessa, entusiasmada com a escolha da profissão. Isabela é filha única e não tem muitos conflitos com os pais. A orientação bissexual nunca foi problema. “Prevalece o amor”. 
 

(foto: Bárbara Cabral/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Bárbara Cabral/Esp. CB/D.A Press)

“Aprontei muito, tenho que mudar”

Dois dias depois de completar 18 anos, a maior preocupação de Jeferson Costa, morador de Ceilândia, é não ser preso de novo. No ano passado, ele foi enquadrado por tráfico de drogas. Agora, com a chegada da maioridade, ele espera que as coisas sejam diferentes. “Eu já aprontei muito, mas paro para pensar que tenho que mudar.  Como vou arrumar emprego? Tenho que ter mais responsabilidade”, reflete. Jeferson desistiu dos estudos quando estava no 6º ano do ensino fundamental. Embora pense em voltar para a escola, não faz planos a curto prazo. Um curso superior parece algo distante de sua realidade. “Faculdade, eu não sei, mas faria enfermagem”, aponta.
Sua rotina se resume a um ócio que não é criativo. “Eu fico por aí, não faço nada. Só jogo futebol, às vezes”. Jeferson vive o hoje, sem se preocupar com questões muito complexas. Ele confessa que não lê sobre política, mas está a par do que dizem e tem uma noção geral da situação, a partir do que vê e ouve. Sem candidato para as eleições, ele se decidirá depois da largada eleitoral. Com o alistamento previsto para amanhã, o exército é uma opção que ele considera no momento. “Eu quero servir”, diz ele.
 

(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)

“Quero trabalhar como cineasta”

Na expectativa dos resultados do Programa de Avaliação Seriada (PAS) e do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), Júlia Rios Valdez, moradora de Samambaia, quer cursar Comunicação Social e se tornar uma cineasta. “Espero conseguir realizar meu sonho de fazer filmes e conseguir trabalhar em grandes sets de filmagem, já que é isso que me apaixona”. Ao fazer um retrato de seu tempo, ela diz que há uma mudança brusca de realidade quando compara com a época em que seus pais eram crianças e adolescentes. “A geração dos meus pais cresceu brincando na rua e mandando cartas. Hoje, nós temos jogos on-line e whatsapp”, explica. Alguns hábitos, no entanto, são mantidos, não importa a geração. “Os jovens bebem bastante e as drogas fazem parte do cotidiano de alguns”, analisa a jovem. Mesmo assim, as diferenças são grandes. “Acho que nossa geração é mais preocupada com a saúde e a estética”. Ela acredita que sua geração lida de uma forma muito melhor com a própria sexualidade. “As pessoas conseguem se entender”.
 

(foto: Bárbara Cabral/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Bárbara Cabral/Esp. CB/D.A Press)

“Me dedico muito à igreja”

A religiosidade é uma característica marcante de Leandro Alves da Silva. Evangélico, ele costuma frequentar as reuniões de sua congregação. “Me dedico muito à igreja, gosto de ir aos cultos, conversar sobre nossa juventude”, conta. No 2º ano do ensino médio, ele sonha com a faculdade de medicina veterinária. Uma das responsabilidades que a maioridade traz é com o exército brasileiro. “Eu não estou querendo me alistar. Estou querendo fugir. ”, afirma. Ainda em busca da primeira experiência no mercado de trabalho, ele quer aprender a administrar melhor o seu dinheiro.  Gasta no primeiro dia toda a mesada que recebe da avó, com quem mora. Mas suas necessidades futuras exigem um planejamento. “Eu quero abrir uma conta agora e guardar dinheiro para tirar a carteira de motorista no ano que vem”. As divergências com a avó são difíceis de evitar.  “Ela tem uma mente muito rígida e eu penso que tenho que viver minhas experiências para ser alguém lá na frente”. 
 

(foto: Bárbara Cabral/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Bárbara Cabral/Esp. CB/D.A Press)

“Só compro o que realmente preciso”

O sonho de ser médica motiva Tainá Moreira de Souza, moradora da Estrutural, a retomar os estudos. No ano passado, ela abandonou a escola, quando estava no 2º ano do Ensino Médio. Agora, planeja dar continuidade aos estudos e, depois, ingressar na faculdade. Por enquanto, são só planos, ela ainda não procurou saber sobre matrícula. “Quero crescer na vida, ter uma casa, uma família estruturada, fazer faculdade e ter um bom emprego”, diz, sobre as metas para o futuro. Um fator motivacional é o desejo de ter a própria casa e a independência financeira. Ainda sem experiência profissional, ela se diz uma boa administradora. “Eu tento escrever tudo que necessito e comprar só o que eu realmente preciso no momento”, conta. Tainá se diz preocupada com o futuro do país. “ Cada dia mais, o Brasil está indo para o buraco”.  Sobre sua geração, ela não poupa críticas.  “Hoje em dia é raridade encontrar um jovem que pense no futuro”.
 

