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Correio Braziliense

Especialistas mostram os dois lados do uso da internet na primeira infância

Para pesquisador espanhol, o importante para garantir navegação segura é mediar e restringir os conteúdos acessados e não o tempo de uso. Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda que bebês tenham acesso a dispositivos digitais só depois dos 18 meses


postado em 24/03/2018 08:00

Às vezes, parece que as novas gerações nascem conectadas. Com poucos meses, bebês se interessam pelo brilho, pelas cores, pelos sons e pelos movimentos em telas de celulares, tablets, computadores, televisões. Antes do primeiro aniversário, meninos e meninas conseguem usar smartphone sozinhos, “escolher” um vídeo para assistir e até pular para o próximo caso se cansem. O uso das ferramentas precede saber ler ou escrever. Por um lado, as novas tecnologias são fonte de entretenimento e informação; por outro, trazem riscos em termos de privacidade e de conteúdos inadequados para crianças pequenas. Na primeira infância, período até 6 anos, a preocupação com a internet precisa ser ainda maior, visto que, nessa fase, há menos consciência e autonomia para lidar com as ameaças da rede. Para piorar, falta regulação efetiva por parte dos pais e do sistema de educação.

É no que acredita o espanhol Lucas Ramada Prieto, estudioso de ficção digital para crianças e jovens. Ele defende a vigilância em termos de conteúdo e não de tempo de acesso. “O importante não é limitar quantas horas a criança poderá usar a rede. A Associação Americana de Pediatras, por exemplo, disse, em 2010, que era preciso limitar e, em 2016, voltou atrás. Normas rígidas de quantidade de uso não levam em conta o contexto”, comenta ele, que veio ao Brasil esta semana para participar, em São Paulo, do seminário internacional Arte, palavra e leitura na primeira infância, evento organizado pela Fundação Itaú Social e pelo Serviço Social do Comércio (Sesc).

Já a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) tem recomendações diferentes de acordo com a faixa etária na primeira infância: proibição do uso até os 18 meses e limitação de até duas por dia até os 6 anos. Fátima Guerra, doutora em educação infantil e professora aposentada da Universidade de Brasília (UnB), pondera que só observar o período gasto na rede não basta. “Estabelecer quantos minutos ou quantas horas se pode usar não resolve a questão, porque a criança ainda poderia ver algo inadequado. O ideal é que cada um estabeleça o próprio limite baseado com confiança mútua entre pais e filhos.”

No entanto, a pedagoga chama a atenção para a importância de não generalizar. “Não dá para universalizar, cada faixa etária, cada contexto, é diferente. Se o menino ou a menina começa a abusar ou descumprir o combinado, às vezes, é o caso de tirar totalmente. Criança precisa de limites e não só na questão da internet”, defende. “Não se deve ficar o dia inteiro on-line, pois há outras coisas do universo infantil igualmente importantes, como sair ao ar livre, tomar sol, brincar, relacionar-se fora da escola”, diz. “Não existe receita de bolo. Cada criança é diferente”, defende.

Lucas Ramada Prieto alerta para o perigo de pensar que há problema no uso apenas da internet. “As telas fazem parte do ecossistema de ficção, arte e cultura — que envolve livros, jogos, músicas. Estar muito imerso em uma tela é como estar muito imerso em um livro e, se vemos uma criança lendo muito, provavelmente não acharíamos ruim ou perigoso”, compara o doutor em didática da literatura pela Universidade Autônoma de Barcelona, onde é professor e membro do Gretel (Grupo de Pesquisa de Literatura Infantil e Educação Literária).

“Não é tão importante definir períodos de uso. Não há sentido, porque se trata mais de ensinar a crianças que não se pode ficar todo o tempo fazendo uma coisa só, seja usar o celular, jogar futebol, ler, seja assistir a novela. Limitar só porque é on-line não faz sentido”, argumenta.

O principal para um uso saudável da rede mundial de computadores, na visão da professora Fátima Guerra, é estabelecer uma relação de confiança com os filhos. “Não deve ser algo de cima para baixo. Acessar a internet também não deve ser usado como prêmio, punição ou chantagem — se você fizer isso, deixo brincar no celular”, ensina a mestre em psicologia. “Tem muito pai que dá o tablet ou o celular quando quer que o filho fique quieto num restaurante ou avião. Não deveria ser esse o uso”, orienta. Outro tema polêmico é conciliar privacidade e supervisão. “O acesso paterno tem de ser conversando, olhando junto”, aconselha. Tantos aspectos complexos deixam claro para a professora da UnB que educar na era digital é muito mais difícil. “A saída é o diálogo e, se você não estabelece o diálogo e a relação de confiança desde muito cedo, não é na adolescência que conseguirá fazer isso”, aponta.


Ana Lúcia Durán, fonoaudióloga clínica e educacional, pós-graduada em psicomotricidade (foto: Arquivo Pessoal )
Ana Lúcia Durán, fonoaudióloga clínica e educacional, pós-graduada em psicomotricidade (foto: Arquivo Pessoal )


Três perguntas para

Ana Lúcia Durán, fonoaudióloga clínica e educacional, pós-graduada em psicomotricidade

O uso de celular pode atrasar o desenvolvimento da fala?
Os aparelhos celulares e tablets têm sido utilizados indiscriminadamente como babás eletrônicas, e os prejuízos no desenvolvimento da linguagem são cada vez mais frequentes, porque aprendemos por meio da interação, do contato e do afeto. Jogos e aplicativos, quando utilizados de forma inadequada, sem mediação e interação, não promovem intenção comunicativa, e o vocabulário adquirido não é funcional, ou seja, muitas vezes observamos crianças que emitem palavras, falas de desenho, ou canções como se fossem um “eco”, apenas por repetição, sem comunicar absolutamente nada.

O problema de atraso da fala só ocorre em crianças de até 2 anos?
Os primeiros 1 mil dias da criança, que começam na vida intrauterina e vão até o fim do segundo ano, são considerados o “alicerce” para um bom desenvolvimento de fala e da linguagem. Especialmente nesse período, a interação com adultos e outras crianças é fundamental para que a linguagem receptiva (o que compreendemos) e a expressiva (o que falamos) se desenvolvam. Em geral, aos 2 anos, as dificuldades ficam muito evidentes, porque é uma fase em que se espera que a criança tenha vocabulário suficiente para expressar desejos e necessidades e formar pequenas frases. Existem marcos para cada fase do desenvolvimento, e a falta de estimulação adequada pode causar prejuízos em qualquer etapa, observados mais tardiamente, por exemplo, na dificuldade de organizar e expressar os pensamentos, contar fatos e histórias, presença de trocas fonológicas não esperadas e dificuldades de aprendizagem.

Qual a importância do acompanhamento dos pais no acesso dos filhos à internet?
Vivemos em um mundo cercado pela tecnologia, utilizamos esses recursos com muita frequência e, uma vez que as crianças aprendem por imitação, é inevitável que o interesse pelo uso de tablets e celulares apareça cada vez mais precocemente. As empresas de tecnologia desenvolvem apps destinados para cada fase e não vejo problemas em que sejam utilizados, desde que com a mediação e a interação de um adulto, ou seja “vamos falar sobre o que estamos vendo no jogo ou no vídeo e trazer as informações para outras situações da vida diária”.

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