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Correio Braziliense

Bissexuais lutam por mais visibilidade dentro de movimentos LGBT

Segundo pesquisas, as pessoas bissexuais se sentem pouco acolhidas dentro da própria comunidade, que deveria representá-las


postado em 19/02/2018 19:27 / atualizado em 20/02/2018 17:10

De acordo com a pesquisa da Escócia, 66% dos entrevistados bissexuais se sentem
De acordo com a pesquisa da Escócia, 66% dos entrevistados bissexuais se sentem "pouco" ou "nada" parte da comunidade LGBT (foto: AFP/Aaron TAM)

 
A comunidade LGBT foi criada com intuito de acolher e representar gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais na sociedade, mas, por incrível que pareça, ainda existe preconceito e exclusão dentro do próprio grupo. E essa é uma reclamação, principalmente, dos bissexuais: muitos afirmam que são vistos como indecisos, vulgares e até infiéis dentro do movimento.

Com objetivo de entender melhor a comunidade bissexual, o instituto Equality Network, da Escócia, que trabalha com igualdade de direitos LGBT no país, realizou uma pesquisa, financiada pelo próprio governo, para investigar o sentimento de pertencimento dos bissexuais no grupo. De acordo com o estudo "As experiências de pessoas bissexuais e ideias de melhoria", 66% dos entrevistados bissexuais se sentem "pouco" ou "nada" incluídos na comunidade LGBT. 
  
Uma outra pesquisa, realizada pelo Instituto Williams, da Universidade da Califórnia de Los Angeles (UCLA), concluiu que 76% dos entrevistados que se identificam como bissexuais são mulheres e muitas afirmaram sofrerem assédio sexual por conta da orientação sexual. Gustavo Costa, 22 anos, militante do Coletivo Corpolítica - grupo criado em Brasília voltado a questões LGBT, feminismo, racismo e entre outros temas - acredita que bissexuais têm, em geral, mais dificuldade de se assumir por terem receio de não receber apoio da comunidade. "Existem grupos de lésbicas e de gays que optam por não se relacionar com bissexuais por acreditarem que estes são 'menos LGBT' e que, portanto, não partilham das dores, exclusão e sofrimento que as pessoas LGBT partilham', lamenta Gustavo. 

Um estudante de ciência da computação, de 22 anos - que preferiu não se identificar -, entende sua bissexualidade desde os 12. Ele conta que, no momento em que achou uma mulher bonita, percebeu que poderia ver a mesma beleza em um homem. "Mas, começaram os questionamentos: 'será que todo mundo é assim? Mas como eu consigo gostar de homens, se sou hétero? Se eu gosto dos dois, eu não deveria ficar só com mulheres para me enquadrar melhor?'", questiona o estudante. 
 
Luiza Lohan, 21 anos, jornalista e também bissexual, afirma que, para homossexuais e heterossexuais, o ser bissexual não existe. "Ainda é muito difícil, para a sociedade, romper esse vínculo com o binário. É importante ressaltar que a pessoa bissexual não necessariamente se relaciona com homens e mulheres cisgêneros", explica Luiza. A jovem concluiu o curso de jornalismo no ano passado e usou seu trabalho de conclusão de curso para autoconhecimento, mas também para disponibilizar e publicar conteúdos sobre bissexualidade que ainda são muito escassos. "Quanto mais eu lia, mais eu tinha orgulho de quem eu era, e mais eu sabia que muitos ao meu redor não eram capazes de entender a minha sexualidade", conta Luiza.

Bi-Sides 

Em 2010, foi criado o coletivo Bi-Sides, em São Paulo, que abre espaço para debates sobre bissexualidade. O grupo traz conversas sobre dores, preconceitos e tenta combater o fetiche que ronda a vida dos bissexuais. "Mulheres bi têm um índice altíssimo de violência sexual e doméstica em relacionamentos abusivos, e a maior parte dessa violência vem de homens e da ideia da mulher bi sempre estar disponível", explica Natasha Avital, 31 anos, membro do coletivo.

O grupo, segundo ela, foca em saúde mental, por meio de rodas de conversas, orientadas por psicólogos. "A gente sabe de muitas histórias de horror de pessoas que ouvem de profissionais que bissexualidade não existe. É assustador", diz Natasha. 

Apesar de relatos de preconceito na área de psicologia em relação a pacientes bissexuais, essa conduta não é aceita pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP), explica Tatiana Lionço, professora do Instituto de Psicologia da UnB. De acordo com ela, a resolução 01/99 do CFP não permite a discriminação contra pessoas bissexuais. "Dentro da teoria psicológica, a gente vai pensar que a sexualidade não se reduz à reprodução da espécie, mas sim aos laços sociais e à constituição da identidade da pessoa. A sexualidade humana não é apenas heterossexual", acrescenta a professora.     

*Estagiária sob supervisão de Ana Letícia Leão.

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