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Correio Braziliense

Morte de Marielle completa 30 dias. Veja o pouco que se sabe até agora

Investigação dos assassinatos da vereadora e do motorista Anderson Gomes segue em sigilo. Atos por justiça estão programados em vários estados e países


postado em 13/04/2018 17:00 / atualizado em 13/04/2018 17:17

Marielle Franco, 38 anos: morta com vários tiros no Rio de Janeiro(foto: Reprodução)
Marielle Franco, 38 anos: morta com vários tiros no Rio de Janeiro (foto: Reprodução)

 

"O mandato de uma mulher negra, favelada, periférica, precisa estar pautado junto aos movimentos sociais, junto à sociedade civil organizada, junto a quem está fazendo algo para nos fortalecer naquele local. E a gente objetivamente não se reconhece, não se encontra, não se vê. A ligação é o que eles apresentam como nosso perfil. Então, é preciso ter a nossa casa, ter o nosso lugar, ter o nosso período, ter o nosso lugar de resistência. Porque a gente sabe que a gente tá ativa, tá lutando e tá resistindo o tempo todo, mas com alguns períodos onde a gente se fortalece na luta."

 

Nas imagens de um ao vivo transmitido pelo Facebook é possível ver Marielle Franco sorrindo e fazendo gestos enquanto pede às mulheres da roda para que o evento "Jovens Negras Movendo Estruturas" fosse um bate-papo descontraído, "pelas dores e pela resistência das mulheres negras". Era 14 de março quando, por mais de uma hora e meia, em uma sala na Rua dos Inválidos, na Lapa, no Rio de Janeiro, o grupo de mulheres seguiu a proposta da vereadora e debateu questões importantes para o reconhecimento da mulher negra na sociedade brasileira. No mesmo dia, poucas horas depois do encontro, Marielle foi executada. Há exatos 30 dias. Desde então, pouco se sabe sobre o que, de fato, motivou a morte da vereadora carioca, de 38 anos. Muito menos quem são os assassinos, dela e de seu motorista, Anderson Pedro M. Gomes, 39.

 

 

 

"Pra sair daqui com o corpo, com o coração e com a mente fortalecida para as batalhas que virão", concluiu Marielle Franco ao fim da transmissão naquele dia. Momentos depois, no entanto, o rosto, as ideias, o ativismo e a vida da vereadora foram expostos na mídia e na internet em publicações sobre o brutal assassinato dela e de Anderson.

 

Até hoje ninguém foi preso ou apontado pelos investigadores como suspeito pela dupla execução. As apurações, segundo a Polícia Civil do Rio de Janeiro, com apoio da Polícia Federal (PF), seguem em sigilo e com muita pressão popular por avanços, mas sem um ponto final.

 

No dia seguinte aos assassinatos, o Ministério Público Federal (MPF) instaurou um procedimento instrutório que podia resultar na federalização da investigação. A iniciativa de propor uma federalização da persecução penal partiu da procuradora-geral da República, Raquel Dodge, um aviso de que os órgãos federais estão acompanhando de perto o crime ainda sem solução.

 

A Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA) tem cobrado das autoridades brasileiras a apuração dos assassinatos. Uma audiência está marcada para 9 de maio na República Dominicana, onde comissários da organização devem questionar representantes do estado sobre o crime e sobre a situação da intervenção militar no Rio de Janeiro. 


 

A Anistia Internacional ressaltou que as autoridades brasileiras devem priorizar a resolução dos assassinatos e levar todos os responsáveis à Justiça. "A sociedade precisa saber quem matou Marielle e por quê. A cada dia que passa e este caso permanece sem respostas, o risco e ameaças em torno dos defensores e defensoras de direitos humanos aumentam", disse Jurema Werneck, diretora-executiva da Anistia Internacional Brasil.

 

Nas redes sociais e na mídia, os pedidos por informações que ajudem a elucidar o crime são sempre veiculados cada vez que uma notícia sobre Marielle Franco é veiculada. As informações podem ser passadas para o Disque Denúncia, através dos seguintes canais: Whatsapp ou Telegram do Portal dos Procurados: (21) 98849-6099, para a Central de Atendimento: (21) 2253-1177, pelo Facebook ou pelo aplicativo Disque Denúncia RJ. O anonimato é garantido.

 

Investigação a passos lentos

Na terça-feira (10/4), policiais civis e federais que investigam o caso divulgaram a informação de que conseguiram colher digitais parciais do assassino ou da pessoa responsável por municiar a pistola 9mm usada no crime. As digitais estavam em cápsulas achadas por peritos na esquina das ruas João Paulo I e Joaquim Palhares, no Estácio, bairro onde as vítimas foram atacadas. A princípio, segundo informou o jornal O Globo, os fragmentos não seriam suficientes para uma comparação com impressões digitais armazenadas em bancos de dados da polícia, mas poderiam ser confrontadas com as de eventuais suspeitos.

