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Correio Braziliense

Crítica aos governantes volta ao sambódromo com enredos apimentados

Sátiras que, normalmente, acontecem nos blocos de rua, tomaram conta do Sambódromo


postado em 11/02/2018 08:00 / atualizado em 11/02/2018 10:18

O humor ácido promete dar as caras como há muito não se via(foto: Tania Rego/CB/D.A Press)
O humor ácido promete dar as caras como há muito não se via (foto: Tania Rego/CB/D.A Press)


O carnaval de 2018 está apimentado nas críticas. Sátiras que, normalmente, acontecem nos blocos de rua, tomaram conta do Sambódromo e virão como componentes dos desfiles do grupo especial hoje, na Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro. Entre os principais alvos, estão o presidente Michel Temer, representado como um vampiro em um carro alegórico da Paraíso do Tuiuti, e o prefeito da cidade, Marcelo Crivella, foco da Estação Primeira de Mangueira. O humor ácido promete dar as caras como há muito não se via.

No carnaval do engajamento, a Paraíso do Tuiuti fará um apanhado dos acontecimentos que balançaram a política nos últimos anos — do impeachment de Dilma Rousseff à aprovação da reforma trabalhista. Com o enredo Meu Deus, Meu Deus, está extinta a escravidão? a escola abordará os 130 anos da Lei Áurea com uma visão crítica sobre a falta de preparo na libertação dos escravos e a ausência de cidadania e igualdade de direitos que trazem prejuízos até hoje. As novas leis trabalhistas em vigência também serão retratadas de forma negativa.

O visual será repleto de detalhes que complementam a crítica bem-humorada. Uma das últimas alas do desfile tratá integrantes com narizes de palhaço, uma roupa que representa o uniforme da Seleção Brasileira, em alusão aos manifestantes que pediram o impeachment de Dilma, com patos amarelos em torno da cintura — símbolo da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Nas mãos, as famosas panelas que soavam nas capitais quando Dilma aparecia na tevê. Em cima da cabeça, uma mão gigante de terno os transforma em marionetes.

A historiadora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Regina Alves comenta que o carnaval sempre teve um tom de sátira, principalmente política. “O deboche, a cobrança das autoridades sempre existiu, mas hoje se concentra mais nos blocos de rua. Isso está profundamente ligado à história do carnaval. Quando as escolas começam a precisar de financiamento, uma parte acaba atrelada à quem financia. Agora, estamos vendo aflorar nas escolas de samba essas críticas”, afirma.

A Mangueira faz uma viagem no tempo e volta às origens do carnaval. Com o enredo Com dinheiro ou sem dinheiro, eu brinco! — inspirado na marchinha Eu brinco, de 1944 — a escola faz uma crítica ao prefeito Marcelo Crivella, que cortou os recursos das escolas de samba e à dependência financeira que, atualmente, condiciona o carnaval do Rio. A letra do samba deixa claro que o importante é a festa e não o dinheiro: “Outrora marginalizado, já usei cetim barato pra desfilar na Mangueira”. Nos primeiros anos, a Verde e Rosa era um bloco de rua. A agremiação propõe um resgate do carnaval popular nas ruas e nos desfiles.

“É uma resposta ao corte dos investimentos, mas também um reflexo da insatisfação com o momento de crise, até porque uma coisa provocou a outra. No caso do Rio de Janeiro, a presença das autoridades nos desfiles sempre foi uma tradição, mesmo quando eles eram alvos das críticas. Com o Crivella, essa relação foi quebrada”, analisa Regina Alves. O cientista político da Fundação Getulio Vargas Sérgio Praça acredita que a completa insatisfação com o governo acaba se refletindo na folia. “O Rio está em um momento de caos político e econômico como nunca se viu. Existe uma indisposição do prefeito com a festa. Os governos, tanto federal quanto municipal, são muito rejeitados, e o carnaval expressa isso”, avalia.

O monstro

A Beija-Flor, que fecha o desfile amanhã, entra com enredo baseado no clássico romance de ficção e terror Frankenstein ou o Prometeu Moderno, de Mary Shelley. A escola faz um paralelo entre a obra, que completa 200 anos em 2018, e a situação do Brasil. Intitulado Monstro é aquele que não sabe amar. Os filhos abandonados da pátria que os pariu, o samba é carregado de críticas sociais, religiosas e políticas. Em um dos carros alegóricos, um rato gigante simboliza a corrupção que assola o estado e todo o país.

“Esse romance tem muito a nos dizer das diversas mazelas que atualmente corroem a integridade moral e espiritual de uma sociedade na qual a desigualdade se alimenta do descaso, tornando uma geração formada pelo caos, vitimada pelo abandono, que menosprezam tudo e a todos que lhes parece inadequados. O monstro de Frankenstein é a nossa realidade invertida”, conta o carnavalesco Cid Carvalho, na sinopse do enredo. A proposta deste ano traz à memória o aclamado desfile de 1989, com Ratos e urubus: Larguem a minha fantasia. A alegoria com figurantes vestidos de mendigos trazia um Cristo Redentor, mas precisou passar coberta por um plástico preto por causa de liminar judicial que proibiu a exibição da imagem. Por cima do plástico preto, foi colocada a faixa: “Mesmo proibido, olhai por nós!”.

* Estágiario sob supervisão de Natália Lambert

(foto: Arte/CB/DA Press)
(foto: Arte/CB/DA Press)

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