(foto: Bárbara Cabral/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Bárbara Cabral/Esp. CB/D.A Press)

“Não quero mexer com papelada”

Brenda Luiza Silva Soares abandonou a escola no 1º ano do Ensino Médio. Ela culpa o desânimo e diz que pretende voltar para conseguir um estágio como jovem aprendiz. Sem muita perspectiva e pouca fé, ela fala sobre suas metas. “Eu tenho um objetivo, mas não sei se vou chegar alcancá-lo. Eu sempre quis fazer alguma coisa que não precisasse ficar parada. Quero ser policial ou bombeira. Não quero mexer com papelada, não”, explica. Ela não se lembra de nenhum hobby, passa seus dias em casa, fazendo tarefas domésticas ou na sua rua, conversando com os amigos. “Eu gosto de ler, mas parei por um tempo. Eu lia muito livros de mistério e essas coisas”. Ela se diz muito estressada. “Fico pensando muito e por isso fumo, me preocupo demais”. Ela não sonha com viagens internacionais, emprego ou em constituir família. “Meu maior sonho é ter paz em tudo, não ficar preocupada, ser feliz”, resume.
 
 
(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)

Visões diferentes sobre política, análises idênticas sobre o conflito de gerações 

Victória Cunha (à esquerda) cursa enfermagem e, apesar de querer trabalhar na área, não se mostra interessada em papos sobre seu futuro como aposentada. “Não consigo pensar em Previdência, é muito para frente”, afirma, preocupada. Não tirou o título, nem quer pensar em carro. “Não sou muito ligada em política, nem tirei meu título de eleitor ainda. E ainda nem penso em ninguém”, confessa. A católica, no entanto, não foge do assunto de conflito de gerações. Para ela, há muito conflito, já que a maioria das famílias do Distrito Federal veio de outras regiões. “Há bastantes conflitos, acho que é porque muitas famílias daqui vieram do Nordeste, por exemplo, então existe um conservadorismo”, explica. Segundo Victória, isso acontece porque “existem muitas coisas que essas pessoas das gerações passadas não querem aceitar”.  

Já sua amiga Genize Oliveira (à direita), que cursa farmácia e também pretende trabalhar na área, se mostra mais receptiva quando o assunto é política. “Acho que o equilíbrio seria o conservador e o liberal juntos, sou um pouquinho de cada, dependendo do assunto”, reflete. Já com seu título eleitoral, demonstra incerteza. “Não votei por convicção, da última vez. Foi mais ‘por fazer’”, revela. Quanto à mobilidade, pretende tirar o quanto antes sua habilitação. “Pretendo tirar esse ano, assim que der. Não estou tão empolgada, é mais por necessidade mesmo”, explica. A jovem, que não tem hábitos como fumar, revela beber socialmente, mesmo sendo evangélica. “Eu entrei meio que recentemente nessa religião”, comenta. Quanto as gerações, concorda com a amiga. “Existe bastante conflito. Principalmente a geração dos nossos pais e avós com a nossa. A gente tenta explicar algumas coisas que, na época deles, seria muito diferente, é errado. Minha geração é mesmo mais liberal que as anteriores”, afirma. 
 

(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)

“Érrado achar que somos alienados”

Muitos jovens, como Verônica Nasr Freitas, sentem que as gerações anteriores julgam a sua geração sem sequer ouvirem seu lado. “Acho errado acharem que nós somos completamente alienados, que temos tanto acesso a conhecimento e não sabemos filtrar”, comenta. Católica, mostra-se liberal contra homofobia, racismo, entre outros tópicos. “Não deixo minha religião atrapalhar no que vou pensar”, assume.  Ansiosa para dirigir um carro, a jovem revela já ter guardado dinheiro para tirar sua habilitação. “Já tá tudo guardadinho”, afirma. Também é assim com longo prazo. “Com certeza quero investir, porque, mesmo depois de estar aposentada, eu quero ter uma vida boa, manter meu padrão de vida”, reflete. Também preocupada com o futuro político do país, a jovem confessa ter tirado o título de eleitor, a jovem se classificou como uma liberal. “Minha geração é mais liberal até demais  para coisas que não tem necessidade, e para outras, é extremamente conservadora”, critica. Rola muita falta de interesse da nossa geração”, ressalta.
 
*Estagiárias sob a supervisão de Paulo de Tarso Lyra

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