 

Vinte e três dias após o atentado contra Marielle, outro assassinato aconteceu no Rio e também continua sem explicação. O líder comunitário Carlos Alexandre Pereira Maria, 37, foi morto a tiros na noite de domingo (8/4), na Zona Oeste da capital fluminense. Ele era colaborador do vereador Marcello Siciliano (PHS), ouvido no inquérito que apura as mortes da vereadora do PsOL e do motorista Anderson Gomes.

 

No caso da morte de Carlos Alexandre, uma das linhas de investigação é a de que ele teria sido morto por, supostamente, ter ligação com uma milícia da região. A polícia também não descarta que o crime tenha conexão com o trabalho do líder comunitário desenvolvido junto ao parlamentar. Carlos era responsável por ouvir os moradores, identificar problemas na comunidade e levar as informações até o gabinete na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) para que o vereador pudesse intervir em melhorias para a região.

 

(foto: Gibran Mendes/Fotos Públicas)
(foto: Gibran Mendes/Fotos Públicas)

Atos no Brasil e no mundo pedem justiça

"Vamos juntos e vamos ocupar tudo", disse Marielle ao fim da transmissão ao vivo no Facebook, pouco antes de sua morte. A mobilização que começaria a partir daquele dia ganhou novo tom, para que os projetos da vereadora não fossem paralisados. O lamento pelas duas mortes motivou diversos atos programados para este sábado (14/4), quando a barbárie completa um mês. Intituladas "Amanhecer por Marielle e Anderson", as ações são organizadas pelo partido da vereadora, o PSOL. Movimentos sociais também se envolverão nas manifestações que estão previstas para começar ainda durante a madrugada.

 

Os organizadores  planejam amanhecer colorindo praças com flores, já que a vereadora tinha verdadeira admiração por elas. Durante os atos devem ocorrer também outras intervenções culturais, conversas com a população com o objetivo de manter viva a memória de Marielle e de Anderson. As informações sobre os eventos que devem ser realizados ao longo do dia foram reunidas em um site, onde há uma memória sobre Marielle Franco, como organizar ou participar de ações, além de banners e ilustrações que as pessoas podem usar durante os atos.

 

No Rio, há programações em vários bairros e, às 18h, será realizada uma marcha desde a Lapa até o Estácio, onde os dois foram assassinados. No mesmo horário, no Complexo de Maré, onde Marielle cresceu, será realizado o sarau de luta "Eu sou porque NÓS somos", no Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré (CEASM).

 

No DF, há ações em ao menos três cidades. Em Ceilândia, a Rede Emancipa DF informa que não poderá acompanhar o amanhecer, mas que ao final de aulas que a instituição oferece, por volta das 18h, será feito um ato em frente ao Centro de Ensino Médio 3, em Ceilândia Sul. "Marielle tem uma representatividade muito forte. É uma mulher que saiu da periferia, negra, lésbica, mãe, representa muitos de nós. O assassinato dela mostra que a gente não pode mais deixar para amanhã. Ficou latente essa questão de urgência (na solução do caso), porque a gente (os negros) não aguenta mais morrer o tempo todo", afirmou Raquel Vieira, coordenadora do projeto social.

 

Em Planaltina, a manifestação pacífica será na Praça do Museu. “Esse Amanhecer por Marielle e Anderson vai relembrar esse um mês para dizer que a luta e as vozes continuam, a gente quer reafirmar que a morte dela não foi em vão”, comenta uma das organizadoras do evento, a pesquisadora Tamara Naiz, de 33 anos.


Estão previstas ainda atividades como aula de ioga, oração dos movimentos sociais, café da manhã coletivo, rodas de conversas e vivências, apresentações de versos, rimas, poesia e música, roda de capoeira, oficinas de arte, além de uma homenagem a Marielle, Anderson e Jussélia Martins, moradora de Planaltina vítima de feminicídio na última terça-feira (10/4). “É um jeito de dizer que não aceitamos mais nenhum tipo de violência”, comenta Tamara. As atividades na praça começam às 6h da manhã e devem ir até às 12h. Há outra mobilização prevista para ocorrer na Rodoviária do Plano Piloto.

Políticos ligados ao PSOL também pretendem participar das atividades do Amanhecer por Marielle e Anderson nas cidades onde os eventos vão acontecer. Mas antes, ainda na noite desta sexta-feira (13/4), está programada uma vigília, em frente ao Ministério da Justiça, das 18h às 22h. "Estamos convocando a vigília para reformar a cobrança por Justiça para Marielle e Justiça para Anderson", informou o partido. Há atos programados em outros estados e até em outros países, como Estados Unidos, Alemanha, França, Hungria, Itália, Suécia, Argentina, Uruguai e Peru.

 

Ver galeria . 8 Fotos Mulher, negra, mãe, feminista, socióloga,
Mulher, negra, mãe, feminista, socióloga, "cria da favela", como ela mesmo gostava de falar. Nascida no Complexo da Maré, Zona Norte do Rio de Janeiro, em 27 de julho de 1979, Marielle Francisco da Silva, a Marielle Franco, era referência na luta pelos direitos humanos. A mais recente conquista na área foi o mandato de vereadora na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, eleita pelo PSOL (foto: Reprodução/Facebook )
 

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