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Correio Braziliense

Ausência de mulheres provoca debandada na Associação de Magistrados

No Distrito Federal, a juíza Rejane Zenir Jungbluth Suxberger, titular do Juizado de Violência Doméstica de São Sebastião, foi a primeira a se desfiliar da AMB


postado em 12/04/2018 22:45

Juíza Rejane Zenir Jungbluth Suxberger, titular do Juizado de Violência Doméstica de São Sebastião(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
Juíza Rejane Zenir Jungbluth Suxberger, titular do Juizado de Violência Doméstica de São Sebastião (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
 
Por falta de representatividade de gênero, o XXIII Congresso Brasileiro de Magistrados provocou a desfiliação de pelo menos 12 juízas da Associação de Magistrados Brasileiros (AMB). No material divulgado pela entidade, dos 28 palestrantes confirmados, 26 eram homens. Já programação atualizada no site até a noite desta quinta-feira (12/4), dos 36 oradores previstos, continuam apenas duas mulheres.
 
No Distrito Federal, a juíza Rejane Zenir Jungbluth Suxberger, titular do Juizado de Violência Doméstica de São Sebastião, foi a primeira a se desfiliar da AMB. No último dia 3, ela enviou um ofício ao presidente da AMB, Jayme Martins, em que afirmou ser “inaceitável permanecer numa associação que supostamente deveria promover a igualdade de gênero”.
 
Em seguida, outras magistradas de todo o país aderiram à causa. A juíza Gláucia Foley, do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT), afirmou que pediu a desfiliação assim que teve acesso ao fôlder do congresso. “É incompatível, o número de magistradas é muito maior que esse percentual. E as duas únicas mulheres não eram magistradas, mas integrantes do parlamento. Não fomos representadas”, reclama. Foley se refere à senadora Ana Amélia (PP) e à procuradora-geral da República, Raquel Dodge, que tiveram presença confirmada. A ministra Rosa Weber, do Supremo Tribunal Federal, também aparece na lista, mas não confirmou presença.
 
Segundo a juíza Glácia Foley, também não houve cuidado com a pluralidade dos convidados. “Trata-se de um debate que era para ser democrático e a maioria tem um perfil político particular. Isso tem que ser avaliado. Eu me desfiliei como forma de apoio e protesto. Depois que vi a iniciativa de outras juízas, foi algo voluntário. Quando se faz um evento dessa magnitude com tamanha falta de representatividade se reproduz a violência de gênero”, afirmou.
 
A juíza Karla Aveline, do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJ-RS), aderiu ao ato em protesto contra a falta de representatividade. “Estamos próximas do quadro de 50% de magistradas e em outros estados também. Mas ainda é um mundo masculino e é preciso provocar essa discussão. Tem que ter mais cuidado com isso e reforçar os convites às mulheres, que muitas vezes tem um contraturno. Isso também deve ser observado com sensibilidade”, explica.
 
Juíza do Tribunal de Justiça do Paraná, Fernanda Orsomarzo se desfiliou em solidariedade às colegas. “Às vezes, acontece uma decisão irrefletida, sem intenção mas que mostra que o machismo está enraizado e naturalizado na sociedade. Nesse caso, ficou claro a participação quase nula das mulheres. Esse é um ato importante não como enfrentamento, mas para refletir sobre o machismo na sociedade”, completa.
A Associação Juízes para a Democracia (AJD) representada por Laura Benda, juíza do Trabalho em São Paulo também reiterou apoio às juízas. “É fundamental ter representatividade de gênero em qualquer lugar, ainda mais em um congresso dessa natureza”, ressalta.
 
Integrante da diretoria da AMB e da comissão científica do congresso, Michelini Jatobá afirmou que o material divulgado tratava apenas de pessoas até ali confirmadas e, que até a última quarta-feira, 11 mulheres acertaram a presença. “A proposta era divulgar na medida em que fosse confirmado, seriam feitos mais três ou quatro fôlderes. Pode ser que a divulgação tenha causado um mal-entendido, mas era uma programação provisória e que ainda estamos fechando. Não foi um propósito deliberado. Se o motivo que fez as magistradas saírem for esse, merecia uma melhor ponderação.” Em nota, a AMB ainda afirmou repudiar toda e qualquer forma de divisão e preconceito, e que segue uma política plural e inteiramente voltada para a inclusão de todas as correntes de pensamento.

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