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Correio Braziliense

Estudantes da USP mapeavam calouros por ideologia para aliciá-los

Alunos do Centro Acadêmico 11 de Agosto, da Faculdade de Direito, listam calouros por interesses políticos, religião e gostos musicais para identificar quais estão alinhados com os ideais do grupo


postado em 13/04/2018 06:00 / atualizado em 13/04/2018 10:03

O documento interno, uma planilha no Google, vazou e causou repúdio dentro da faculdade(foto: Jorge Maruta/Jornal da USP)
O documento interno, uma planilha no Google, vazou e causou repúdio dentro da faculdade (foto: Jorge Maruta/Jornal da USP)

Integrantes do Centro Acadêmico 11 de Agosto, da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), fizeram uma lista dos calouros da instituição, separando-os por seus interesses políticos, gostos musicais e até religião. Entre as características apontadas estavam “velhão”, “progressista”, “judeu”, “crente”, “bolsominion” (apoiador do candidato Jair Bolsonaro), “maconheiro de esquerda”, “ideologia desconhecida, judia”, “liberal de merda” e até “não tem Facebook, maluca total”.

A lista, feita por integrantes do Coletivo Contraponto, com membros ligados à juventude do Partido dos Trabalhadores (PT), traz o nome do estudante, uma indicação sobre sua origem (de qual cidade veio e onde estudou), um “mapa de likes” (analisando quais páginas o estudante curte no Facebook para tentar identificar a orientação política), um link para a página pessoal do calouro na rede social e também o “responsável” no centro acadêmico em fazer o contato com o calouro para tentar atraí-lo para o grupo.

O documento interno, uma planilha no Google, vazou e causou repúdio dentro da faculdade. Os dados, obtidos a partir das “curtidas” que cada estudante tem em seu Facebook, seriam usados para mapear novos alunos com interesses políticos semelhantes aos do grupo que hoje ocupa o Centro Acadêmico e, assim, trazê-los para a organização.

Quando a lista vazou em um grupo dos estudantes, diversos alunos manifestaram repúdio nas redes sociais. “Há evidentemente uma manifestação de preconceito e de abuso de poder. Estão usando uma instituição que é pública, dos alunos, para atingir fins políticos particulares”, disse, em entrevista ao O Estado de S. Paulo, um ex-presidente do Centro Acadêmico 11 de Agosto, o advogado Renato Stetner.

Em um grupo fechado de alunos, também houve dezenas de críticas. “Isso é sintomático de uma política distante da disputa de consciência e pautada na abordagem individual personalista. E isso nunca vai ser uma vergonha para vocês, mas para o movimento estudantil de esquerda deste lugar, que acaba tendo de se ver representado assim”, postou um deles.

O presidente do 11, Luís Fernando Gonçalves, disse ao jornal paulista que o coletivo pede desculpas pela forma como o documento foi exposto, mas defendeu a lista. “Como movimento estudantil, uma das tarefas centrais é conseguir fazer com que outras pessoas entrem nessa engrenagem.” Ele reconheceu que parte dos membros do coletivo é ligada ao PT, mas disse que há diferentes correntes na gestão.

Em nota oficial, o diretor da Faculdade de Direito, Floriano de Azevedo Marques Neto, disse que “rejeita veementemente qualquer tipo de preconceito, segregação, intolerância ou classificação desabonadora a membros da comunidade ou em detrimento de quem for”.

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