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Correio Braziliense

Correio relembra história da jovem que foi morta em casa por ex-namorado

Apesar de Clésia Andrade ter denunciado o ex-namorado à polícia, ela foi morta dentro de casa. Familiares lamentam falta de ação mais efetiva contra o feminicida


postado em 08/03/2018 06:00 / atualizado em 08/03/2018 08:12

Gaspar e Odália, pais de Clésia, que deixou o filho de oito anos(foto: Ingrid Soares/Esp. CB/D.A Press)
Gaspar e Odália, pais de Clésia, que deixou o filho de oito anos (foto: Ingrid Soares/Esp. CB/D.A Press)


Frango e arroz. Essa foi a última refeição da bailarina Clésia antes de morrer, por volta das 14h do último dia 9 de janeiro. Assim que ela terminou o almoço, se levantou para colocar o prato na pia e Bruno apareceu.

Airrane Souza Andrade, 27 anos, irmã da estudante de dança, estava no bar contíguo à casa no momento do crime, com quatro crianças, entre elas, o filho de nove anos de Clésia. Airrane ouviu os disparos e pediu às crianças que corressem para a casa de vizinhos. Clésia morreu com um tiro na cabeça que saiu de uma Taurus PT 100 .40 disparado pelo ex-namorado, um policial militar, que em seguida se suicidou.

Clésia de Souza Andrade, 28 anos, fazia licenciatura em dança, no Instituto Federal de Brasília (IFB Brasília). A brasiliense, terceira de quatro irmãs, gostava da vida. “Não tinha essas coisas de eletrônicos, então ela jogava bola na rua com os amigos. Uma semana antes de morrer, ela jogou queimada com os meninos aqui na rua. Foi difícil até de fazer ela parar”, lembra a mãe, Odália Romão de Souza, 48 anos.

Clésia funcionava como uma espécie de “psicóloga” dos amigos, capaz de ouvir e dar conselhos de maneira paciente. “Parei de reclamar da vida porque aprendi com ela que deveria ser mais positiva”, diz Odália, que é comerciante em São Sebastião (GO), a 21km da rodoviária central de Brasília. “Ela era muito curiosa, se tínhamos um problema, ela buscava ajudar, procurava em livros, na internet, até encontrar a solução. Era a melhor de memória e extremamente inteligente. Estudava para prestar concurso na Polícia Civil. Sonhava em dar uma vida melhor para a gente”, afirma mão, dona do bar, que funciona na entrada da casa onde a menina foi assassinada.

Segundo Airrane, às 9h, Bruno foi à casa delas na Quadra 11 do Morro Azul, entrou na cozinha, preparou uma vitamina de abacate e tomou café junto com Clésia. “Ele ia e vinha como se tivessem algo juntos, mas não tinham. Acho que ela temia expulsar ele de vez, mas Bruno sempre deixava coisas para trás para ter a desculpa de voltar.”

Quando a mãe estava em casa, ele não entrava. Sabia que ela não o queria lá. Bruno havia batido em Clésia uma vez. No dia do feminicídio, a mãe da garota estava viajando. Tinha ido ao Paraguai comprar eletrodomésticos.

Airrane, que estuda secretariado, afirma ainda não acreditar no que aconteceu à irmã. “Tem hora que tenho medo de pirar. Ainda não caiu a ficha. Agradeço a Deus que eu estava aqui, se não, quem ia achar os corpos eram as crianças. Seria um trauma que eles carregariam para sempre. Foi a cena mais horrorosa do mundo.”

No dia da tragédia, depois do café, Clésia foi trabalhar como atendente no bar. Bruno ajudou e mais tarde disse que iria trabalhar na PM, pois estava se sentindo mal. Ela percebeu que era uma desculpa. Então, insistiu para que ele fosse. Um tempo depois, ele saiu. Ficou fora uma hora.

Quando chegou, aparentava estar calmo. “Os dois não estavam brigando. Daí eles entraram para o quarto, deixaram a porta aberta”, lembra Airrane. Ela achou que ele fosse guardar a arma antes de comer. Clésia estava no celular. “Para mim, ele tentou alguma coisa com ela, insistiu para voltar ou pediu para ver o celular.” Clésia havia feito um prato para Bruno. A comida ficou no micro-ondas. Só foi retirado no outro dia, quando uma pessoa foi limpar o sangue.

Medo


Relatando os momentos de terror, ela afirma que ouviu dois disparos e pensou que tinham sido contra a irmã. Ficou com medo de entrar no cômodo e ele fazer algo contra ela. “Liguei para a polícia e da porta dava para ver os cabelos dela no chão, entre a porta do quarto e da sala.” A lembrança é trágica, mas Airrane continua: “Quando tomei coragem, a vi no chão com sangue na cabeça, já estava mole e com a pupila dilatada. Tentava respirar, mas parecia que estava sufocada. Ele estava sentado, com os dois pés no chão com espuma de sangue saindo pela boca, deitado na cama, foi aí que percebi que ele tinha se matado”. Quando a polícia e os bombeiros chegaram, os dois estavam mortos.

Breno, o filho de Clésia, anda calado desde a morte da mãe. Outro dia, fez uma espécie de tatuagem com uma caneta e escreveu o nome dela na perna e no braço. Ele gosta de passar o tempo na casa de uma prima, na vizinhança, e pede para ouvir histórias que tenha passado junto com a mãe. Sempre pergunta se tem mais.

Clésia e Bruno Viana de Almeida, 38 anos, se conheceram havia cerca de dois anos. Desde o início viviam em um relacionamento conturbado e, há cerca de um ano, ela tentava terminar. Eles tentaram por três vezes morar juntos, mas sempre brigavam. Segundo a mãe, ele vivia recebendo mensagem e ligação de outras mulheres.

Um mês e meio antes do crime, Bruno agrediu Clésia com puxões de cabelo, coronhadas e a derrubou no chão. A moça não contou à família. Disse apenas que ele havia quebrado o celular em um ataque de ciúmes. Ela terminou. O homem apareceu dias depois com flores e cartão, pediu perdão, disse que ia mudar e que a amava e ela o aceitou de volta. Fizeram uma viagem de reconciliação para Poço Azul, em Brazlândia, mas voltaram antes do previsto, após ela ser agredida novamente com um chute. Clésia registrou um boletim e pediu uma medida protetiva contra o ex-namorado.

Um mês após o término, ele continuou a procurá-la, insistia para voltar e pedia que ela retirasse a medida. A família acredita que ela tenha sofrido ameaças, mas não cedeu. Bruno era policial militar motorizado e trabalhava no batalhão, que ficava na rua de Clésia. A mãe explica que ele a seguia na faculdade, no cursinho, subia na parada com a moto e ameaçava os colegas dela.

O pai de Clésia, Gaspar Pacheco de Andrade, 61 anos, passou mal quando soube da morte da filha. “Nunca imaginei que isso podia acontecer. Ninguém me contou nada sobre as ameaças, esconderam de mim. Mas se eu soubesse creio que poderia ter feito algo para impedir.”

O delegado-chefe João Carvalho da 30ª Delegacia de São Sebastião afirma que a conclusão do laudo pericial aponta o crime de feminicídio seguido de suicídio.

Maior rigor na legislação


O Senado aprovou projeto que torna crime o descumprimento das medidas protetivas previstas na Lei Maria da Penha. O texto estabelece pena de detenção de três meses a dois anos para quem desobedecer decisão judicial. A matéria segue para sanção presidencial. Este tipo de medida é adotado para proteger mulheres vítimas de algum tipo de violência doméstica ou familiar. As medidas podem ser o afastamento do agressor do lar ou local de convivência, a fixação de limite mínimo de distância em relação à vítima e a suspensão ou restrição ao direito de o agressor portar armas. Pelo entendimento do Superior Tribunal de Justiça (STJ), o descumprimento das medidas protetivas não configura o crime de desobediência previsto no Código Penal. De acordo com a jurisprudência do STJ, a Lei Maria da Penha já prevê a decretação da prisão preventiva como forma de garantir a execução da ordem judicial.

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